Nova York, 25/04/2005 – A relação de dois soldados no exterior para cada um no país de origem contraria a relação que os estrategistas militares consideram necessária para manter o deslocamento a longo prazo. Mas, essa é exatamente a situação militar dos Estados Unidos. Mais de 300 mil dos 482 mil soldados do exército norte-americano estão em missões no exterior, em sua maioria no Iraque, Afeganistão, Coréia do Sul e na antiga Iugoslávia. Para corrigir essa relação, seriam necessários 100 mil novos soldados no país, mas, o governo admite que não há oferta. Nenhum dos quatro serviços militares do país preencheu suas cotas de alistamento no ano passado, enquanto o nível de recrutamento do exército regular, da reserva e da Guarda Nacional encontram-se em seu nível mais baixo em 30 anos.
Devido à falta de pessoal militar, o Pentágono se baseia na rotatividade para manter uma força de 150 mil homens no Iraque. Entretanto, uma pesquisa financiada pelo próprio Pentágono revelou, no final de 2003, que 49% dos soldados não pensavam em se alistar novamente, e é provável que essa porcentagem seja maior agora. Sem um fluxo importante de novos recrutas e diante da insustentabilidade da dependência das reservas e da Guarda Nacional, crescem os rumores sobre o alistamento obrigatório, incentivado no final de março por um relatório do Sistema de Serviço Seletivo que assegurou ao presidente George W. Bush que estaria pronto para implementar um alistamento em 75 dias.
Em setembro do ano passado, o Pentágono solicitou aos 400 mil membros da Guarda Nacional, que constituem quase a metade das forças norte-americanas no Iraque, que permanecessem no serviço ativo além do prazo previsto. Alguns soldados iniciaram ações judiciais. Esta ação presidencial, conhecida como "detenção de fugas", está destinada somente em situações de emergência ou de guerras declaradas pelo Congresso. O Iraque não corresponde a nenhum dos dois casos. O chefe da Reserva do exército afirmou em um memorando que o super deslocamento de soldados afetou a disposição de sua tropa e que esta se converteu em uma "força quebrada".
Quase desesperado, o Pentágono chamou mais de 5.500 "reservistas prontas", homens e mulheres de idade cujo serviço regular na reserva terminou, e que em muitos casos já são avós. O exército planeja lançar uma campanha publicitária de US$ 150 milhões para aumentar o número de recrutas. Jeffrey Record, um professor visitante no Air War College (Escola de Guerra Aérea), afirmou em janeiro de 2004 que o exército norte-americano "está a ponto de quebrar". E Charles Moskos, criador da política "Don?t ask, don?t tell", (Não pergunte, não conte) sobre os soldados homossexuais e ex-assessor presidencial sobre assuntos militares, declarou em julho passado que "não se pode atingir o número de soldados necessários no Iraque sem o alistamento obrigatório.
Desde a guerra do Vietnã (1960-1975), o alistamento obrigatório quase não é mencionado. Mas, a combinação da crescente necessidade de soldados com a escassez de novos recrutas e um governo que olha com suspeita para Irã, Síria e Coréia do Norte, levou diversos meios de comunicação, desde a revista Rolling Stones até a Time, a retomarem o assunto. Por outro lado, setores de esquerda se preparam para enfrentar um potencial alistamento e golpear a ocupação do Iraque em sua parte mais vulnerável: o recrutamento militar. Há cerca de uma semana, ativistas e ex-militantes que se negaram a combater se reuniram em uma conferência de "juventude e resistência" em Nova York, organizada pelo movimento No Draft, No Way (Não ao alistamento obrigatório, de maneira nenhuma).
Os participantes apresentaram um plano para apoiar e incentivar a resistência ao combate no exército e a cortar os canais de informação e métodos de recrutamento usados por organismos como o Corpo de Treinamento de Oficiais de Reserva. "Bush e (o secretário da Defesa) Donald Rumsfeld asseguraram que não haveria alistamento", lembrou Dustin Langley, ex-oficial da Marinha e organizador da campanha No Draft, No Way. "Trata-se dos mesmos homens que disseram 'sabemos onde estão as armas de destruição em massa? (no Iraque, nunca encontradas), 'devolverei a dignidade à Casa Branca? e 'seremos recebidos como os libertadores? do Iraque", ressaltou Langley. "Para haver um alistamento, é preciso apenas que o Congresso se reúna e aprove uma lei", explicou. "Os recrutadores militares não têm direito de pisar nos campus das universidades, a mentirem para nós e levarem nossos filhos para uma morte prematura", concluiu. (IPS/Envolverde)

