Tóquio, 12/04/2005 – O Japão procura seduzir a Índia para que apóie sua intenção de conseguir um lugar permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. "O apoio da Índia é chave para o Japão, que trabalha duro para ser incluído no Conselho", disse o analista Masaaki Fukunaga, especialista em assuntos da Ásia meridional na Universidade Gifu. Fukunaga explicou que Tóquio apela pra o apoio de Nova Délhi depois da hostilidade demonstrada por China e Coréia do Sul às suas pretensões. "Os últimos passos dados pelo Japão demonstram como é importante voltar sua atenção para as relações com a Índia. Tóquio se deu conta de que esse país é um sócio estratégico que pode ajudá-lo a manter o equilíbrio de poderes na Ásia", afirmou a economista Yoshie Shimane, do Instituto de Economias em Desenvolvimento, com sede na capital japonesa. O Japão converteu a Índia no principal destino de sua ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD), ao prometer-lhe mais de US$ 12,5 bilhões para este ano fiscal.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, apresentou no mês passado dois projetos para aumentar de 15 para 24 o número de integrantes do Conselho de Segurança, e exortou a Assembléia Geral a escolher um antes de sua reunião de setembro. Dos atuais 15 membros do Conselho, Estados Unidos, China, França, Grã-Bretanha e Rússia são os únicos com lugar permanente e direito de veto. Anna afirma que o órgão deve ser ampliado para que efetivamente reflita os interesses de toda a comunidade internacional. O Japão reclama um assento permanente argumentando que é um dos principais contribuintes financeiros das operações de paz das Nações Unidas, junto com os Estados Unidos, e que constantemente fornece assistência econômica a países em desenvolvimento através de sua AOD. Porém, a pretensão japonesa não foi bem recebida em Pequim nem em Seul.
Milhões de chineses teriam assinado uma petição publicada na Internet para pedir que seja rejeitada a iniciativa do governo japonês, ao qual acusam de haver distorcido os fatos históricos de seu passado imperialista em livros escolares. Entre outras coisas, os textos dizem que Tóquio "possui" as ilhas de Takeshima, no Mar do Japão, disputadas com a Coréia do Sul. O arquipélago foi ocupado nas primeiras décadas do século XX pelo outrora império japonês, que lançou uma campanha colonialista na Ásia oriental cometendo todo tipo de crime contra a população civil. A Coréia do Sul disse que coloca a soberania das ilhas acima de suas relações com o Japão.
Por sua vez, a China anunciou na semana passada que se oporia a qualquer iniciativa para ampliar o Conselho de Segurança. O embaixador chinês na ONU, Wang Guangya, disse à Assembléia Geral na última quarta-feira que se governo entendia a preocupação de Annan, mas adiantou que não apoiaria nenhuma das fórmulas apresentadas. No final do mês passado, Tóquio anunciou a suspensão de seus empréstimos em ienes a Pequim, que contribuíram para o crescimento econômico chinês desde os anos 80. Pequim chegou a receber créditos japoneses com juros baixos no valor de US$ 25 bilhões em 2000. O Japão suspendeu os empréstimos em repúdio à decisão chinesa de aumentar em 12,6% seu orçamento militar para este ano.
Analistas prevêem que Tóquio e Nova Délhi conseguirão uma nova e estreita relação nos próximos meses, que complementará a ambição econômica indiana com o objetivo de o Japão se consolidar como uma potência mundial com exército nacional próprio. A Constituição japonesa, desenhada pela ocupação norte-americana depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), proíbe as Forças de Autodefesa de participarem de conflitos internacionais. O primeiro-ministro, Junichiro Koizumi, procura deixar para trás esse papel pacifista e ter maior peso militar. No mês passado, o chanceler Yoriko Kawaguchi, ao participar de uma reunião de empresários em Nova Délhi, comparou a relação de seu país com a Índia à de um casal que começa a descobrir o amor.
Por sua vez, Yukio Okamoto, ex-assessor diplomático de Koizumi, disse no mesmo encontro que "a presença de uma Índia democrática e forte no continente asiático contribui diretamente com os interesses nacionais do Japão". Koizumi prevê visitar a Índia em maio, mas, não lhe será fácil conseguir os favores do governo indiano, que procurar uma relação econômica muito mais dinâmica do que a atual. O ministro da Indústria e Comércio da Índia, Kamal Nath, disse que seu governo busca "uma nova associação, já não centrada na OAD, mas nos investimentos estrangeiros diretos".
Nath indicou que os investimentos diretos japoneses na Índia somaram US$ 3,2 bilhões entre 1991 e 2004, 4,8% de todos os investimentos estrangeiros nesse período. A economista Shimane disse que cada vez mais empresas japonesas estão interessadas em investir na Índia, atraídas pelas fortes leis democráticas desse país, sua experiência tecnológica e mão-de-obra barata. Mas, enquanto o Japão corteja a Índia, esta se aproxima mais da China. Os primeiros-ministros Wen Jiabao, da China, e Manhoman Singh, da Índia, assinaram nesta segunda-feira, em Nova Délhi, uma série de acordos para melhorar suas relações diplomáticas, econômicas e culturais. (IPS/Envolverde)

