Tsunami: Os próprios habitantes de Aceh devem guiar a reconstrução

Jacarta, 27/04/2005 – Na medida em que a resposta à terrível destruição sofrida em Aceh por causa do tsunami do dia 26 de dezembro passado entra na fase de reconstrução, o governo da Indonésia e os organismos de ajuda externa devem limitar suas atuações a proporcionar ajuda financeira e técnica à população a afetada. O trabalho de reconstrução, incluindo a geração de projetos e o estabelecimento de prioridades, deve ser deixado nas mãos das pessoas de Aceh, que conhecem melhor seu território, o que faz falta para a reconstrução e como consegui-la. A história dos habitantes de Aceh demonstra que constituem um grupo forte e resistente, capaz de fazerem tudo por eles próprios.

O único problema que estão enfrentando é que não tem recursos para reconstruir sua província, no norte da ilha de Sumatra. Isto entretanto é apenas uma questão técnica: muitos países doaram enormes quantidades de dinheiro para os sobreviventes do maremoto, que deixou saldo de 130 mil indonésios mortos ou desaparecidos. A infra-estrutura (especificamente estradas, portos e aeroportos) deve ser a principal prioridade de reconstrução, seguida das moradias. Igualmente importante é a demarcação de terras, porque para os indonésios, incluídos os acehneses, a terra é equiparável em importância à honra da família.

A tarefa é descomunal, especialmente no setor da agricultura. Os limites das terras possuídas pelos acehneses foram destruídos pelo maremoto e isto pode dar lugar a graves conflitos. Além disso, quanto aos órfãos da província, o governo deveria estimular as adoções. A qualquer pessoa, sem importar sua religião ou filiação política, deveria ser permitido adotar as crianças acehnesas que perderam seus pais no desastre. A religião nunca deveria ser uma barreira para a adoção. Confiar a reconstrução aos acehneses não significa entretanto que o dinheiro doado por países estrangeiros deva ser administrado pelos seus moradores. É inegável o fato de que a corrupção se converteu em uma cultura na Indonésia e que tanto em Aceh quanto em outras partes do país está muito difundida.

Figuras proeminentes culpadas de corrupção na Indonésia, incluindo o ex-presidente Mohamed Suharto e seus asseclas, não foram castigados por isso. Depois de 32 anos no cargo, Suharto perdeu o poder depois dos prolongados distúrbios de 1998 e até agora conseguiu escapar das tentativas de levá-lo perante a justiça pelos crimes cometidos durante décadas de ditadura. Segundo algumas estimativas, Suharto mandou assassinar entre dois milhões e três milhões de pessoas durante sua tirania. Seus sequazes continuam livres e implicados na corrupção até hoje. Portanto, não seria surpreendente que os fundos doados por países estrangeiros para as vítimas do maremoto fossem alvo de desfalque ou roubo por parte desses funestos personagens. Para prevenir que isto ocorra, as doações estrangeiras para a reconstrução de Aceh devem ser administradas por organizações internacionais não-governamentais.

O atual presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, general da reserva, venceu em setembro de 2004 as primeiras eleições presidenciais diretas da história do país, sucedendo Megawati Sukarponutri. Porém não penso que um militar possa agir como um verdadeiro líder. A única função dos militares na Indonésia é a de reprimir o povo e nada fizeram para prevenir uma invasão estrangeira. Até agora, os acehneses lutaram contra tropas governamentais enviadas para aniquilar o Movimento para a Libertação de Aceh (GAM). O governo central combate o Movimento para a Libertação de Aceh (GAM), o qual acusa de separatista, desde 1976, quando seus líderes declararam o início da luta armada pela independência. Até o momento, o GAM continua sendo forte e goza de um apoio popular relativamente significativo em nível de base.

Maso GAM não representa nenhum perigo para os trabalhos de reconstrução em Aceh. Antes de tudo, não é um movimento de rebelião, mas um fórum onde os moradores de Aceh estão lutando contra as arbitrariedades do tratamento que recebem dos javaneses. A ex-presidente Sukarnoputri enviou tropas à região para sufocar os acehneses, o que resulta incompreensível pelo fato de que eles foram forte sustentação de seu pai, Ahmed Sukarno, primeiro-presidente da Indonésia. Durante mais de cem anos, os moradores de Aceh lutaram contra os colonialistas holandeses, que eram apoiados por mercenários de Java. Embora bem armadas, as tropas holandesas não puderam derrotar os moradores de Aceh, embora estes contassem com armas tradicionais. Agora, ao valente povo de Aceh deveria ser confiada a reconstrução de sua própria região. (IPS/Envolverde)

(*) Pramoedya Ananta Toer é o principal novelista e ensaísta da Indonésia.

Pramoedya Ananta Toer

Pramoedya Ananta Toer is Indonesia's leading novelist, short story writer, essayist, and critic.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *