Banco Mundial: Homenagem a Wolfensohn gera atrito

Washington, 30/05/2005 – Uma festa em homenagem ao presidente do Banco Mundial que está deixando o cargo, James Wolfensohn, convocada por grupos da sociedade civil, gerou um atrito entre organizações não-governamentais que criticam a instituição. Wolfensohn completará seu segundo período de cinco anos à frente da instituição no final deste mês, e será substituído no daí 1º de j unho pelo subsecretário de Defesa dos Estados Unidos, Paul Wolfowitz, um dos principais defensores da invasão do Iraque e da unilateral política externa Washington. O enfrentamento dentro da sociedade civil começou no início de abril, quando quatro importantes organizações críticas ao organismo multilateral, o Bank Information Centre (Centro de Informação Bancária), InterAction, Oxfam e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), enviaram convites a outros grupos para participarem de uma reunião de despedida para Wolfensohn.

Isto despertou imediatamente uma reação irada de organizações menores mas muito ativas no rechaço às políticas do Banco, ao qual acusam de prejudicar os países do Sul em desenvolvimento. o debate fez com que alguns grupos que pretendiam participar da festa mudassem de opinião e que a reunião, cuja realização estava prevista para ocorrer na sede da WWF, foi transferida para os mais seguros salões do Capitólio, sede do Congresso norte-americano. Entretanto, a lista de participantes foi bem longa, e incluiu organizações como Pão para o Mundo, Care, Centre for International Environmental Law (Centro por uma Lei Ambiental Internacional), American Jewish World Service (Serviço Mundial Judeu-Norte-americano), Conservação Internacional, Save the Children e a Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos.

Os organizadores explicaram que a idéia era realizar uma cerimônia em homenagem a Wolfensohn em reconhecimento por seu "papel na criação de um espaço para a participação civil". No convite assinalavam que queriam "demonstrar a importância de sua relação" com o presidente do Banco Mundial e ressaltar suas "expectativas" de que esse vínculo se aprofunde no futuro. Autoridades de organismos multilaterais comemoraram a iniciativa dos ativistas, e disseram à IPS que os êxitos pelos quais Wolfensohn quer ser lembrado no futuro se destaca sua abertura para a sociedade civil. Mas, a idéia de elogiar o presidente do Banco por ter se unido aos ativistas para lutar contra a pobreza desconcertou completamente alguns grupos, para os quais Wolfensohn simplesmente montou um aparato de relações públicas.

Os grupos contrários à homenagem disseram que sua participação na festa passaria a falsa imagem de que a instituição respondeu às suas velhas demandas de abertura e transparência. Alguns, inclusive, insinuaram que a idéia original da homenagem pariu do próprio Banco e que as quatro organizações não-governamentais que convocavam para a festa, na realidade, foram persuadidas depois de lhes prometerem uma relação de alto perfil com as autoridades do organismo multilateral. O assessor do Banco Mundial para relações com a sociedade civil, Stephen Commins, negou essa versão. "De fato, vi o email enviado pelos representantes de uma organização propondo realizar a homenagem", garantiu.

As organizações que se opuseram à festa enviaram às demais inúmeras mensagens via correio eletrônico e cartas rejeitando a idéia de festejar o legado de Wolfensohn. "A festa para Wolfensohn convocada por algumas organizações que dizem representar os povos pobres destinava-se a homenageá-lo por algo que não fez", disse à IPS a ativista Shalmali Guttal, da organização Focus on the Global South (Enfoque no Sul Global), com sede em Bangcoc. "A questão não é se as pessoas deviam ou não participar da reunião. A questão é se essas organizações estão dispostas a permitir que o Banco Mundial reescreva a história e sufoque, assim, uma luta popular de muitos anos", acrescentou.

Alguns afirmaram que Wolfensohn não concedeu nenhum acesso efetivo aos grupos da sociedade civil durante sua administração. Milhares de organizações de base e comunidades locais afetadas pelas políticas e pelos projetos do Banco foram ignorados por muito tempo, afirmou Shalmali. Por sua vez, o ativista Doug Hellintger, da organização Development GAP, com sede em Washington, afirmou que a festa de quinta-feira deixou uma perigosa mensagem para Wolfowitz, o futuro presidente da instituição. "A mensagem é: dar à sociedade civil acesso às suas decisões, mas sem fazer mudanças nas conseqüências; enfeite suas iniciativas com termos como 'redução da pobreza?, 'boa governabilidade? e 'democracia? e, assim, receberá cumprimentos dos grupos da sociedade civil por impor uma agenda que continua prejudicando os povos vulneráveis mas que enriquece os privilegiados", afirmou.

Wolfowitz chega ao Banco Mundial em meio a uma onda de indignação entre os ativistas, que o acusam de unilateralismo, belicismo e irresponsabilidade no manejo dos contratos para a reconstrução do Iraque depois da guerra lançada por Washington em maço ce 2003. Hellinger disse que uma recente investigação feita em conjunto pelo banco e pela sociedade civil sobre o impacto social das políticas de ajuste econômico impulsionadas pela instituição, bem como os efeitos ambientais de seus programas para financiar a construção de represas e a instalação de indústrias extrativas, terminou em completo fracasso. O ativista explicou que a instituição se negou a colocar em prática a maioria das recomendações incluídas no relatório final.

Por sua vez, os organizadores da homenagem a Wolfensohn afirmam que alguns grupos resistem a reconhecer os progressos obtidos durante sua liderança. "Acreditamos que o Banco ainda tem muito a percorrer, se está verdadeiramente disposto a cumprir sua missão de reduzir a pobreza no mundo. Mas, temos de reconhecer que durante a administração de Wolfensohn houve um crescente diálogo com a sociedade civil e avanços para uma abertura maior", afirmou a porta-voz da Oxfam, Carloine Green.

Por sua vez, o diretor de comunicações estratégicas da WWF, Michael Ross, disse que sua organizações conseguiu acordos com o Banco Mundial para aumentar a área de selvas protegidas no mundo. "O primeiro acordo expirou, mas em breve será renovado. A homenagem te a ver com este acordo", afirmou. O debate gerado pela homenagem deixou claro que os críticos do Banco têm opiniões diversas e apontam para distintas formas d esse relacionaram com suas autoridades. "Seria um erro dizer que a sociedade civil apóia ou rejeita o Banco. Isso homogeneizaria uma ampla gama de atores. Muitas organizações que eram críticas do Banco agora matizaram sua postura. Já não se trata de estar a favor ou contra", afirmou Commins. (IPS/Envolverde)

Emad Mekay

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