Havana, 18/05/2005 – A política antiterrorista dos Estados Unidos foi colocada em xeque com a livre presença nesse país de Luis Posada Carriles, autor de atentados contra objetivos civis cubanos, disse em Havana o opositor Eloy Gutiérrez Menoyo, enquanto uma multidão se manifestava contra Washington. Carriles, além de confessar publicamente ter sido responsável por vários atentados a bomba em Havana, está sujeito a processo penal na Venezuela por sabotagem do avião da empresa Cubana de Aviação que em outubro de 1976 causou a morte dos 73 ocupantes quando sobrevoava Barbados.
O terrorista de nacionalidade cubana contrário ao governo de Fidel castro chegou Miami no final de março procedente da América Central, e solicitou asilo político no dia 12 de abril, mas Washington ainda não se pronunciou sobre seu caso, ao qual agora somou-se um pedido de extradição apresentado pela Venezuela. Em declarações à IPS, Menoyo disse que não existe "um terrorismo bom e outro mau", e todas suas expressões devem ser proscritas. "Os Estados Unidos são um país de leis. Imagino que o poder judicial deve estar pressionando", acrescentou. Para Menoyo, a situação é "difícil" para o governo norte-americano de George W. Bush e muitas outras instituições. "Carriles participou de muitas operações militares encobertas que podem comprometer esse governo", ressaltou.
"Não é um caso fácil, mas no final Washington terá de tomar uma decisão. Prolongar esta situação pode gerar uma crise para a administração Bush", acrescentou o opositor civil cubano de origem espanhola. Menoyo fundou o grupo Câmbio Cubano durante seu exílio em Miami, de onde regressou em agosto de 2003 para viver em Havana, embora ainda não tenha permissão oficial de residência. Nesta terça-feira, centenas de milhares de moradores da capital cubana desfilaram diante do Escritório de Interesses dos Estados Unidos (sede diplomática) pedindo justiça, castigo para Carriles e "fim do terrorismo". A marcha foi encabeçada pelo presidente Fidel Castro, tendo ao lado seu irmão mais novo, Raúl, primeiro vice-presidente, chefe das instituições armadas do país e designado oficialmente para assumir o comando no caso de morte de Castro, hoje com 78 anos.
A multidão, que agitava bandeiras cubanas pela avenida que margeia um trecho de vários quilômetros da costa norte de Havana, foi estimada em mais de 1,2 milhão de pessoas por meios oficiais, quatro horas depois de seu início. Castro, que realiza uma intensa campanha na mídia na qual segue em detalhes os passos de Carriles em território norte-americano, descartou, antes da manifestação que a marcha fosse uma demonstração contra o povo norte-americano. "É uma marcha contra o terrorismo, a favor da vida e da paz de nosso povo e do povo irmão dos Estados Unidos, em cujos valores éticos confiamos", afirmou o governante, usando seu tradicional uniforme verde-oliva.
Castro qualificou Carriles e o também cubano Orlando Bosch de "sanguinários expoentes do terrorismo imperialista" contra Cuba e os acusou de "dezenas de atrozes ações em numerosos países do hemisfério", inclusive nos Estados Unidos. Bosh é co-autor da explosão do avião da empresa Cubana de Aviação, considerado o primeiro atentado terrorista confirmado contra uma linha aérea comercial e que custou a vida de 57 cubanos, 11 guianense e cinco norte-coreanos. Para Castro, "o terrorismo no mais moderno e dramático conceito, com o apoio de sofisticados meios técnicos e explosivos de grande potência, foi criado e desenvolvido pelos próprios governantes dos Estados Unidos para destruir" a revolução cubana e não cessou em mais de quatro décadas.
Textos da chancelaria cubana resumiram que, como resultado de pelo menos 681 ações de terrorismo e agressões, "provadas e documentadas", são responsáveis pela morte de 3.478 mulheres, homens e crianças, bem como da deficiência pelo resto de suas vidas de outros 2.099 cubanos. "As vítimas das ações terroristas contra Cuba não são apenas contra nossos cidadãos. Foram realizados 190 atentados terroristas contra pessoas ou bens de terceiros países radicados" nesse país do Norte, alertou essa fonte oficial cubana. A esse respeito, Fidel Castro acrescentou que, inclusive as próprias instituições e serviços norte-americanos que treinaram os terroristas de origem cubana também treinaram, com dedicação, "os que organizaram o brutal ataque às Torres Gêmeas de Nova York em 11 de setembro de 2001".
Posada Carriles esteve preso em várias prisões venezuelanas desde 1975 até 18 de agosto de 1985, quando fugiu com o suposto apoio de organizações do exílio cubano nos Estados Unidos e com a cumplicidade de "autoridades corruptas" da Venezuela, segundo dados biográficos fornecidos por Havana. Em 2000, o próprios Castro o acusou de preparar um atentado contra ele no Panamá, aproveitando sua presença na X Cúpula Ibero-americana realizada nesse país. Carriles foi preso e julgado, embora por acusações menores, junto com outros três militares anticastristas, Gaspar Jiménez, Guillermo Novo e Pedro Ramón.
Nenhum cumpriu as penas, de sete e oito aos, de prisão, pois deixaram a prisão em agosto do ano passado graças ao indulto concedido pela então presidente panamenha Mireya Moscoso, quando estava no final de seu mandato. Jiménez, Novo e Remón viajaram imediatamente para os Estados Unidos, enquanto se perdia o rastro de Carriles na América Central, até que reapareceu em território norte-americano. Ao meio-dia desta terça-feira, emissoras de rádio cubanas fizeram eco a informações desde os Estados Unidos segundo as quais Carriles havia anunciado sua decisão de abandonar esse país. "É preciso estarmos muito atentos, pode se tratar de uma manobra entre o terrorista e a administração Bush", disse um comentarista da rede de emissoras de rádio formada para cobrir a manifestação na capital cubana. (IPS/Envolverde)

