Oakland, EUA, 06/05/2005 – O Projeto Minuteman, cujos 900 voluntários patrulharam no mês passado a fronteira dos Estados Unidos com o México em busca de imigrantes ilegais, prometeu voltar em outubro, desta vez com milhares de integrantes. Esta milícia atuou nos Estados do Arizona e sonora com o apoio do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, e contou com ampla cobertura na mídia norte-americana. Trata-se de uma rede de pessoas e organizações, muitas delas armadas, que convocaram voluntários para vigiar a passagem de imigrantes que tentam entrar ilegalmente no país. Os organizadores disseram que mais de 1.600 pessoas atenderam ao chamado.
"Demonstramos que cidadãos comuns podem barrar o tráfico ilegal", diz uma declaração do grupo. "Não nos deteremos; não seremos freados. Continuaremos garantindo nossas fronteiras até sermos substituídos por nossas forças armadas e nossa Guarda Nacional". O Projeto Minuteman afeta as relações entre Estados Unidos e México, mas não é o único elemento de atrito. A forma com o sistema penal norte-americano trata as pessoas de origem mexicana – especialmente a pena de morte – e a renovação das advertências que o Departamento de Estado faz aos viajantes sobre a violência nas cidades mexicanas acrescentaram tensão ao problema.
Perante um auditório de estudantes de toda a América, na Universidade do Texas, na cidade de Edinburg, o chanceler mexicano, Luis Ernesto Derbez, atribuiu o surgimento dos Minuteman à frustração de seus integrantes. A polícia e as patrulhas de fronteira norte-americanas expressaram seu temor de que esse grupo atrapalhe suas operações, e organizações de defesa dos direitos civis mobilizaram seus voluntários para vigiar as milícias. Por fim, não houve grandes incidentes, embora agentes da Guarda de Fronteira tenham lamentado o fato de os Minuteman terem desativado, sem perceber, sensores e alarmes dedicados a rastrear imigrantes ilegais.
Mas, o governador Schwarzenegger disse a uma emissora de rádio de Los Angeles que as milícias estavam fazendo um trabalho "fenomenal" e que a Califórnia lhes daria as boas-vindas. Antes, havia dito à imprensa que a fronteira como México deveria ser "selada", verbo que mais tarde corrigiu para "garantida". Schwarzenegger trabalha para deter a queda de sua popularidade, segundo Marc Cooper, do Instituto para Justiça e Jornalismo, da Universidade do Sul da Califórnia. "Provavelmente, se trata de um mau conselho de algum assessor que entrou em pânico", disse. "É uma estratégia perigosa, e quase condenada ao fracasso", acrescentou Cooper. Porém, os Minuteman, criticados inclusive pelo presidente George W. Bush, em geral receberam uma cobertura favorável nos meios de comunicação, que publicaram milhares de artigos sobre o assunto.
Isso ocorreu porque é difícil resistir à idéia de um duelo de Far west no sul do Arizona do século XXI, disse Cooper. "Ninguém da imprensa queria dizer ao seu chefe que não havia coberto o que aconteceu na fronteira", afirmou. Por outro lado, essa mesma cobertura tornou óbvia, em geral, a ligação entre várias organizações patrocinadoras dos Minuteman e grupos que defendem a supremacia da raça branca. O co-fundador do Projeto Minteman, Chris Simcox, editor de um periódico de Tombstone, no Estado do Arizona, também é fundador da organização de defesa Civil Homeland Defense Corpos (Corpos Civis de Defesa da Pátria).
Joe McCutchen, um piloto da reserva de 73 anos que passou três semanas no deserto do Arizona como voluntário do Minuteman, há dois anos enviou uma carta ao jornal Soutwest times Record, de Fort Smith, no Arkansas, afirmando que "o governo central, os brancos, a mídia e os espetáculos são controlados pelos judeus", que também "dominam o sistema monetário mundial". Schwarzenegger poderia contar com sua própria milícia "fenomenal". Os Amigos da Patrulha de Fronteira, organização de voluntários da Califórnia integrada por 30 policiais, militares e pilotos da reserva, anunciaram sua intenção de realizar sua "vigília" em agosto. A organização é encabeçada por Andy Ramirez, líder do Save Our State (Salvemos o Nosso Estado), que participou da campanha, que teve êxito, para impedir por lei a entrega de licenças para dirigir a imigrantes ilegais.
O Projeto Minuteman, que empresta o nome do grupo de milicianos de Massachussets que no século XVIII lutaram pela independência, despertou temores depois de haver prometido que em abril vigiaria a fronteira entre o Arizona e o Estado mexicano de Sonora com mais de mil voluntários, a maioria com experiência militar e pelo menos 20 pilotando diversas aeronaves. Sua missão, segundo disseram, era deter os imigrantes sem documentos para entregá-los à patrulha de fronteira dos Estados Unidos. No México, o governo do presidente Vicente Fox, o parlamento e as organizações defensoras dos direitos humanos condenaram sua presença e pediram um freio em suas ações. Através do Arizona entra grande parte dos imigrantes que tentam chegar aos Estados Unidos. Informes oficiais indicam que cerca da metade dos pouco mais de um milhão de mexicanos detidos pela Patrulha de Fronteira em 2004 haviam entrado no país por esse Estado.
O norte-americano Salvador Zamora, porta-voz da Patrulha de Fronteira em Washington, expressou temor diante da possibilidade de os Minuteman causarem algum problema, mas, até agora, só o que mostraram é que se trata de pessoas que se divertem como se estivessem passando um dia no campo, acrescentou. Os vigilantes, como se autodenominam, passas as horas do dia sentados, conversando ou jogando cartas. As poucas armas que têm ficam guardadas quase todo o tempo, segundo se informou. Minuteman é mais uma das várias organizações e pessoas contrárias aos imigrantes que atuam na área fronteiriça entre Estados Unidos e México. Trata-se de alguns poucos indivíduos aos quais as organizações não-governamentais pedem que sejam controlados.
Ranch Rescue, Civil Homeland Defense e American Border Patrol são os nomes de alguns dos grupos com atividade esporádica em vários dos Estados do sul dos Estados Unidos. A borde de veículos todo terreno ou a cavalo, vestidos como militares ou como caubóis, sues integrantes perseguem imigrantes em zonas desérticas, as menos vigiadas pela polícia, para, literalmente, caçá-los e depois entregá-los à Patrulha de Fronteira. "Estes grupos acrescentam tensões ao problema da imigração e não vêem, ou não entendem, que se trata de um fenômeno que requer uma solução integral, como uma lei que legalize os estrangeiros que já estão nos Estados Unidos", afirmou a diretora de operações da não-governamental Rede de Ação Fronteiriça, Nahyeli Mendivil.
Aproximadamente 400 mil mexicanos conseguem a cada ano burlar os controles de imigração cada vez mais rígidos dos Estados Unidos e se integrar ao sistema produtivo desse país, enquanto mais de um milhão fracassam em sua tentativa e regressam aos seus lugares de origem. Atualmente, vivem nos Estados Unidos 39,9 milhões de pessoas nascidas na América Latina ou descendentes de imigrantes dessa procedência. Desse grupo, cerca de cinco milhões não têm documentos de imigração em dia. O México quer um acordo que regularize a permanência dos imigrantes mexicanos ilegais nos Estados Unidos, mas Washington adverte que somente promoverá um esquema baseado em permissões temporárias de trabalho. (IPS/Envolverde)
(*) Com colaboração de Diego Cevalos (México).

