EUA: Direita e ecologistas concordam em relação ao nuclear

Oackland, Estados Unidos, 27/05/2005 – Grupos ambientalistas dos Estados Unidos que lutam contra o aquecimento do planeta, feridos por derrotas políticas, pela indiferença do público e por reduções de orçamento, paulatinamente se aproximam de algumas posições dos neoconservadores. Em seu afã de reduzir as emissões de dióxido de carbono – segundo a maioria dos cientistas, a principal causa da mudança climática – cada vez mais ativistas começam a defender virtudes da energia nuclear, um ponto no qual coincidem com o setor mais direitista dos Estados Unidos, que busca maior independência do petróleo do Oriente Médio. Os ambientalistas norte-americanos entraram em um período de revisão de estratégias e posturas depois que várias medidas para a proteção do meio ambiente adotadas pelo governo do ex-presidente Bill Clinton (1993-2001) foram revertidas pela atual administração de George W. Bush.

O ensaio "The Death of Environmentalism" (A morte do ambientalismo), publicado em outubro passado pela analista político Ted Nordhaus e o assessor em relações pública Michael Shellenberger, destaca que o movimento ambientalista norte-americano teve vários êxitos décadas passadas, com a aprovação de uma série de leis para a proteção das espécies em risco de extinção, da água e das áreas verdes. Mas, também assinala que as "centenas de milhões de dólares destinados à luta contra o aquecimento do planeta" tiveram pouquíssimos resultados, e destaca que o movimento ambientalista carece de uma boa relação com a população. Os autores exortaram os ambientalistas a "repensarem tudo", desde alianças e estratégias até posições sobre assuntos-chave e sua imagem perante a opinião pública.

Nos últimos anos, o movimento ambientalista sofreu grandes reduções em seu orçamento e teve várias derrotas políticas, como o retirada dos Estados Unidos do Protocolo de Kyoto sobre mudança climática e a aprovação de uma série de projetos de exploração de petróleo em terras virgens do Alasca. Agora, vários líderes ecologistas, como o diretor-executivo da organização Defesa Ambiental, Fred Krupp; o presidente do Instituto de Recursos Mundiais, Jonathan Lash, e o decano da Escola de Estudos Ambientais da Universidade de Yale, James Gustave Speth, promovem a pesquisa dos benefícios da energia nuclear. Em um artigo publicado na edição deste mês da revista Technology Review, intitulado "Heresias ambientalistas", o ativista Stewart Brand assinala que, talvez, a única forma de deter a mudança climática seja deixar de utilizar combustíveis fósseis, apelando para a energia atômica.

A maioria dos cientistas coincidem em afirmar que o atual ciclo de aquecimento planetário é causado pelos gases que provocam o efeito estufa, derivados, sobretudo, da queima de combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás. Em fevereiro entrou em vigor o Protocolo de Kyoto, que obriga nações industrializadas a reduzirem suas emissões de gases causadores do efeito estufa, dos quais o principal é o dióxido de carbono. Bush repudiou o Protocolo em 2001 e retirou a assinatura colocada por seu antecessor, Bill Clinton, por considerar que afetaria gravemente a economia nacional. Os Estados Unidos produzem um quarto dos causas que provocam o efeito estufa do planeta. Somente o Estado do Texas, do qual Bush foi governador (pertencente a uma família com interesses indústria do petróleo) supera as emissões anuais da França.

No início deste mês , Robert Bryce, autor do livro "Cronies: Oil, the Bushes, and the Rise of Texas, America´s Superstate" (Comparsas: pretróleo, os Bush, e o auge do Texas, o superestado), informou na revista Slate que os ambientalistas estão cada vez mais perto dos neoconservadores em certas posturas. O ex-chefe da Agência Central de Inteligência (CIA) James Woolsey e o presidente do direitista Centro de Políticas de Segurança, Frank Gaffney, dois acérrimos defensores da invasão norte-americana no Iraque, insistem em desenvolver outras fontes de energia para reduzir a dependência do petróleo do Oriente Médio. Os neoconservadores "buscam os verdes apenas por razões geopolíticas, não ambientalistas", afirmou Bryce.

Esta coincidência entre dois grupos historicamente antagônicos ganha relevância depois da divulgação de um projeto de lei, promovido pelos senadores John McCain, do governante Partido Republicano, e Joseph Lieberman, do Partido Democrata (oposição), que outorgaria "significativos incentivos financeiros ao desenvolvimento de três novas tecnologias nucleares". O diretor-executivo da organização não-governamental norte-americana Wild Wilderness, Scott Silver, afirma que "enquanto o mundo se aproxima de um futuro em que os custos energéticos serão cada vez maiores, o apoio de alguns ambientalistas à energia nuclear é previsível".

"A missão não declarada de muitas organizações é conseguir um crescimento sustentável, o que se traduz em apoiar o crescimento econômico minimizando os prejuízos ecológicos", disse Silver à IPS. "Desta maneira, a luta contra o aquecimento to planeta não estará voltada a reduzir as pegadas da humanidade no meio ambiente, mas em conseguir um crescimento sustentável", explicou. "Ao apresentar o problema como uma questão de 'demasiado dióxido de carbono?, a energia atômica se converte em uma solução óbvia. Para a indústria e os neoconservadores, o problema nada tem a ver com o meio ambiente. Para eles, trata-se de conseguir um crescimento sustentável durante um período de escassez energética", acrescentou. (IPS/Envolverde)

Bill Berkowitz

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