Religião-mulheres: Não basta ser freira

Montevidéu, 02/05/2005 – As mulheres católicas que aspiram ao sacerdócio enfrentam uma dura temporada de tormentas, iniciada com o pontificado de Bento XVI. Alguns acreditam que o ministério feminino é apenas questão de tempo, pois a Igreja lançará mãos das mulheres como paliativo para a redução do número de sacerdotes, que ameaça sua sobrevivência em vários lugares do planeta. Durante o papado de João Paulo II (1978-2005), o número de católicos passou de 758 milhões para 1,071 bilhão, medidos pela quantidade de batismos, apenas acompanhando o crescimento da população mundial. No mesmo período, o número de padres caiu 3,7% e o de freiras 20,9%, segundo o Anuário Pontifício. Mas, algumas mulheres não gostam desse argumento.

"É a primeira vez que me dizem que as mulheres que sa favor da ordenação feminina o são para a sobrevivência da Igreja", afirmou à IPS a teóloga uruguaia Gladys Parentelli, coordenadora do movimento Somos Igreja, da Venezuela, e integrante de seu conselho mundial. "Este seria um argumento perante a hierarquia do Vaticano, porque esta se preocupa muito com a falta de vocações por parte de homens. Entretanto, nós mulheres que lutam pela ordenação o fazemos porque temos vocação, e, como batizadas, temos pleno direito a isso, independente do que diz o Vaticano", acrescentou. Os papas Paulo VI (1963-1978) e João Paulo II se encarregaram de por uma pedra sobre essa aspiração, alegando razões teológicas e de tradição e insistindo em que as mulheres têm outros espaços nos quais podem desenvolver suas vocações.

Por que não basta à mulher ser freira ou catequizadora?, perguntou à IPS a designer porto-riquenha Ivelisse Colón Nevárez, ativa aspirante ao sacerdócio. E respondeu: "porque a pessoa esse desejo como um chamado de Deus. Se eu tivesse recebido um chamado para a vida monástica, acredite que há muito tempo estaria em um convento, e não escrevendo isto", disse Ivelisse através do correio eletrônico. "As vocações sacerdotais e monásticas são diferentes. O sacerdote é ordenado para vários propósitos: celebrar a Eucaristia, o centro da fé católicas; ser um médico de almas, que vela pelo bem-estar espiritual dos fiéis, confessa e absolve, da direção espiritual; aconselha e consola", entre outros. "A vida monástica é serviço, mas, visto de outra perspectiva", afirmou.

"O padre é como se fosse a cabeça, as freiras o coração e os irmãos e irmãs ativos as mãos e os pés da Igreja Católica", acrescentou Ivelisse, que pertencem à Ordem Franciscana Seglar (laica) e à organização Women Priests (Mulheres Sacerdotes). Não basta às mulheres poderem ser o coração, os pés ou as mãos. Em 2002, o bispo argentino Rômulo Braschi ordenou quatro alemãs, duas austríacas e uma norte-americana em um navio, no rio Danúbio. As sete mulheres foram excomungadas. Elas apelaram e enviaram cartas públicas ao Vaticano, assegurando que celebravam missa e ministravam os sacramentos. A sentença da Congregação para a Doutrina da Fé e sua posterior ratificação não deixaram dúvidas.

Uma proibição definitiva foi reiterada em um documento posterior, assinado em 2004 pelo então prefeito da Congregação, Joseph Ratzinger, o atual papa. Entretanto, o sacerdócio feminino e o celibato opcional são para alguns teólogos e movimentos católicos as soluções para reverter a queda das vocações. "Costumamos pensar que (esse problema) é mais grave na América Latina (que tem quase a metade dos católicos do mundo), porque a pobreza e a escassez de estradas e meios de comunicação tornam mais difícil o contato dos padres com seus fiéis", afirmou Ivelisse.

No México, há um sacerdote para cada 7.200 fiéis, e a idade média dos parcos é de 65 anos. No Brasil, país com maior número de católicos, essa relação é de 7.300 fiéis para cada padre,apesar de uma política local de estímulo às vocações que permitiu aumentar a quantidade e sacerdotes de 14 mil para 17 mil na última década. Também há 37 mil religiosas consagradas, quantidade inalterada no Brasil, disse a pesquisadora Silvia Regina Fernandes, do Centro de Estatística Religiosa e Pesquisas Sociais. É raro as freiras seguirem estudos superiores, como os padres, o que as coloca em "inferioridade intelectual", ressaltou. O estancamento feminino obedece à diferença de tratamento, disse à IPS a ativista Regina Soares, da organização Católicas pelo Direito de Decidir.

As mulheres não estão impedidas apenas de chegar aos postos de tomada de decisão. Os seminaristas são mantidos pela Igreja e podem se dedicar ao estudo, enquanto as mulheres devem estudar e trabalhar para se sustentarem.
Depois de ordenados, os padres obtêm um posto em uma paróquia, com remuneração e boas condições de vida, que incluem, às vezes, "telefone celular e até automóvel", destacou Regina. Por outro lado, as religiosas e laicas brasileiras ampliaram sua ação tradicional em hospitais e escolas a partir do Concílio Vaticano II (1962-1965) e foram "a sustentação das comunidades eclesiásticas de base" e do movimento voltado às periferias pobres das grandes cidades ou do interior do país, acrescentou. Um exemplo foi a freira norte-americana Dorothy Stang, assassinada em fevereiro na Amazônia por defender direitos dos camponeses. No Brasil não existe um movimento organizado em favor do sacerdócio feminino, apenas manifestações dispersas e o "incômodo" da discriminação, afirmou Regina.

Por sua vez, Ivelisse Cólon acredita que a pobreza e o isolamento podem determinar "a dificuldade de organizar movimentos pró-ordenação da mulher. Eu mesma não conheço um único grupo pró-ordenação latino-americano. A maioria das pessoas com quem entrei em contato está por sua conta, sem um grupo para apoiá-la", explicou. Parentelli, por sua vez, disse conhecer "uma legião de mulheres que desejaram ser ordenadas, mas nunca se lançaram nessa busca porque compreenderam que era uma luta perdida". Inclusive, "a maioria das teólogas que conheço, em todos os países latino-americanos, obtiveram seus títulos em universidades protestantes, com a Universidade Bíblica Latino-americana da Costa Rica, ou estudaram na Europa ou nos Estados Unidos", ressaltou.

Na Venezuela "aumentou de tal forma a procura de jovens pelos seminários que agora estes não mais os aceitam por falta de espaço", acrescentou. Mas, "afirma-se que uma porcentagem significativa corresponde a quem não tem oportunidade de entrar para uma faculdade", disse Parentelli. "No meio rural venezuelano, o batismo foi tradicionalmente feito por laicos, o "rezador" ou "rezadora", pois "nunca houve vocações numerosas". Diante dessa escassez, a hierarquia eclesiástica decidiu ordenar como diáconos laicos casados e pedir às mulheres que assumissem as tarefas dos padres", prosseguiu. "Nas comunidades excluiu das do campo e da cidade, papel do pároco passou a ser feito por freiras e laicas que cumprem quase todas suas funções (menos oficiar missa, consagrar e realizar casamentos). Também coordenam círculos de estudo da Bíblia e acompanham as pessoas em todos momentos", ressaltou.

Os sacerdotes "se ocupam de atividades mais intelectuais, com ser reitor de universidade, dirigir centros de pesquisa, ser capelão militar, apoiar ou se opor a governos, escrever livros, ser especialista em problemas legais ou técnicos", disse Parentelli. Congregações de freiras com colégios para meninas e jovens "os abandonaram para se dedicar a tarefas pastorais, entre as mais importantes estão a do Sagrado Coração e a de San José de Tarbes, com 25 estabelecimentos na Venezuela", acrescentou. Alguns afirmam que nos primeiros séculos da era cristã as mulheres exerceram o ministério e o púlpito. E assinalam com provas afrescos e mosaicos, escritos sagrados e até a própria proibição de ordenar sacerdotisas, liberada no século X.

"Na Igreja primitiva as mulheres serviam como diáconas e até é possível que existam evidências de que presidiam o que agora chamamos de missa. A tradição não para em um determinado ponto da história, também inclui o presente", disse em carta, pouco antes de morrera em 2001, aos 84 anos, o padre norte-americano John J. Egan. A cúria romana está longe de admitir isso. "A Igreja não tem, de modo algum, a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres", afirma a declaração vaticana Inter insigniores, de 1976. " Cristo assim estabeleceu ao dar sua constituição fundamental à Igreja, ao destinar-lhe sua antropologia teológica", escolhendo apóstolos somente entre os homens, e "a própria Igreja sempre foi assim", afirmava Paulo VI em sua alocução sobre "O papel da mulher no desígnio da salvação", de 1977.

Esses ditames foram referendados por Karol Wojtyla durante seu pontificado como João Paulo II. "Do novo pontífice é muito pouco, ou nada, o que se pode esperar", pois promoveu a idéia de que a não ordenação de mulheres é "um ensino infalível", algo que não é correta", afirmou Ivelisse Cólon. Por sua vez, a espanhola aspirante ao sacerdócio Mercedes Carrizosa, disse em 2002, ao jornal El País, de Madri, que "quando não houver mais remédio, a Igreja lançará mão da mulher e do homem casado". Licenciada em teologia, Mercedes descreveu que algumas paróquias são obrigadas a se contentar com uma missa gravada. Entretanto, a frustração "não é minha, mas do povo de Deus. Quando visitei comunidades bastante isoladas do Peru, atendidas por freiras, vi que precisavam viajar seis horas por rio para trazer Jesus enlatado", acrescentou. (IPS/Envolverde)

* Com a colaboração de Mário Osava (Brasil)

Diana Cariboni

Diana Cariboni es editora jefa asociada de IPS desde junio de 2010 y jefa de redacción del servicio mundial de noticias en español y de América Latina desde marzo de 2003. Desde 2007 edita el premiado servicio semanal sobre ambiente y desarrollo sostenible Tierramérica, que publican más de 20 periódicos de América Latina. Encabezó los equipos que cubrieron las negociaciones de cambio climático de Copenhague y de Cancún, en 2009 y 2010, y la cumbre Río+20, en 2012. Ha entrenado a decenas de periodistas de América Latina y enseñó periodismo en la Licenciatura de Comunicación de la Universidad ORT de Uruguay. En 2007 obtuvo con su colega Constanza Vieira la Beca AVINA de Investigación Periodística en Desarrollo Sostenible por el proyecto La riqueza inverosímil del Chocó. Se inició como periodista en 1992, trabajando para varios medios uruguayos, como los diarios El Observador y El País y las radioemisoras Sarandí y Setiembre FM. Se especializó en tecnología, ciencia y salud pública. También escribió sobre política internacional, economía y ambiente para distintas publicaciones del Instituto del Tercer Mundo. Es casada, tiene cinco hijos y una nieta. Nació en Argentina en 1962 y se mudó a Uruguay en 1984. Trabaja para IPS desde 2001. Puedes escribirle a dcariboni@ips.org o seguirla en @diana_cariboni

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