Nações Unidas, 18/05/2005 – Enquanto a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas se prepara para uma conferência de alto nível sobre HIV/aids, no próximo mês, funcionários, especialistas e ativistas lançaram uma voz de alerta pela falta de fundos para a luta contra essa doença mortal. "Existe uma crise urgente em nível mundial, e é uma crise de financiamento", disse á IPS Paul Zeitz, diretor-executivo da Global Aids Alliance, coalizão de organizações não-governamentais que desde Washington se dedicam a combater a aids. "À medida que os custos sobem, mais pessoas contraem o vírus da deficiência imunológica adquirida (HIV) e as necessidades estimadas aumentam", acrescentou. A conferência da ONU, prevista para os dias 2 e 3 de junho, vai revisar os avanços alcançados até agora na luta contra a aids.
No mês passado, o secretário geral da ONU, Kofi Annan, advertiu sobre a "persistente brecha entre as necessidades de financiamento e os recursos disponíveis, tanto em nível nacional quanto internacional". O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida) calculou que deverão ser investidos anualmente US$ 12 bilhões, a partir de agora, até chegar aos US$ 20 bilhões em 2007. O gasto com a luta contra a aids aumentou de US$ 2,1 bilhão em 2001 para US$ 6,1 bilhão no ano passado. Mas, prevê-se que esse financiamento permanecerá estancado ou crescerá marginalmente. Stephen Lewis, enviado especial da ONU para a África para atender a emergência do HIV/aids, concordou com a maioria dos especialistas, funcionários e ativistas de que a falta de recursos dificulta a luta contra a doença.
"O fato de termos de lutar por motivos relativamente pequenos para salvar a vida de milhões de pessoas, quando agora gastamos US$ 1bilhão de dólares em armas e US$ 300 bilhões no Afeganistão e Iraque é uma obscenidade, uma mortificante indignidade internacional", disse Lewis à IPS. "Falamos de quantias relativamente pequenas, um máximo de US$ 20 bilhões em 2007, para salvar vários milhões de vidas. Á algo espantosamente errado", acrescentou. O ritmo de propagação da aids continua mais acelerado do que os esforços para deter a enfermidade. A África subsaariana é a região mais necessitada de fundos, e aquela onde o HIV é transmitido com maior rapidez.
"A falta de financiamento é mais clara na África", disse à IPS Ann-Louise Colgan, da organização África Action. "A marginalização do continente não só o deixa mais vulnerável ao HIV como, também, deprime a capacidade dos países africanos responderem a esta crise de saúde", afirmou. Segundo Colgan, as necessidades financeiras são, na realidade, muito frugais em comparação com os grandes gastos militares dos países mais ricos. "Esses mesmos países falham consistentemente em dar o financiamento necessário para lutar contra a doença na África. Parece ser o caso de uma apatia internacional", acrescentou. Colgan recordou que para o diretor da Onuside, Piter Piot, a crise teria sito atendida de "modo muito diferente e com maior urgência" se tivesse ocorrido na Europa " e se os brancos fossem os mais afetados".
Os Estados Unidos, os 25 países da União Européia e o Japão são "mesquinhos", disse Zeitz. O presidente George W. Bush prometeu em janeiro de 2003 US$ 15 bilhões no período de cinco anos, dos quais US$ 10 bilhões eram compromissos que não haviam sido formulados até então, recordou o ativista. "Pensamos que daria cerca de US$ 3 bilhões por ano, mas isso não aconteceu. Graduaram o financiamento com muita lentidão", afirmou. O Grupo dos Sete países mais industrializados (Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Japão, Canadá e Itália) devem recobrar o juízo quando falarem de aids, e que isso "depende da próxima cúpula", que acontecerá em julho na Escócia.
Uma das possibilidades é que o anfitrião da cúpula, o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, e seu ministro das Finanças, Gordon Brown, convençam seus colegas a duplicar a ajuda ao exterior. O "grande avanço" deve proceder dos Estados Unidos, segundo Lewis. "E ninguém está tão próximo de Bush quanto Blair. Se Bush fará outra jogada dramática, deverá ser empurrado por Blair", afirmou. Em janeiro de 2002, governos, agências da ONU, organizações da sociedade civil e o setor privado criaram um Fundo Conjunto para a Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária. O Fundo demonstrou ser um mecanismo eficaz para atender a epidemia em 127 países. Mas, os Estados Unidos e outros países ricos parecem decididos a não financiar esse organismo, afirmou a ativista.
Washington preferiu, por outro lado, manter seu enfoque unilateral para atacar a aids, tanto na África como em todo o mundo, segundo Colgan. E as próprias iniciativas norte-americanas, concentradas na abstinência sexual e promoção de medicamentos caros, estão sem financiamento. Desde que a aids foi detectada em 1981, 20 milhões de pessoas morreram por casa da doença. Em dezembro passado viviam com o HIV cerca de 39,4 milhões de pessoas. A taxa de infecção continua aumentando, com 4,9 milhões de pessoas que contraíram o vírus somente em 2004, segundo estudos da ONU. (IPS/Envolverde)

