Havana, 20/06/2005 – O Programa Mundial de Alimentos lançou um plano de assistência para 773 mil pessoas afetadas pela seca em Cuba, confirmou à IPS a representante dessa organização neste país, Rosa Inês Antolín. A funcionária explicou que o plano de US$ 3,7 milhões poderia começar em julho, com fundos do PMA suficientes para cobrir os primeiros dos três meses previstos. Para o restante do período espera-se apoio dos doadores, entre os quais figuram União Européia, Canadá e Japão, disse a representante dessa agência da Organização das Nações Unidas. A operação de emergência acontecerá em coordenação com o Ministério para o Investimento Estrangeiro e a Colaboração Econômica e com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).
"O projeto complementa os esforços do governo, que já destinou uma ração básica extra às famílias mais vulneráveis da região oriental", a mais prejudicada por uma seca que se prolonga desde 2003, disse Antolín. A situação é grave, pois a falta de chuvas causou escassez de alimentos em Guantânamo, Granma, Santiago de Cuba, Las Tunas e Holguín, no leste do país, e na província central de Camagüey, a cerca de 500 quilômetros de Havana. A assistência do PMA ajudará crianças menores de 5 anos, mulheres grávidas e idosos, e consiste na distribuição de feijão, arroz e óleo. Também está previsto o fornecimento de vasilhames para conservar água que o Estado distribui a milhares de famílias em caminhões-pipa.
Os cultivos essenciais e a produção pecuária foram duramente afetados pela falta de chuvas, com sérias implicações na disponibilidade como o acesso aos alimentos em toda região oriental deste país de 11,2 milhões de habitantes. A estação da chuva que começou em maio poderia beneficiar os cultivos de vegetais nas hortas urbanas. "Entretanto, muitas famílias perderam sua plantação ou não puderam semear porque não havia água para irrigação. Agora, começa um período muito difícil, pois não há colheita", afirmou Antolín. O PMA prevê que a insegurança alimentar será especialmente crítica neste verão boreal devido às perdas ocasionadas nas colheitas durante o mês de maio.
Em um comunicado distribuído à imprensa, a agência recordou que este ano as chuvas estão escassas e abaixo da média, enquanto os especialistas prevêem que a situação não mudará. "A seca deixou sem água para consumo humano um em cada seis cubanos, por isso o governo de Cuba realizou uma série de medidas destinadas a facilitar o acesso da população à água potável", disse o PMA. Especialistas cubanos consideram que a intensidade da seca, que se arrasta desde 2003, é a pior desde 1901, e acrescentam que as chuvas que caíram em maio e junho ainda são insuficientes para melhorar a disponibilidade de água.
Cuba dispõe de 241 represas, com capacidade de 8,795 bilhões de metros cúbicos, e a metade delas está abaixo de suas capacidades de aproveitamento. Dezessete por cento das represas não podem ser utilizadas porque estão em nível crítico, conhecido como "volume morto". Os fortes aguaceiros das últimas semanas beneficiaram algumas províncias orientais, mas não de maneira suficiente. Em Santiago de Cuba, mais de 800 quilômetros a leste da capital, as chuvas aumentaram de 27% para 36% o nível de armazenamento das represas, o que contribui para aumentar o volume de água distribuído à população.
Calcula-se que 1,4 milhão de pessoas se abastecem de água através de caminhões-pipa, a maioria moradores de Camagüey, Las Tunas e Holguín. Estas duas últimas províncias ficam a mais de 650 e 680 quilômetros de Havana. Antolín disse que o projeto de ajuda do PMA inclui também o fornecimento de peças de reposição para esses caminhões-pipa, que estão em estado muito ruim. Entre junho e novembro de 2004, a agência proporcionou ajuda alimentar de emergência para 140 mil crianças com menos de 5 anos em três das províncias orientais mais afetadas pela seca, Las Tunas, Holguín e Camagüey.
Em 2004, o governo de Fidel Castro investiu quase US$ 20 milhões em obras de infra-estrutura hidráulica, em busca de soluções a longo prazo para uma situação que poderia se agravar mais no futuro. Segundo estimativas oficiais, as perdas causadas pela seca em 2004 chegaram a US$ 835 milhões, o que representa 2,5% do produto interno bruto. Dados do Instituto Nacional de Recursos Hidráulicos e do Ministério das Ciências, Tecnologia e Meio Ambiente indicam que Cuba tinha, antes de sofrer a prolongada falta de chuva, 1.204 metros cúbicos de água por habitante, uma relação que a coloca entre os países com tensão hídrica.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), os graus de disponibilidade de água por habitante devem estar em torno dos 1.700 metros cúbicos. O cálculo é feito a partir do estudo das fontes de água de cada nação. As províncias com tensão hídrica mais preocupante são Holguín e Las Tunas, com indicadores anuais de 5050 e 613 metros cúbicos por habitante, seguidas de Santiago de Cuba com 665 e Guantânamo, no extremo oriental, com 677 metros cúbicos por pessoa. (IPS/Envolverde)

