Somália: Governo vai continuar exilado no Quênia

Nairóbi, 07/06/2005 – O ressurgimento da violência na cidade somaliana de Baidoa mais uma vez adiou o plano do presidente Abdullahi Yusuf Ahmed, exilado no Quênia por razões de segurança, de transferir o governo para seu país, e não há perspectivas de que a situação melhore a curto prazo. A outra opção que Yusuf tem é instalar-se em Jowhar, a cerca de 90 quilômetros de Mogadíscio, capital da Somália. A maioria dos 275 membros do Parlamento, também exilado em Nairóbi, aprovou há algumas semanas o plano de mudança do governo de Yusuf para qualquer dessas duas localidades, com a condição de que instale um pequeno escritório representativo em Mogadíscio.

Entretanto, a violência voltou a deter os progressos políticos. "O gabinete do presidente será trasladado para a Somália o mais rápido possível", garantiu o porta-voz governamental, Yusuf Baribari. Os debates no Parlamento sobre o lugar onde deve ser instalado o governo tiveram momentos de alta tensão. Alguns legisladores chegaram, inclusive, a trocar socos e atirar cadeiras uns nos outros. Yusuf Ahmed não tem apoio popular em Mogadíscio, atualmente controlada por milícias ilegais, e por isso prefere instalar-se em Baidoa ou Jowhar, até que esses grupos sejam desarmados e a segurança restabelecida.

Mas, isto não é compartilhado por alguns membros do parlamento, sobretudo os procedentes da capital. Os legisladores pedem que o governo se instale em Mogadíscio, como estabelece a Constituição de transição. O governo de transição foi instalado em Nairóbi no início deste ano por causa de persistentes problemas de insegurança no país do Chifre da África. As gestões para sua mudança para território somaliano caminhavam com relativo êxito até a semana passada, quando ocorreram os enfrentamentos em Baidoa, nos quais morreram 13 pessoas e 29 ficaram feridas.

"Lamentamos o ocorrido. Exortamos as partes envolvidas a se absterem de futuras ações, especialmente devido ao custo em vidas humanas", disse Baribari a jornalistas em Nairóbi. "Aqueles que estão contra o plano de traslado se opõem à paz e, em particular, à segurança da sociedade somaliana. É lamentável que depois de 14 anos de guerra ainda haja mais perdas de vidas. É verdadeiramente lamentável", acrescentou. A Somália, antiga colônia italiana, está em guerra civil desde 1991, quando diferentes facções derrubaram o ditador Mohammed Siad Barre para, em seguida, envolverem-se em lutas internas. A província de Puntland declarou sua autonomia em 1998 e a de Somalilândia, ex-colônia britânica anexada por Mogadíscio em 1960, declarou sua independência em 1991, mas, ainda não foi reconhecida pela Organização das Nações Unidas.

Os clãs Hawiye, Digle-Mirifle, Dir e Darod lutam entre si, e ainda existe um quinto, formado por 14 grupos minoritários. A guerra civil deixou mais de 300 mil mortos, segundo agências humanitárias. A intervenção da ONU ocorreu entre 1992 e 1995. Os combates em Baidoa, controlada pelo legislador Mohammed Ibrahim Habsad, começaram depois de uma série de ataques cometidos pelas forças leais aos ministros Aden Madobe e Hassan Mohammed Nur "Shatigadud", defensores da intenção de Yusuf Ahmed de instalar seu gabinete nessa localidade. Habsade prefere que o governo seja trasladado para Mogadíscio, pois teme perder autoridade em Baidoa caso o presidente se faça presente. Isto se deve ao fato de a localidade ficar próximo da fronteira com a Etiópia, de onde se presume que o mandatário recebeu apoio de simpatizantes, incluindo o envio de armas.

Não é a primeira vez que a Etiópia se vê envolvida em problemas internos da Somália. No mês passado, 10 ministros e legisladores somalianos acusaram o governo etíope de colaborar com as milícias em Baidoa. "Consideramos que estas ações do governo etíope são ilegais. Conclamamos a comunidade internacional, em particular o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, para pressionar a Etiópia para que, de uma vez por todas, detenha suas agressões contra a população somaliana", disse o parlamentar Abdalla Haji Ali. Mas, as autoridades da Etiópia negaram as acusações. "Essas afirmações não têm fundamento. Estivemos envolvidos no processo de paz para a Somália por muito tempo. Não teria sentido trabalhar para conseguir a paz e, depois, causar uma nova guerra.

Não há maneira de estarmos envolvidos nas escaramuças", disse à IPS o enviado especial desse país ao processo de paz somaliano, Abdul Aziz Ahmed.

As conversações de paz sobre a Somália começaram em 2002 no Quênia, com patrocínio da Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (Igad), bloco regional integrado por Djibuti, Etiópia, Quênia, Somália, Sudão e Uganda. A Igad foi chave para a criação do governo de transição. Por sua vez, Yusuf Ahmed realiza gestões junto à União Africana para que esta envie um novo contingente internacional, que permita restabelecer a paz e cumprir o sonho de instalar o governo em seu próprio país. (IPS/Envolverde)

Joyce Mulama

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