ROMA, 25/07/2005 – Cerca de 15 mil pessoas por ano saem da Itália para conviver com comunidades do Sul em desenvolvimento ou dos países do leste europeu.
Cada vez mais "turistas sociais" preferem conviver algumas semanas com moradores dos Andes peruanos ou do Tibete em lugar de desfrutar luxos em capitais européias ou balneários asiáticos. Esses viajantes deixam de lado os coquetéis junto a piscinas no Caribe, os cruzeiros pelas ilhas Baleares ou os hotéis cinco estrelas norte-americanos para conhecer de perto realidades do Sul em desenvolvimento ou dos países do Leste europeu e compartilhar o estilo de vida e os problemas das comunidades locais. Tais experiências ampliam o conceito de "ecoturismo", popularizado no início dos anos 90, na medida em que não somente procuram uma convivência respeitosa com o meio ambiente, como também com seres humanos de diferentes culturas, indígenas, camponeses ou cooperativistas, explicam especialistas no assunto.
O turismo social aumenta ao ritmo de 10% ao ano, mas ainda está muito abaixo do tradicional, que mobiliza US$ 622 bilhões por ano, fatura o equivalente a 7% do produto bruto mundial, e dá trabalho a 127 milhões de pessoas, reconhece a Associação Italiana de Turismo Responsável (Airt). Quinze mil pessoas saem da Itália a cada ano para participar da ajuda a comunidades pobres proporcionada por 63 associações italianas. "Nesse turismo social, o centro de interesse é a comunidade hospedeira, que tem direito a dizer que tipo de visitante aceita", explicou ao Terramérica o presidente da Airt, Maurizio Davolio. "O turismo tradicional só deixa, para as comunidades, migalhas da riqueza que gera, e nós lhes damos a maior parte", afirmou.
Estas viagens não convencionais são longas, lentas e preparadas com antecipação para evitar danos ao meio ambiente. Na cidade de Milão, norte da Itália, a agência de viagens Pindorama organiza somente 25 viagens de turismo social por ano, para grupos de 15 pessoas durante 20 dias, para 16 destinos em quatro continentes. O custo médio é de quase US$ 3 mil por pessoa. O turismo social é mais caro do que o tradicional porque as viagens são feitas por grupos pequenos que não têm acesso aos descontos de empresas aéreas e hotéis disponíveis para grupos numerosos.
Os clientes da Pindorama vão ao Estado mexicano de Chiapas e se hospedam em casas de indígenas, em Lima visitam grupos de jovens trabalhadores ou convivem com pastores de ovelha na Patagônia argentina. "No começo, estas viagens eram para militantes", mas hoje são feitas por simples "turistas responsáveis que respeitam a natureza e a cultura de outros povos, e têm vontade de conhecer coisas novas", disse ao Terramérica Daniela Cazzaniga, representante da agência.
Tiziano Colombo, um engenheiro milanês, visitou durante 15 dias a Cidade do Cabo, no África do Sul, e embora não tenha viajado com uma agência de turismo social, contratou uma excursão local, "por baixo dos panos", que lhe mostrou a pobreza dos bairros periféricos dessa cidade. Seu guia, filho de imigrantes procedentes da Índia, o levou a casas de três famílias para que contassem como viviam sob o regime racista do apartheid. Em troca do tempo e da paciência de seus interlocutores tinha de comprar uma bebida fria ou quente para contribuir com a economia familiar.
Grupos que apóiam o desenvolvimento em países pobres obtêm recursos para oferecer serviços para o turismo social. O Centro Regional para a Cooperação (Cric), com sede em Reggio Calábria, ao sul da Itália, organiza viagens de 20 dias, em parte sociais e em parte tradicionais, para Nicarágua, Senegal, Equador e à região espanhola de Andaluzia, cobrando US$ 1,4 mil por pessoa. No Senegal, os turistas fazem excursões tradicionais e também até Davio, uma pequena comunidade do norte do país, onde ficam por 15 dias albergados em uma cooperativa de 70 mulheres, que produzem telas pintadas. Os recursos obtidos com essas viagens são usados para apoiar a comunidade de Davio.
Na cidade andaluz de Almería, as viagens organizadas pelo Cric permitem conhecer festas tradicionais de Páscoa e o racismo contra os imigrantes marroquinos e os ciganos. São visitas mais curtas, de dez dias, e mais baratas, cerca de US$ 1,2 mil por pessoa. Os hospedeiros são grupos locais de luta contra o racismo e "os turistas têm encontros com sociólogos e antropólogos que explicam o problema, além de assistem a espetáculos de flamenco", disse Gabrielle Ciapparella, do Cric. A Associação Jonas, sem fins lucrativos, há 16 anos organiza visitas de turismo social a Padova, norte da Itália, com itinerários de baixo impacto ambiental, e férias com passeios de bicicleta.
Na Itália, 300 hotéis, residências, áreas de camping, hospedarias, restaurantes e alojamentos em casas de família possuem o selo Ecolab, criado pelo Legambiente, o maior grupo ambientalista do país, para diferenciar serviços com administração sustentável e defesa do meio ambiente. Esses serviços classificam seu lixo, usam lâmpadas de baixo consumo, economizam água, fornecem bicicletas grátis e preparam refeições com verduras e frutas da estação, sem transgênicos. Para receber o selo é necessário ainda incentivar o uso do transporte público e valorizar os bens culturais e gastronômicos, disse ao Terramérica a responsável do Legambiente Turismo, Lívia Molinari.
No centro de Bolonha, cidade do norte da Itália, fica o "bed %26 breakfast" (hospedagem e café da manhã) de Bianca Maria Nidie, que tem o selo Ecolab, conta com dispositivos para economizar água no chuveiro e painéis solares para calefação. "Pela saúde e bem-estar da família e dos hóspedes, oferecemos alimentos cultivados sem agroquímicos e produtos de limpeza ecológicos", contou a proprietária. Os promotores do turismo social pedem que sejam boicotadas as viagens a países asiáticos em busca de sexo e exploração sexual infantil, bem como as visitas a países como a Birmânia, governado por uma ditadura militar que viola os direitos humanos e se mantém, em boa parte, com dinheiro gasto por turistas.
* A autora é colaboradora do Terramérica.
Artigo produzido para o Terramérica, projeto de comunicação dos Programas das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribuído pela Agência Envolverde.

