Direitos Humanos: As feridas de Srebrenica não cicatrizam

Tuzla, 12/07/2005 – Herzegovina, 12/07/2005 – Como muitos muçulmanos bósnios que vivem no exterior, Eldvin viaja todos os anos desde seu atual lar no Arizona, Estados Unidos, até sua terra natal, Bósnia-Herzegovina. Mas não o faz para visitar sua família, e sim para tentar descobrir o que aconteceu com seu irmão mais novo, Samir, "que não sobreviveu a julho de 1995", explica o jovem de 27 anos, que não quis dar o sobrenome. Eldvin e Samir procuravam fugir do território muçulmano de Srebrenica quando foram capturados pelo exército sérvio da Bósnia, no dia 11 de julho de 1995, nos dias finais da guerra dessa antiga província iugoslava. Eldvin teve a sorte de escapar ileso, mas Samir foi executado junto com cerca de oito mil homens e adolescentes masculinos de Srebrenica, depois da queda da cidade em mãos sérvio-bósnias.

Seu corpo nunca foi encontrado, mas Eldvin e seus pais não abandonaram a busca. Sua esperança está depositadas nas amostras de sangue que entregaram ao laboratório da Comissão Internacional de Pessoas Desaparecidas, com sede na localidade bósnia de Tuzla. Se os cientistas conseguirem identificar os restos de Samir, sua família poderá enterrá-lo. "Isso seria o ponto final. Por fim terminaríamos aceitando o que aconteceu com Samir", disse Eldvin à IPS. Em uma cerimônia que marcou o décimo aniversário do massacre de Srebrenica, mais de 600 cadáveres identificados foram enterrados nesta segunda-feira no sítio de recordação de Potocari, perto dessa cidade.

Participaram da cerimônia ministros da Grã-Bretanha, França, Holanda e dos Estados Unidos, e, um sinal de reconciliação, o presidente da sérvia, Boris Tadic. Mais de 1.200 vítimas identificadas já haviam sido enterradas, enquanto outras centenas foram exumadas em diferentes locais da Bósnia, onde suas famílias se reinstalaram em 1995. Srebrenica era o território muçulmano do leste da Bósnia, onde viviam mais de 40 mil pessoas durante a guerra. Depois de sua queda, os habitantes foram expulsos para Tuzla e outras cidades, e as autoridades sérvio-bósnias levaram sérvios de toda a Bósnia para viverem na área. Atualmente, Srebrenica tem menos de 10 mil habitantes, em sua maioria sérvios.

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, cerca de 2.800 muçulmanos regressaram às suas casas de antes da guerra, em sua maioria aldeias nos arredores de Srebrenica. A Comissão Internacional sobre Pessoas Desaparecidas foi criada em 1996, uma vez finalizada as guerras de desintegração da antiga Iugoslávia, que deixaram mais de 250 mil mortos e pelo menos 40 mil desaparecidos. Inicialmente, especialistas forenses nacionais e estrangeiros trabalhavam com os restos encontrados em fossas comuns para tentar identificar as vítimas. Esse processo levou à identificação de apenas 52 vítimas, em 2001, segundo dados da Comissão. A identificação foi dificultada pelo fato de os sérvios-bósnios reenterrarem suas vítimas em diferentes locais.

Mais de 3.500 sacos com restos das vítimas de Srebrenica permanecem no necrotério de Tuzla à espera de identificação. "A inauguração do laboratório de DNA, há quatro anos, acelerou o processo", destacou o diretor de programa da Comissão, Zlatan Sabanovic, em Tuzla. "É um grande quebra-cabeça científico. O objetivo é oferecer aos familiares das vítimas uma confirmação com 9,99% de certeza", disse à imprensa. Para isso, comparam amostras de DNA (ácido desoxirribonucléico) dos familiares com amostras de DNA dos restos. Essa comparação é mais fácil quando os pais das vítimas estão vivos e fornecem amostras de sangue, explicou Sabanovic.

Mas em muitos casos, as vítimas eram pais, e isso reduz a possibilidade de identificação de seus filhos assassinados. O material genético de uma filha sobrevivente não pode ser usado para identificar seu pai morto, nem o de uma irmã para identificar seu irmão. "Ainda nos resta muito por fazer, mas estamos orgulhosos do que foi realizado até agora", afirmou à imprensa Rifat Kesetovic, chefe de patologia forense da Comissão, que ajudou a identificar as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e do maremoto de dezembro passado na Ásia.

"A dor dos familiares é a mesma em todas as partes. O mínimo que se pode fazer é ajudar a ferida a cicatrizar", afirmou Nura Begovic, diretora da organização não-governamental Mães de Srebrenica, de Tuzla. Além da identificação, os familiares também esperam justiça. O ex-líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic e o comandante de seu exército, general Ratko Mladic, acusados da matança, permanecem foragidos. (IPS/Envolverde).

Vesna Peric Zimonjic

Vesna Peric Zimonjic is a freelance journalist working from the Balkan region with more than three decades of experience. She has contributed to IPS since the disintegration of the former Yugoslavia in 1991. Vesna also conducts political analyses of the region and contributes to the London-based daily The Independent, BBC World Service and German Deutsche Welle radio and television.

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