Iêmen: Políticas do Banco Mundial e FMI provocam violentos protestos

Sana`a, 25/07/2005 – Os violentos protestos no Iêmen por causa da alta no preço dos combustíveis foram conseqüência da indignação popular com as políticas promovidas pelo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI) em países pobres. Pelo menos 13 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas desde terça-feira passada, quando o governo acabou com os subsídios à produção petrolífera para cumprir as reformas estruturais exigidas pelos organismos multilaterais de crédito e assim poder receber novos empréstimos. A medida causará aumento de 100% no preço da gasolina, de 200% no do diesel e de 50% no preço do gás. As autoridades iemenitas tomaram esta decisão depois de uma forte e contínua pressão exercida pelo Banco Mundial e o FMI para que cortassem os subsídios e introduzissem impostos a fim de reduzir o gasto público.

Nem todos nesse pequeno país do sudoeste da península arábica sabem que os países ricos investem cerca de US$ 300 bilhões por ano para subsidiar sua produção agrícola. Enquanto as nações ricas mantêm essas subvenções, países como o Iêmen cedem em sentido contrário diante da forte pressão dos organismos internacionais. O aumento do combustível afetará, sobretudo, os mais pobres. Espera-se um aumento drástico no custo do transporte público. Os protestos aconteceram na capital Sana`a e outras cidades, com Taiz, Dhamar, Mahweet, Al-Jawf, Marib, Dalee e Ibb. "O governo tem de renunciar", "Maldição sobre o governo" e "Chega de opressão e pobreza" eram alguma das frases gritadas nas ruas da capital pelos manifestantes.

Uma multidão se reuniu em volta do palácio presidencial em Sana`a e depois marchou pelas principais avenidas, atacando as sedes de organismos governamentais e privados. Vários escritórios ficaram fechados na quarta-feira. Os manifestantes apedrejaram os policiais quando estes tentaram lançar gás lacrimogêneo. As pedras também atingiram o escritório do vice-presidente Abdu Rabu Mansour, e a sala do conselho de ministros. Os escritórios do governante Congresso Geral do Povo em diferentes cidades foram saqueados e destruídos. Uma agência do Banco Al Rafidain foi incendiado em Sana`a, onde os manifestantes também tentaram colocar fogo no edifício do Banco Central iemenita. Na quarta-feira, uma grande nuvem de fumaça cobria a capital. Manifestantes bloquearam a entrada de 11 caminhões-tanque de petróleo e gás em Marib, 129 quilômetros ao norte da capital. Os postos de gasolina permaneceram fechados.

No começo do ano, o governo havia considerado necessário anular os subsídios do petróleo para seguir com a reforma do Estado e reduzir o déficit orçamentário. Também assinalou que o aumento de preços era uma "exigência mundial". O parlamentar Hamid al Ahmar, do partido islâmico Islah, disse que a decisão governamental "não foi racional". O primeiro-ministro, Abdul Qader Ba Jamaal, disse através da televisão que a população foi muito impaciente ao protestar sem entender plenamente os passos que o governo estava dando. "Se as pessoas tivessem esperado uma ou duas semanas, veriam o lado positivo desta decisão", afirmou. "Houve elementos corruptos que estimularam as pessoas a realizarem essas manifestações destrutivas", ressaltou.

Os partidos de oposição condenaram os protestos, mas responsabilizaram o oficialismo. Em um comunicado conjunto afirmaram que "o governo ignorou os pedidos para realizar um estudo mais completo da estratégia de reformas econômicas. Está fechando os olhos para o fato de 11 milhões de iemenitas viverem abaixo da linha da pobreza". O Iêmen tem 21,5 milhões de habitantes e sua renda por habitante é de US$ 510 anuais. A dos Estados Unidos é de US$ 40.100 por ano. No índice de desenvolvimento humano de 2004 da Organização das Nações Unidas, o Iêmen ficou no 149º lugar entre 177 países.

"A promessa do governo de que manteria os preços baixos foi uma grande mentira. Havia dito que o fim dos subsídios viria acompanhado de um novo acordo sobre salários, mas isso não aconteceu", disse à IPS o economista Saif Al Assali. Por sua vez, o parlamentar Ali al Sarrari, do Partido Socialista Iemenita, afirmou que o governo engana o povo. "Dizer que o aumento dos preços é uma demanda mundial é ilógico. Nossa condição melhorará se o governo lutar honestamente contra a corrupção e explorar de forma adequada os recursos naturais", disse à IPS. O caos se implantou dois dias depois que o presidente, Ali Abdulá Saleh, ter anunciado que não disputará a reeleição nas eleições do próximo ano. O mandatário governo o país há 27 anos.

Analistas e ativistas afirmam que as políticas impostas pelo Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional no Iêmen somente beneficiam as empresas ocidentais e as elites locais. "O Banco Mundial é muito ativo no Iêmen, um dos países mais pobres do Oriente Médio. Aumentar os combustíveis foi supostamente a maneira fácil escolhida pelo governo para conseguir dinheiro", afirmou Sameer Dossani, da Rede 50 Anos são Suficientes, organização com sede em Washington que critica os organismos internacionais de crédito. (IPS/Envolverde)

(*) Com a colaboração de Emad Mekay, de Washington.

Nabil Sultan

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