Muçulmanos: Os mais vulneráveis na Grã-Bretanha

Londres, 12/07/2005 – As bombas que explodiram na semana passada na capital da Grã-Bretanha, matando mais de 50 pessoas e deixando outras 700 feridas, parecem ter comovido mais a comunidade muçulmana britânica do que a cidade de Londres. A vida londrina lentamente volta à rotina, e centenas de milhares de pessoas pouco a pouco se animam a usar novamente o metrô e os ônibus para irem trabalhar, como faziam até quinta-feira passada. Nesse dia três bombas explodiram na rede do metrô e uma quarta em um ônibus. Embora a investigação esteja apenas começando, a polícia já aponta para a rede extremista Al Qaeda, liderada pelo foragido saudita Osama bin Laden.

Os muçulmanos britânicos se dirigem aos seus respectivos empregos com o dobro de medo que as demais pessoas. São vulneráveis como qualquer um aos atentados terroristas – de fato, várias pessoas desaparecidas e feridas na quinta-feira eram muçulmanos – mas além disso, temem ser alvo de alguma reação violenta da população. "Mesquitas em Leeds (20 quilômetros ao norte da capital) e em Londres foram atacadas com coquetéis molotov, enquanto outras tiveram os vidros quebrados", disse à IPS um porta-voz do Conselho Muçulmano da Grã-Bretanha, (MCB) que usou o pseudônimo de Inayat. "Isto está se espalhando por todo o país. Mas felizmente ninguém ficou ferido, ainda", acrescentou.

Os temores aumentaram depois que o ultradireitista Partido Nacional Britânico divulgou um comunicado com duras expressões contra os muçulmanos, condenando o "ataque terrorista islâmico" de quinta-feira. "O massacre de Londres fez, de maneira trágica, todo o país entender o preço terrível que as pessoas comuns têm de pagar pela combinação de uma experiência cultural fracassada, à qual se acrescenta a decisão do primeiro-ministro, Tony Blair, de envolver a Grã-Bretanha em uma guerra que nada tem a ver conosco", acrescentou Inayat. Hackers estariam que estariam envolvidos com a ultradireita bloquearam o site na Internet do MCB que, por outro lado, recebeu cerca de 30 mil mensagens eletrônicas com expressões de ódio pelo Islã.

O MCB não respondeu estas mensagens e tentou continuar seu trabalho habitual. "Não podemos responder ao ódio ultradireitista", disse Inayat. A polícia aumentou a vigilância nas áreas muçulmanas e colocou agentes nas portas de várias mesquitas no final de semana. Os temores dos muçulmanos também foram alimentados pelas declarações do ex-chefe da Scotland Yard (polícia londrina) Lord Stevens, que confirmou que mais de três mil pessoas nascidas ou radicadas na Grã-Bretanha passaram por acampamentos de treinamento da Al Qaeda. O comentário pareceu uma referência a milhares de muçulmanos, agora vistos como potenciais terroristas.

Nos últimos dias, vários líderes britânicos, um após outro, insistiram em afirmar que não tinham dúvidas de que "a vasta maioria" dos muçulmanos na Grã-Bretanha não apóiam o terrorismo. Mas essa observação pareceu dar lugar à existência de uma significativa minoria que apóia. Entre os dois milhões de muçulmanos da Grã-Bretanha há um grande número de originários do Paquistão. Muitos jovens paquistaneses são alvo especial de campanhas de recrutamento por parte de grupos radicais islâmicos que travam a "jihad" – guerra santa. Jovens paquistaneses de um centro islâmico em Londres falaram à IPS sem dar seus nomes e com os rostos cobertos, e disseram que "milhares" de britânicos vão ao Afeganistão e a outros países para treinarem em acampamentos da jihad.

Até agora, não tinha ocorrido na Grã-Bretanha um endurecimento das medidas de segurança e da vigilância sobre os muçulmanos como ocorreu nos Estados Unidos depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. Entretanto, ficou fortalecida a percepção geral de que o terrorismo internacional está vinculado com as crenças islâmicas. "As pessoas fazem coisas em nome do Islã que são totalmente contra o Islã", destacou em um comunicado o presidente do Conselho de Mesquitas e Imãs da Grã-Bretanha, Zaki Badawi. Mas esse tipo de declaração não convence a todos e tampouco consegue apaziguar os temores entre a comunidade muçulmana.

"Estes ataques provocaram uma grande incerteza e preocupação", disse à IPS Tim Ripley, do Centro de Estudos de Defesa e Segurança Internacional. "A atenção da polícia estará concentrada na comunidade muçulmana, o que derivará em acusações e na vitimização de seus membros, e esse é o primeiro passo para uma espiral perigosa", acrescentou Ripley e disse que não há dúvida de que muitos jovens muçulmanos foram recrutados na Grã-Bretanha para treinarem em acampamentos instalados em outros países. "Conhecemos o caso de Richard Reid, o 'terrorista dos sapatos?, que esteve em acampamentos do Afeganistão e Paquistão", afirmou.

Reid, autodeclarado membro da Al Qaeda, foi detido quando tentava fazer explodir um vôo transatlântico com destino aos Estados Unidos com explosivos que havia escondido em seus sapatos. "Há provas de que vários outros também estiveram lá. Isso claramente mostra uma tendência", afirmou Ripley, embora afirmando que isso não deveria causar uma "paranóia, pensando que o inimigo está entre nós". (IPS/Envolverde)

Sanjay Suri

Sanjay Suri has been chief editor since December 2009. He was earlier editor for the Europe and Mediterranean region since 2002. His responsibilities through this period included coverage of the Iraq invasion and the conditions there since. Some other major developments he has covered include the Lebanon war and continuing conflicts in the Middle East. He has also written for IPS through the period on issues of rights and development. Prior to joining IPS, Sanjay was Europe editor for the Indo-Asian News Service, covering developments in Europe of interest to South Asian readers, and correspondent for the Outlook weekly magazine. Assignments included coverage of the 9/11 attacks from New York and Washington. Before taking on that assignment in 1990, he was with the Indian Express newspaper in Delhi, as sub-editor, chief sub-editor, crime correspondent, chief reporter and then political correspondent. Reporting assignments through this period included coverage of terrorism and rights in Punjab and Delhi, including Operation Bluestar in Amritsar, the assassination of Indira Gandhi and the rioting that followed. This led to legal challenge to several ruling party leaders and depositions in inquiry commissions. Other assignments have included reporting on cases of blindings in Rajasthan, and the abuse of children in Tihar jail in Delhi, one of the biggest prisons in India. That report was taken as a petition by the Supreme Court, which then ordered lasting reforms in the prison system. Sanjay has an M.A. in English literature from the University of Delhi, followed by a second master’s degree in social and organisational psychology from the London School of Economics and Political Science. He has also completed media studies at Stanford University in California. Sanjay is author of ‘Brideless in Wembley’, an account of the immigration experiences of Indians in Britain.

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