Muçulmanos: Provérbios

Montevidéu, 12/07/2005 – Nova York, Madri, Londres: o terrorismo ataca novamente. Esta foi a manchete de muitos jornais do mundo, na edição que informou sobre as explosões que sacudiram a capital inglesa. Reveladora coincidência: não mencionaram o Afeganistão nem o Iraque. Os bombardeios contra Afeganistão e Iraque não foram, continuam não sendo, atentados terroristas, que no caso do Iraque se repetem dia após dia? Não é sempre, ou quase sempre, a classe trabalhadora que entra com os mortos nos atentados e nas guerras? Não merecem o mesmo respeito e a mesma compaixão as vítimas de qualquer expressão do desprezo pela vida humana?

Sem comê-las nem bebê-las, não menos de três mil camponeses foram despedaçados pelas bombas que buscaram, e não encontraram, Bin Laden em terras afegãs. E não menos de 25 mil civis, muitos deles mulheres e crianças, foram despedaçados pelas bombas que buscaram, e não encontraram, as armas de destruição e massa no Iraque, e pelo banho de sangue de continua sendo provocado pela ocupação estrangeira do país. Se o Iraque tivesse invadido os Estados Unidos, anormalidade que não passa pela cabeça de ninguém, as vítimas civis seriam, proporcionalmente, 300 mil norte-americanos. Por séculos e séculos ecoaria no mundo o trovejar de semelhante horror. Como os mortos são iraquianos, rapidamente se transformam em algo costumeiro.

Em 1776, a Declaração de Independência dos Estados Unidos afirmou que todos os homens são criados igualmente, mas poucos anos depois a primeira Constituição esclareceu o conceito: estabeleceu que nos censos populacionais, cada negro equivalia a três quintos de uma pessoa. A quantas partes ou partezinhas de uma pessoa equivale, hoje em dia, um iraquiano? "Alguns são mais iguais do que outros", dizem.

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E dizem: "Outros virão que bem te farão". O terror de Estado, fecundo pai de todos os terrorismos, encontra limites perfeitos nos terrorismos que gera. Derrama lágrimas de crocodilo cada vez que o ventilador espalha a merda; e simula inocência perante as conseqüências de seus próprios atos. Mas os donos do mundo não têm do que se queixar: as atrocidades cometidas pelos fanáticos e loucos lhes dão a justificativa e os presenteiam com a impunidade.

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"A mentira tem pernas curtas". Pelo visto, está mais para: a mentira tem pernas longuíssimas. Tão longas que correm a uma velocidade muito maior do que os desmentidos dos mentirosos. Depois de gritar aos quatro ventos que o Iraque era um perigo para a humanidade, Bush e Blair admitiram publicamente que o país que haviam invadido e aniquilado não tinha armas de destruição em massa. Nas eleições seguintes, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, o povo os recompensou reelegendo ambos.

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"O crime não compensa": já nem os provérbios sabem o que dizem. O mundo gasta nada menos do que US$ 2,2 milhões por dia, isto mesmo, por dia, na indústria militar, indústria da morte, e dia após dia a cifra aumenta e aumenta. As guerras necessitam de armas, as armas necessitam de guerras e as guerras e as armas necessitam de inimigos. Não existe negócio mais lucrativo do que o assassinato praticado em escala industrial. Sua indústria derivada, a indústria do medo, consagrada à fabricação de inimigos, é atualmente a principal fonte de lucro das empresas dedicadas ao entretenimento e à comunicação. Em Hollywood já não há filme que não exploda, e seus roteiristas acrescentam sustos ao susto: como se fosse pouco o pânico terrestre, acrescentam as ameaças do terror importado de outros planetas.

A indústria militar necessita produzir medo para justificar sua existência. Perverso circuito: o mundo se converte em um matadouro que se converte em um manicômio que se converte em um matadouro que… O Iraque, país bombardeado, ocupado, humilhado, é a escola do crime mais ativa em nossos dias. Seus invasores, que dizem ser libertadores, montaram ali o mais profícuo criadouro de terroristas, que se alimentam da desesperança e do desespero.

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"Deus ajuda quem cedo madruga". Os chefes guerreiros madrugam? Os banqueiros de sucesso madrugam? Na realidade, o provérbio exorta a levantar cedo os humildes trabalhadores, e provém dos tempos em que trabalhar rendia. Mas no mundo atual, o trabalho vale menos do que o lixo.

Dos dois motores do sistema universal de poder, este sistema que se chamava capitalismo, na minha infância, só funciona um. O estímulo da cobiça desapareceu, ao menos para a mão-de-obra. Ninguém tem a mais remota esperança de ficar rico trabalhando. Agora, os dois motores são o medo e o medo: medo de perder o emprego, medo de não encontrar emprego, medo da fome, medo do desamparo.

Os sindicatos defendiam os trabalhadores, em épocas que agora parecem pré-históricas. As empresas multinacionais mais famosas, Wal-Mart´s e MacDonald´s, negam sem a menor dissimulação o direito trabalhista à sindicalização e jogam na rua quem comete a ousadia de tentá-la. Os organismos internacionais que velam pelos direitos humanos não movem uma palha por esta escandalosa violação; e o exemplo aprofunda. O desconhecimento dos sindicatos, ou sua total proibição, começa a ser normal. O sindicalismo, fruto de dois séculos de lutas operárias, está em crise em todo o mundo, como estão em crise todos os instrumentos de defesa coletiva e pacífica das pessoas que vivem de seu trabalho, e que agora, deixadas cada uma à sua sorte, sobrevivem obrigadas a aceitar – Sim ou Sim – o que os empregadores exigem: o dobro de horas em troca da metade do salário.

Os sindicatos, enfraquecidos, perseguidos, pouco podem ajudar, e Deus tem, ao que parece, outras ocupações. O presidente Bush precisa dele noite e dia: é missão divina seu projeto de conquista do planeta, e Deus guia seus passos. Como se comunicam? Por e-mail, fax, telefone, por telepatia. Segredo de Estado.

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"As armas o Diabo carrega". Este provérbio não erra. Deus não pode ser tão sórdido. Há de ser o Diabo quem carrega as armas, ou pelo menos as armas de destruição em massa, as verdadeiras, as que o Iraque não tinha, as que estão arrebentando o mundo: os bombardeios de mentiras pelas fábricas de opinião pública; os gases venenosos das fábricas do medo, que nos obrigam a aceitar o inaceitável e convertem a dignidade em fatalidade do destino; a mortífera impunidade dos assassinos em série elevados à categoria de chefes de Estado; e as espadas de duplo fio das grandes potências que multiplicam, por sua vez, a pobreza e os discursos contra a pobreza, e ao mesmo tempo vendem minas antipessoais e pernas ortopédicas e que do céu despejam mísseis e contratos de reconstrução sobre países que aniquilam. (IPS/Envolverde)

(*) Eduardo Galeano, escritor e jornalista uruguaio, autor de As Veias Abertas da América Latina e Memórias do Fogo.

Eduardo Galeano

Eduardo Galeano, Uruguayan writer and journalist, is author of "The Open Veins of Latin America".

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