Washington, 08/07/2005 – A organização de direitos humanos Human Rights Watch pediu que sejam levados perante a justiça os "senhores da guerra" responsáveis por atrocidades no Afeganistão na década de 90, muitos dos quais ocupam cargos no governo de Hamid Karzai, apoiado pelos Estados Unidos. Em um documento de 133 páginas divulgado em Cabul, a HRW, nesta semana, afirma que muitos responsáveis por crimes de guerra e outros abusos em uma das piores fases da guerra civil que, com interrupções, tem quase 30 anos, estão agora por trás de mesas nos ministérios de Defesa e do Interior, enquanto outros são candidatos nas eleições legislativas e locais de setembro próximo.
Enquanto isso, outros senhores da guerra continuam exercendo autoridade regional, sem intervenção do governo central nem dos 30 mil soldados dos Estados Unidos e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que estão no Afeganistão desde que Washington e seus aliados derrubaram o grupo extremista islâmico Talibã, no final de 2001. "Este relatório não é apenas uma lição de história", disse Brad Adams, diretor da HRW/Ásia, se referindo ao combate entre mujaidines que quase destruiu Cabul entre abril de 1992 e março de 1993. As atrocidades cometidas nesse período "são algumas das mais graves na história do Afeganistão, mas, hoje em dia, muitos dos responsáveis ocupam cargos de poder", afirmou.
Os abusos cometidos nesse ano (1371, pelo calendário afegão) depois da queda do regime pró-soviético foram os piores de toda a guerra civil e incluíram bombardeios e ataques com foguetes contra áreas civis, que ficaram em escombros, além de roubos, seqüestros, assassinatos e violações de civis, inclusive mulheres e crianças. O documento, intitulado "Mãos vermelhas de sangue: Atrocidades do passado em Cabul e o legado de impunidade no Afeganistão", se baseia em dois anos de investigações e mais de 150 entrevistas com testemunhas, sobreviventes, funcionários de governo e ex-soldados mujaidines, bem como no trabalho da Comissão Afegã Independente de Direitos Humanos.
O documento vem a público quando aumenta a preocupação em Washington e Cabul pelo ressurgimento de forças do Talibã, em particular no sul e leste do país, regiões majoritariamente habitadas pela etnia pashtun. Na semana passada, rebeldes derrubaram um helicóptero dos Estados Unidos, perto da fronteira com o Paquistão, e mataram 16 membros das Forças de Operações Especiais. O helicóptero ia reforçar um destacamento de outros quatro soldados dessas forças, dos quais pelo menos dois também foram mortos. Dias depois, até 17 civis morreram na mesma região vítimas de um ataque norte-americano contra uma suposta base terrorista.
O incidente gerou uma incomum crítica pública por parte do governo de Karzai, na defensiva diante das críticas de seus rivais políticos sobre as táticas utilizadas pelas forças norte-americanas, apenas três meses antes das eleições. Ao mesmo tempo, foi informado que mais de 450 soldados afegãos morreram desde março em choques com o Talibã e forças aliadas, que cada vez mais recorrem a dispositivos explosivos e atentados suicidas, como os grupos rebeldes do Iraque. "Cresce o perigo de o Afeganistão ficar cada vez mais parecido com o Iraque, com uma insurgência entrincheirada que causa transtornos à reconstrução e se torna um imã para os extremistas islâmicos", advertiu esta semana o The Washington Post em um editorial.
Por sua vez, o The New York Times advertiu, também na semana passada, que o ressurgimento do Talibã coincide com um aumento do sentimento antinorte-americano, exacerbado porque Karzai não conseguiu convencer seu colega norte-americano, George W. Bush, durante a visita que fez em maio, a dar ao governo afegão mais controle sobre as operações militares norte-americanas, e ainda pelos abusos de soldados contra presos muçulmanos. O informe publicado pela HRW não sugere que a situação atual seja comparável á do período 1992-1993, mas sim que a impunidade de que ainda gozam comandantes mujaidines e senhores da guerra trabalha contra o propósito dos Estados Unidos e de Karzai de estabilizar o país.
"Se o Afeganistão não começar a enfrentar sua história, o passado pode se repetir", alertou Adams, que criticou duramente Washington e seus aliados por não perseguirem os responsáveis por atrocidades no passado depois da queda do Talibã, há quase quatro anos. Entre os comandantes e líderes responsáveis por tais atos estão Abdul Rabb al-Rasul Sayyaf, um comandante islâmico radical que atualmente é assessor de Karzai e que designou vários de seus seguidores para o sistema judicial e outros órgãos de governo, afirma a HRW. Sayyaf é o líder do grupo extremista Ittihad-e Islami. Outro dos apontados pela HRW é Abdul Radhid Dostum, um senhor da guerra da etnia uzbeka que domina várias regiões do norte nos arredores de Mazar-i-Sharif e que ocupa um alto cargo no Ministério da Defesa. (IPS/Envolverde)

