Havana, 29/08/2005 – Exportadores de alimentos e produtores agropecuários dos Estados Unidos realizam um intenso esforço para recuperar o mercado cubano, mesmo dentro das limitações do embargo imposto por Washington há mais de quatro décadas contra Havana. Como parte dessa ofensiva, entre agosto e os primeiros dias de setembro cerca de 250 empresários norte-americanos terão visitado Havana, desafiando o calor caribenho e as tensões entre os governos de George W. Bush e Fidel Castro. Para todos, Pedro Alvarez, presidente da empresa estatal de alimentos Alimport, tem a mesma mensagem: Eliminem as restrições e o comércio crescerá.
Uma brecha no embargo (bloqueio para Havana) foi aberto por uma emenda a uma lei norte-americana de 2000 que permitiu a Cuba comprar alimentos que, entre fins de 2001 e 2004, somaram mais de US$ 1 bilhão pagos à vista. Este ano, Cuba prevê importar alimentos no valor de US$ 1,7 bilhão, dos quais entre US$ 700 milhões e US$ 800 milhões destinados a compras nos Estados Unidos. Entretanto, um endurecimento no embargo reduziu essa quantia para cerca de US$ 474 milhões. Em uma prática insólita para este tipo de transações, o Departamento do Tesouro norte-americano determinou em fevereiro que os pagamentos cubanos devem chegar antes que as mercadorias sejam embarcadas nos Estados Unidos rumo ao seu destino.
Essa nova limitação levou Havana a destinar US$ 300 milhões para comprar alimentos em outros países. Alvarez vem explicando isso desde junho, quando foi anfitrião de uma rodada de negócios com as presenças de membros da Associação de Comércio Estados Unidos-Cuba. Entre os perdedores devido às novas restrições figuram os produtores de arroz, que deixaram de vender 200 mil toneladas para um mercado que sabe apreciá-lo. "Conhecemos bem o arroz norte-americano, é de primeiríssima qualidade", disse à IPS o veterano chefe cubano Gilberto Smith. Estima-se que os 11,2 milhões de cubanos consomem cerca de 60 quilos de arroz por pessoa ao ano. A colheita doméstica apenas ultrapassou as 260 mil toneladas em 2004, contra 320 mil toneladas em 2003. Cuba depende das importações neste e em outros itens alimentares.
As importações cubanas de arroz poderiam chegar este ano a cerca de 800 mil toneladas. Mesmo mantendo os fornecimentos habituais da Ásia, as compras desse produtos nos Estados Unidos poderiam aumentar, indicaram fontes da Alimport. "Infelizmente, nosso comércio com Cuba caiu 50% em 2005 devido a restrições impostas por nosso governo", lamentou Lee Adams, presidente da Federação do Arroz dos Estados Unidos, em visita a Havana na semana passada. Essa organização é contrária às restrições ao comércio agrícola com Cuba e apóia de maneira ativa projetos legislativos para restabelecimento das relações comerciais normais entre as duas nações.
"Queremos e trabalhamos pela normalização de vínculos comerciais entre Estados Unidos e Cuba, e a isso vamos dedicar nossos maiores esforços", disse Adams, que viajou à frente de uma delegação de empresários de seis Estados norte-americanos. Com propósito semelhante foi criada em abril a Associação de Comércio Estados Unidos-Cuba, por empresas de 30 Estados norte-americanos. Cerca de 145 companhias produtoras e processadoras de alimentos, portos e empresas de diversas áreas de 37 Estados se beneficiam com a exportação de 300 produtos, como feijão, óleo de soja, milho, trigo, leite em pó, frango e carnes, entre outros. No entanto, as transações caíram 26% entre janeiro e abril com relação a igual período do ano passado, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.
Segundo dados da Alimport, até junho foram feitas compras no valor de US$ 263,8 milhões, incluindo o custo dos embarques. Para Alvarez, o comércio com Cuba teria um efeito multiplicador na economia norte-americana, pois os agricultores, por sua vez, adquirem insumos e criam mais empregos. A visita dos produtores de arroz seguiu-se à realizada pelo governador do Estado de Nebraska, Dave Heineman, que acertou com a Alimport compromissos de venda entre US$ 17 milhões e US$ 30 milhões. Com objetivos semelhantes esteve em Havana entre os dias 9 e 12 deste mês o vice-governador de Vermont, Brian Dubie, e seu secretário da Agricultura, Steve Kerr. Desse Estado provém parte das 800 cabeças de gado importadas dos Estados Unidos nos últimos dois anos.
A emenda de 2000 somente permite as compras cubanas sob determinadas condições, mas ainda assim incentivou no setor agrícola norte-americano o afã por recuperar um mercado natural do qual se viu privado com o embargo. No caso do arroz, as perdas pelas vendas não realizadas em razão do embargo foram de aproximadamente US$ 3,1 bilhões em 40 anos, segundo os produtores. (IPS/Envolverde)

