Grupo do Rio: Chanceleres confirmam compromissos com Haiti, Colômbia e Venezuela

Buenos Aires, 29/08/2005 – Os chanceleres do Grupo do Rio confirmaram na Argentina seu compromisso com o Haiti, destacaram os esforços de paz na Colômbia e rejeitaram "categoricamente" a exortação de um pastor norte-americano no sentido de assassinar o presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Ao término, na sexta-feira, de uma reunião extraordinária de dois dias realizada na cidade de San Carlos de Bariloche, quase 1.800 quilômetros a sudoeste de Buenos Aires, chanceleres e delegados de 19 países da América Latina e do Caribe também resolveram discutir alternativas para evitar a multiplicidade de cúpulas na região.

O encontro estava concebido para acontecer entre chefes de Estado e de governo do Grupo do Rio, formado por Brasil, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, Venezuela e Guiana, em representação aos Estados do Caribe. Mas devido ás dificuldades na agenda de inúmeros mandatários e à sucessão de cúpulas programadas para os próximos meses, foi decidido há 10 dias suspender o segmento presidencial sem fixar uma data certa para sua realização antes do fim do ano.

Nesta reunião do Grupo do Rio, o principal fórum político da região, criado em 1986 no Rio de Janeiro para apoiar, em princípio, os esforços de paz na América Central, esteve presente o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, o chileno José Miguel Insulza. Também participou um representante especial do secretário-geral da Organização das Nações Unidas no Haiti e chefe da missão nesse país, o também chileno Juan Gabriel Valdés. Ambos informaram aos ministros sobre a gravíssima crise que enfrenta a nação mais pobre da América.

Em resposta, os chanceleres se comprometeram por escrito a "continuar com os esforços para conseguir uma solução democrática e duradoura para a atual crise política, econômica e social" nesse país, onde nações do Grupo do Rio mantêm forças militares e policiais integradas à Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah, sigla em francês). Segundo informou na sexta-feira o chanceler argentino, Rafael Bielsa, os governos latino-americanos integrantes de Minustah, presente no Haiti desde meados do ano passado, pedirão ao Conselho de Segurança da ONU para continuar com a missão.

Pela primeira vez estamos aplicando o princípio pelo qual os problemas da região devem ser resolvidos na região", explicou Bielsa em entrevista á imprensa junto como o embaixador brasileiro, Celso Amorim, e o da Guiana, Samuel Isanally. "A instabilidade do Haiti é a promessa de outras instabilidades", acentuou o ministro argentino. "O sofrimento do povo haitiano diz respeito a todos nós, porque as campanhas não tocam somente pelo destino, mas também por nós", alertou ao fim da reunião. Dessa maneira, o Grupo do Rio confirmou seu compromisso com a ajuda ao Haiti. Valdés havia advertido na quinta-feira na reunião que, além das dificuldades, a missão conjunta "evitou uma guerra civil e pôs fim à ameaça de grupos armados ilegais. Também considerou necessário mantê-la depois das eleições previstas para outubro e novembro.

Para o delegado da ONU, a chave do sucesso da missão está em acompanhar as eleições e agilizar as gestões para o desenvolvimento da ajuda financeira prometida pelos países industrializados. "Sem desenvolvimento econômico a segurança sempre estará em situação precária", advertiu. Depois de um estudo, os países doadores se comprometeram a desembolsar US$ 2,3 bilhões em dois anos para a reconstrução e institucionalização do Haiti, mas até junho apenas haviam chegado US$ 250 milhões a esse país de 8,5 milhões de habitantes, 80% dos quais são pobres. Os delegados presentes à reunião de Bariloche também assinaram uma declaração especial sobre a Colômbia e outra sobre a Venezuela.

Pela Colômbia expressaram "reconhecimento" dos esforços para restabelecer a paz através da desmobilização de forças irregulares que operam nesse país por conta da guerra civil de mais de quatro décadas, e pediram apoio às comunidades e respeito aos direitos humanos da população. Também manifestaram solidariedade com o governo da Venezuela e repudiaram as expressões do pastor evangélico norte-americano Pat Robertson que pela televisão pediu ao governo de George W. Bush que ordenasse o assassinato do presidente Hugo Chávez. Os chanceleres e representantes demonstraram "assombro" pelo pedido de Robertson, aspirante à presidência pelo governante Partido Republicano, e confiam em que sejam "abertos processos legais pertinentes" contra o pastor, considerando que um chamado desse tipo representa "uma clara incitação ao crime".

Finalmente, e contra o relógio, os delegados discutiram uma série de alternativas para simplificar a agenda de compromissos dos presidentes convocados para reunião com uma freqüência sem precedentes, segundo reconheceu Bielsa pouco antes de começarem as deliberações. Uma fonte que pediu o anonimato disse à IPS que em Bariloche os chanceleres pensaram em realizar o segmento presidencial em dezembro. Mas no dia 9 desse mês, em Montevidéu, está prevista a cúpula do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai mais associados, quase todos os países da América do Sul). Porém, o Chile foi contrário a essa data, já que em 12 de dezembro acontecem eleições presidenciais nesse país. Por fim, os delegados ficaram de analisar uma proposta de aproveitar a viagem que os mandatários farão à IV Cúpula das Américas, que acontecerá nos dias 4 e 5 de novembro em Mar del Plata, na Argentina, para ali realizar a adiada cúpula do Grupo do Rio. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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