Bruxelas, 12/08/2005 – A ampliação da União Européia (UE), em maio de 2004, não provocou a temida inundação de mão-de-obra barata vinda dos novos países-membros para os mais antigos, mas apenas um persistente gotejar, concluiu o Serviço de Ação Cidadão Européia (Ecas, sigla em inglês). O fluxo de trabalhadores a partir dos novos membros, como a Polônia, é "manejável" e produziu "benefícios econômicos" nos países que os receberam, diz o informe intitulado "Quem Teme uma União Européia Ampliada?", divulgado na quarta-feira por essa organização de direitos civis. O Ecas oferece serviços de lobby, arrecadação de fundos e defesa dos direitos cidadãos dentro da UE.
Em maio de 2004, se incorporaram à União Européia dez novos membros da Europa central e oriental, pertencentes ao antigo bloco comunista: Chipre, República Checa, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia, Malta, Eslováquia, Eslovênia e Polônia. Assim, a UE passou a contar com 25 membros. A ampliação gerou um grande alarme sobre a chegada de trabalhadores aos antigos membros ocidentais e a possibilidade de tirarem empregos de cidadãos desses países. "Os alarmistas que previram um grande fluxo de mão-de-obra barata da Europa central e oriental estavam errados", disse na quarta-feira à imprensa o diretor do Ecas, Tony Venables. "Ainda há uma enorme distância entre a percepção pública sobre a ampliação e o que ocorre realmente", afirmou.
O motivo do alarme foi "o medo do desconhecido", diz o relatório, e acrescenta que "os novos países-membros ainda devem combater os estereótipos". O estudo, que analisa dados oficiais de 20 dos 25 países da UE, mostra que o nível de migração dos novos integrantes para os antigos não chega a representar 1% da força de trabalho. Irlanda, Suécia e Grã-Bretanha foram os únicos países que abriram totalmente seus mercados de trabalho para imigrantes dos dez novos membros. Outros países, como França e Alemanha, com altos índices de desemprego, impuseram restrições ao direito de trabalho em seus territórios por vários anos.
A Polônia, o país de maior população entre os novos integrantes da UE, é o que tem mais cidadãos em outros países da União Européia, segundo o Ecas. Os poloneses representam o maior número de trabalhadores da Europa oriental na Grã-Bretanha (quase cem mil) e na Irlanda (40 mil). Segundo as normas do bloco europeu, os cidadãos de seus Estados-membros podem se estabelecer e trabalhar em qualquer país da UE, mas os recém-chegados se viram obrigados a aceitar restrições ao movimento trabalhista por sete anos. A Comissão Européia, órgão executivo da União Européia, definirá, no próximo ano, se esse prazo deve ser reduzido ou ampliado, mas a decisão de abrir os mercados dependerá de cada governo.
Embora não tenha ocorrido a temida inundação de mão-de-obra barata, o Ecas reconhece que a falta de restrições na Grã-Bretanha, Suécia e Irlanda provocou um grande aumento no fluxo de trabalhadores para esses países. Depois da ampliação do bloco, foram registrados cerca de 175 mil trabalhadores na Grã-Bretanha e na Irlanda, 85 mil. O estudo alerta que os antigos membros que impuseram restrições correm o risco de um crescimento do mercado negro de trabalho. "É difícil estimar a dimensão do mercado negro", disse Julianna Traser, autora do relatório. Testemunhos informais sugerem que as restrições do mercado de trabalho não impedem a entrada de pessoas em busca de emprego, acrescentou.
O Ecas advertiu também que muitos dos novos membros sofrem uma fuga de jovens qualificados, que partem em busca de trabalho na Europa ocidental. "Entre 3% e 5% dos cidadãos dos novos países-membros com educação universitária completa tendem a deixar sua terra natal em busca de melhores perspectivas profissionais. Esses países não só experimentam uma fuga de cérebros, como também uma fuga de jovens", diz o documento. (IPS/Envolverde)

