Desenvolvimento: O abismo da desigualdade

Nações Unidas, 29/08/2005 – Apesar do crescimento econômico sem precedentes dos últimos anos, os ricos enriqueceram e os pobre empobreceram, alertou a Organização das Nações Unidas em um estudo que confirma as dificuldades sofridas pelas mulheres a respeito dos homens em todos os aspectos. O relatório "Situação social mundial 2005: O graduação desigual" foi divulgado na quinta-feira, três semanas antes da cúpula da ONU para resolver mecanismos contra a pobreza, a fome, a doença e o analfabetismo. O documento se concentra no abismo entre economias formais e informais e entre trabalhadores treinados e aqueles sem capacidade, bem como as existentes em matéria de acesso à saúde e à educação e de oportunidades de participação social, econômica e política.

Seus autores deram o alerta sobre a "persistente e crescente" desigualdade existente entre países e habitantes de uma mesma nação. Segundo o estudo, o mundo está mais polarizado hoje do que há 10 anos e se necessita urgentemente de um compromisso mais profundo para cumprir os compromissos estabelecidos pelos chefes de Estado e de governo na Cúpula sobre Desenvolvimento Social realizada em 1995 em Copenhague. Nessa reunião os líderes prometeram enfrentar os intensos desafios sociais e colocar o ser humano no centro das políticas de desenvolvimento. "Mas as brechas sociais de algumas décadas de antiguidade aumentaram, particularmente as disparidades de gênero", uma das "mais profundas" formas de discriminação, disse ao apresentar o estudo José Antonio Ocampo, subsecretário-geral da ONU encarregado do Departamento de Assuntos Sociais e Econômicos.

Sessenta por cento dos trabalhadores informais do mundo são mulheres e carecem de proteção legal, observou Ocampo. "É uma proporção muito alta, já que as mulheres têm menor participação na força de trabalho do que os homens", explicou. Embora cada vez mais mulheres e meninas recebam educação, as participantes femininas no mercado formal de empregou ficou estagnada ou então caiu em algumas regiões do mundo, disse Ocampo. E a crescente participação das mulheres no setor informal torna a situação "ainda mais problemática", acrescentou.

O relatório de 158 páginas indica que a desigualdade entre países e dentro destes acompanha o processo de globalização econômica. Essas desigualdades tiveram conseqüências negativas em muitos indicadores, incluído emprego, segurança no trabalho e salários. "Ignorar a diferença em favor do crescimento e na geração de renda como estratégia de desenvolvimento é ineficaz, pois leva ao acúmulo de riqueza nas mãos de uns poucos e aprofunda a pobreza de muitos", adverte. Em um mundo de crescente desenvolvimento e avanço econômico que deveria beneficiar as sociedades, muitas enfrentam "alarmantes aumentos" na brecha entre ricos e pobres, segundo o documento.

A tendência se constata, inclusive, em países relativamente ricos como Estados Unidos, Canadá e Grã-Bretanha. China e Índia, os países mais povoados da Ásia e do mundo, alcançaram nos últimos anos um considerável crescimento econômico, mas não conseguiram atacar a iniqüidade. Semelhantes padrões de distribuição de renda são detectados na Ásia, América Latina e África. Segundo o documento, apenas na África subsaariana a população pobre aumentou 90 milhões de pessoas entre 1990 e 2001. Na América Latina, o desemprego cresceu de quase 7% em 1995 para 9% em 2002, com muitos trabalhadores obrigados a passar para o setor informal, onde as condições de trabalho são "freqüentemente desumanas" e "os salários são baixos".

O estudo sugere que em países como Brasil, Guatemala e Bolívia, o fato de pertencer a determinadas raças e etnias continua sendo um fator determinante das oportunidades econômicas. Indígenas e negros ganham, em média, salário entre 35% e 65% menores do que os dos brancos e têm menos possibilidades de acesso à educação e moradia, segundo o informe. Os autores do estudo recomendam um ajuste das assimetrias econômicas não apenas entre as nações, mas também dentro delas. Oitenta por cento do produto interno bruto mundial pertencem a um bilhão de habitantes do norte industrial, enquanto os 20% restantes são compartilhados por cinco bilhões do Sul em desenvolvimento.

Preocupado com o ritmo do avanço para o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pediu urgência às nações ricas para cumprirem o compromisso de destinar pelo menos 0,7% de seu PIB à ajuda oficial ao desenvolvimento dos países do Sul. O assunto é motivo de controvérsia nas negociações para redação do rascunho de declaração da cúpula que acontecerá em setembro, por ocasião da abertura da sessão anual da Assembléia Geral da ONU. Os Estados Unidos manifestaram fortes reservas em relação a esse documento no qual se avalia o cumprimento das metas do milênio, cinco anos depois de estabelecidas em uma reunião semelhante de chefes de Estado e de governo na sede da ONU em Nova York.

Washington apresentou mais de 750 emendas ao rascunho, que se fossem aceitas eliminariam novos compromissos de ajuda a países pobres e introduziriam um enfoque voltado para a segurança e a luta contra o terrorismo. Com as metas do milênio da ONU, adotadas em setembro de 2000 por 189 chefes de Estado e de governo, tanto os países ricos quanto pobres assumiram o compromisso de reduzir pela metade a população pobre e faminta do mundo, conseguir o ensino primário universal e promover a igualdade de gênero e a autonomia da mulher.

Os oito desafios assumidos pelos governantes se completam com a redução da mortalidade infantil, melhorar a saúde materna, combater o vírus da deficiência imunológica adquirida (aids), a malária e outras doenças, garantir a sustentabilidade do meio ambiente e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Quase todos os objetivos específicos devem ser cumpridos antes de 2015 e têm como referência os níveis de 1990. "O governo norte-americano chamou a atacar qualquer menção às metas do milênio e a administração se queixou publicamente de que a parte sobre pobreza do documento é muito longa", informou o jornal The Washington Post na semana passada. O documento da ONU indica que o crescente abismo entre ricos e pobres representa uma grande ameaça às democracias de todo o mundo, pois incentiva a violência e o terror se a tendência não é revertida. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *