Naitri, Índia, 19/08/2005 – Desde seu início, em 2000, grupos de auto-ajuda têm sido decisivos para que as mulheres, de várias remotas aldeias indianas do norte montanhoso, melhorem sua qualidade de vida e ganhem poder, incursionando pela primeira vez em governos tradicionalmente patriarcais. Enfrentar problemas como o analfabetismo feminino se tornou menos duro, uma vez que as mulheres desta aldeia do pitoresco Estado de Uttaranchal (norte) decidiram que esses assuntos estavam estreitamente vinculados à vadiagem da população masculina e seu tradicional hábito de tomar bebidas alcoólicas.
Organizando-se em pequeno mas determinado grupo de auto-ajuda, as mulheres empreenderam a dupla tarefa de conseguir que suas filhas fossem à escola, desafiando a opinião dos homens, e lançar uma agressiva campanha antialcoólica. Assim, começaram a entrar sem medo nas casas e destruir recipientes e equipamentos para destilar bebidas caseiras, e obrigaram seus maridos a levar a sério seus propósitos: promover a alfabetização e proibir o álcool. Cinco anos mais tarde, estas mulheres olham para trás com satisfação e estão prontas para colher os benefícios de livrar do álcool a aldeia de Naitri, e ver meninos e meninas irem e voltarem alegremente da escola.
As mulheres de Naitri juram que nada disto teria ocorrido se o grupo de auto-ajuda não tivesse sido formado em 2000. Esse grupo se converteu em uma força tão expressiva que hoje praticamente controla o "panchayat" da aldeia (principal órgão de governo local) e sua líder, Rampyari, pretende disputar as eleições para "gram pradhann" (chefe da aldeia), coisa que uma mulher não imaginaria poucos anos atrás. Arrancar esse bastião de poder e controle patriarcal expôs a perseverança feminina diante da resistência masculina, embora também tenha colaborado uma lei nacional que reserva 33% das cadeiras nos parlamentos locais de governo às mulheres.
Hoje, as mulheres estão ocupadas na construção de um edifício para abrigar este organismo. "Enquanto nos encarregamos de vários trabalhos de desenvolvimento na aldeia, levamos às autoridades nosso pedido de uma "panchayat bhawan" (sede do panchayat)", disse Rampyari, de 38 anos, à IPS. Os homens da aldeia foram contra a construção de um edifício, que, para eles, busca institucionalizar o novo poder das mulheres. "Nós, as mulheres, temos muito poder. Necessitávamos de um local para nos reunir e discutir temas importantes para nossa aldeia, tais como proteção dos cultivos e melhores estradas", afirmou Rampyari.
Quando a aquisição do prédio para construir a sede se converteu em uma batalha entre os sexos, pois os homens das mais de cem famílias que formavam a aldeia opunham resistência, as mulheres levaram sua demanda ao magistrado do distrito de Uttarkashi, um burocrata poderoso que representa o governo central "O magistrado do distrito decidiu a nosso favor e ordenou que um inspetor policial visitasse nossa aldeia e se assegurasse de que poderíamos erguer o edifício sem problemas", contou Rampyari. "Controlei pessoalmente a construção, que durou uns dez meses", acrescentou. As integrantes do grupo de auto-ajuda reuniram o dinheiro necessário para comprar o terreno e o governo forneceu US$ 3,5 mil necessários para erguer uma sede apropriada.
A história de Naitri é um exemplo inspirador de como as mulheres podem se libertar de grilhões culturais e tradicionais quando se organizam para pressionar por seus direitos. E não é um caso isolado nestas regiões. Na aldeia próxima de Kimi, um grupo de auto-ajuda, integrado por dez mulheres, trabalha com o panchayat para garantir que o desenvolvimento da aldeia aconteça de maneira rápida e eficiente. "Nosso grupo é um fórum efetivo para discutir temas como a limpeza e abertura de caminhos, fornecimento de água, coleta de forragem e outros assuntos comunitários", explicou Lakshmi, de 55 anos, presidente do panchayat.
O grupo impõe multas equivalentes a US$ 0,40 aos camponeses que deixam seu gado pastar em terras cultivadas e, assim, afirma sua autoridade. "O grupo nos proporciona tanto conhecimento como economia. De outro modo, quem se preocuparia conosco, mulheres analfabetas da montanha?", pergunta Lakshmi. O bloco de Naugaon (unidade administrativa básica) do distrito de Uttarkashi, onde ficam as aldeias de Naitri e Kimi, tem índice de alfabetização de 41% de seus 56 mil habitantes, mas as mulheres alfabetizadas são apenas 6,5% do total da população feminina.
"Em nossa época, as meninas eram proibidas de freqüentar a escola. Nos diziam que não era importante porque de todo modo nos casaríamos e seríamos enviadas a outra aldeia. Hoje, todas as meninas da aldeia vão á escola", disse Surjidevi, ex-secretária do grupo de auto-ajuda de Kimi. O conceito deeses grupos também foi decisivo para melhorar a situação econômica das mulheres em áreas rurais, disse Chhaya Kunwar, coordenadora do Centro de Investigação Ação Himalaia, uma organização não-governamental com sede em Dehradun, capital do Estado de Uttaranchal.
O Centro trabalhou durante anos em favor do progresso social, político e econômico das mulheres da montanha, e em 2000, iniciou o processo de criação de grupos de auto-ajuda em Naugaon, Purola, Barkot, Bagasu e Rajgarhi, no distrito de Uttarkashi. Nos últimos três anos, o Centro colaborou com o funcionamento de 182 grupos deste tipo em Uttarkashi, e Chhaya acredita que se percorreu um longo caminho para o cumprimento das Metas de Desenvolvimento do Milênio da Organização das Nações Unidas, especialmente as relativas ao alcance de educação primária universal, promoção da igualdade de gênero e o alívio da pobreza.
A ONU adotou, em setembro de 2000, as oito Metas do Milênio como uma plataforma de desenvolvimento para chegar a 2015 com reduções substanciais da pobreza extrema, da fome e da desigualdade no mundo. Não é fácil o trabalho nessas regiões remotas do vasto subcontinente indiano. "Acreditamos que qualquer sucesso é resultado de um processo lento e gradual de construção institucional", disse Chhaya. O Centro possui uma estratégia paulatina de criar e fortalecer grupos de auto-ajuda, para depois passar à institucionalização. "São organizadas sessões de treinamento, exposições, interação frente a frente com especialistas profissionais e funcionários do governo para gerar confiança nas mulheres, desenvolver suas qualidades de liderança e potencializar suas habilidades para administrar os grupos", contou Chhaya.
Algumas pessoas foram treinadas como motivadoras para auxiliar em questões que, se não fossem tratadas delicadamente, poderiam resultar na desintegração dos grupos de auto-ajuda, especialmente em suas fases iniciais, quando emergiam os choques de idéias sobre alguns assuntos. Os motivadores tiveram um papel fundamental no fortalecimento dos grupos, ressaltou Ameeta Kala, ativista do Centro por mais de oito anos. Os obstáculos do processo são muitos, como a falta de compreensão do funcionamento do grupo, não atualizar as atas de reuniões mensais, não pagar em dia as cotas de algum empréstimo, pouca disciplina e desinteresse, lembrou Ameeta.
Muitos grupos se fortaleceram porque foram estimulados a realizar atividades para gerar renda, com base em recursos disponíveis no lugar. O grupo de Naitri conta com um pequeno fundo comum de US$ 100 no banco local, além de um fundo rotativo de US$ 300, para os integrantes tomarem empréstimos em ocasiões como doenças, casamentos e compra de sementes para cultivar. Em Kimi, as habitantes são mais ambiciosas, e iniciaram pressões para que as autoridades instalem um posto médico na aldeia, além de mais aquedutos, para melhorar o bem-setar geral e aumentar a produtividade. (IPS/Envolverde)

