Nações Unidas, 12/08/2005 – Os Estados Unidos estão ansiosos para sancionar o Irã por causa de suas explícitas ambições nucleares, mas a disposição política da Organização das Nações Unidas sugere que a comunidade internacional não está disposta a castigar esse pais islâmico no momento. "Não acreditamos que seja útil apresentar o tema no Conselho de Segurança", disse à imprensa o embaixador chinês na ONU, Wang Guangya, depois que o Irã rompeu, na quarta-feira, os últimos selos de segurança que bloqueavam a entrada de um setor da central nuclear de Isfahan. O novo setor habilitado da central, reaberta segunda-feira, contém equipamentos para enriquecimento de urânio.
Guangya, cujo país ocupa um dos cinco assentos permanentes com poder de veto no Conselho de Segurança, manifestou apoio aos esforços da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e a chamada troika da União Européia, integrada por Grã-Bretanha, França e Alemanha (conhecidos como grupo UE-3), para encontrar uma solução baseada no diálogo com o Irã. Esses três países europeus haviam advertido Teerã de que promoveriam sanções no Conselho de Segurança se seu governo não revertesse a decisão de reabrir as instalações de enriquecimento de urânio depois de uma interrupção de oito meses. Apesar dessa advertência, e enquanto as autoridades da AIEA ainda discutiam quais medidas tomar, o Irã rompeu os selos que essa agência da ONU havia colocado em 2004, depois de o governo iraniano ter concordado em suspender suas atividades nucleares.
O urânio enriquecido pode ser utilizado para fins civis, como geração de
eletricidade, e também para fabricar bombas nucleares. O Irã nega ter a intenção de contar com armas atômicas e insiste em dizer que suas atividades estão de acordo com os termos do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, mas os Estados Unidos e alguns países europeus suspeitam das intenções de Teerã. Em um esforço para resolver a questão através do diálogo, Teerã suspendeu seu programa de enriquecimento de urânio e permitiu inspeções da AIEA, em novembro de 2003. Desde então, esteve envolvida em negociações com o UE-3. O Irã retirou os selos da central de urânio depois que a AIEA instalou seu sistema de inspeção, que inclui câmeras de vigilância e outros dispositivos. Contudo, a instalação do sistema "não implica a aprovação do reinício do enriquecimento e a conversão do urânio", esclareceu a agência.
Do mesmo modo que o embaixador chinês, o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, e o diretor da AIEA, Mohamed El Baradei, se expressaram pela contenção. "Este é um assunto muito complexo", disse Annan à imprensa na segunda-feira, em Nova York. "É essencial que saiamos desta paralisia. Creio que a melhor maneira de avançar é o Irã e o UE-3 continuarem suas negociações", acrescentou. Perguntado sobre quais circunstâncias justificariam levar a questão ao Conselho de Segurança, Annan respondeu que "o assunto está nas mãos da AIEA, que deverá tomar uma decisão. Creio que primeiro devemos atravessar esta ponte", ressaltou.
O secretário-geral disse que estava em contato com todas as partes envolvidas, incluindo o novo presidente iraniano, o ultraconservador Mahmoud Ahmadinejad. El Baradei, que discutiu o tema com líderes de vários países, advertiu que qualquer escalada da situação significaria uma perda para todas as partes. "Entendo que haja uma sensação de frustração no Irã", afirmou à imprensa, em Viena. "Porém, como disse, a negociação de acordos de longo prazo é um processo demorado e complexo, porque tem conseqüências na paz e na segurança", afirmou. "Espero que o Irã continue negociando em lugar de adotar medidas unilaterais, e que volte à mesa de negociações com uma contraproposta", acrescentou El Baradei.
Ahmadinejad, um ex-professor da Universidade de Teerã doutorado em engenharia, disse estar pronto para mais negociações sobre o programa nuclear iraniano e que apresentará novas propostas, segundo a publicação iraniana Isna. O presidente Bush recebeu com beneplácito a declaração do presidente iraniano, mas reiterou que mantém "profunda desconfiança" quanto às intenções nucleares de Teerã. No Estado do Texas, o presidente norte-americano destacou à imprensa que os membros da UE-3 negociam "em nome de um mundo livre". Entretanto, prosseguiu, se a situação não for resolvida por meio de negociações, Washington trabalhará com a União Européia "para estudar as conseqüências, e certamente a ONU é uma conseqüência em potencial".
Entretanto, conseguir uma maioria na junta diretora da AIEA, de 35 membros, para fazer com que a questão nuclear iraniana chegue ao Conselho de Segurança da ONU não será fácil, já que a maioria dos membros da junta pertence ao Movimento de Países Não-Alinhados, reticente em apoiar essa medida. "É difícil imaginar que todos os membros do Conselho de Segurança adotem um critério comum sobre este problema. Por isso, a junta não tomará nenhuma resolução sobre o assunto", previu o tenente-general Gennady Yevstafyev, assessor do Centro de Pesquisas Políticas de Moscou, em entrevista à agência de notícias russa Novsti. (IPS/Envolverde)

