Nova York, 22/09/2005 – Os Estados Unidos não atenderam as recomendações da comissão oficial que estudou as falhas de segurança que permitiram os atentados de 11 de setembro de 2001, como ficou claro com a resposta governamental ao furacão Katrina. Esta é a conclusão a que chegaram os 10 membros da Comissão Nacional sobre os Ataques Terroristas contra os Estados Unidos, criada em 2002 por decreto do presidente George W. Bush, que constituíram depois de cumprirem seu papel no ano passado no privado Projeto Discurso Público. A oficial Comissão Nacional – também conhecida como Comissão 11/9 – cuja criação atendeu a uma resolução do Congresso e que encontrou resistência por parte de Bush, esteve integrada por destacadas figuras do governante Partido Republicano e do opositor Partido Democrata.
Depois de entregar seu último relatório, em junho de 2004, os ex-integrantes da comissão realizaram uma série de audiências públicas para analisar o que fez o governo para corrigir os problemas expostos em seus estudos. Muitas de suas recomendações são igualmente pertinentes para prevenir ataques terroristas, como os de 11 de setembro de 2001 que causaram três mil mortos em Nova York e Washington, e para minimizar os efeitos de desastres naturais. Segundo o Projeto Discurso Público, houve apenas "um progresso mínimo" na melhora da comunicação entre policiais, bombeiros e serviços de emergência médica, e ainda entre estes e a Guarda Nacional (forças de segurança dos Estados) e agências do Departamento de Segurança Interna.
A falta de um espectro radioelétrico unificado, como recomendado pela Comissão, custou centenas de vidas por ocasião dos atentados de 2001. As autoridades sofreram as conseqüências dessa mesma carência quatro anos mais tarde, com a passagem do furacão Katrina. O documento assinala que a legislação pendente de aprovação no Congresso obrigaria a regressar a um espectro radioelétrico analógico e a sua resignação, incluindo os propósitos de segurança pública. "O Congresso deveria ordenar sua resignação na data mais próxima", sugeria o estudo. Os ex-integrantes da comissão não foram os únicos a expressaram essa preocupação.
"Depois de ver a horrível interrupção das comunicações que ocorreu durante a passagem do Katrina, esperaremos mais quatro anos para agir?", perguntaram em carta enviada ao jornal The New York Times dois legisladores republicanos e dois democratas. "Quantas vidas mais serão perdidas? Que tipo de catástrofe será necessária para que o Congresso dê a esses heróis as ferramentas que necessitam para salvar vidas?", disseram os senadores John McCain e Joseph Lieberman e os representantes Jane Harman e Curt Weldon. O Projeto Discurso Público também estabeleceu que o governo só havia conseguido um mínimo avanço na adoção de um sistema de controle de incidentes que unificaria a ação de múltiplas agências e jurisdições.
A falta de tal sistema foi um dos maiores obstáculos para o resgate das vítimas do Katrina e contribuiu para generalizar o caos e a confusão. O Departamento de Segurança Interna, criado em razão dos atentados de 2001, havia fixado outubro de 2004 como prazo para a implementação do sistema unificado de controle de incidentes, recordaram os ex-integrantes da comissão. Agora, fixou-se novo prazo, que termina em 1º de outubro de 2006. Os ex-integrantes também desqualificaram os preparativos governamentais de um plano para "avaliar regularmente os tipos de ameaças que o país enfrenta para determinar os planos de prevenção de danos em infra-estrutura crítica e a rapidez da resposta".
O Projeto Discurso Público recordou que duas de suas propostas (reforma do sistema de inteligência e a sanção de uma Lei Terrorista) foram implementadas em 2004. Mas a iniciativa "requeria ao Departamento de Segurança Interna a emissão em 15 de junho de 2005 de uma avaliação dos riscos e vulnerabilidades da infra-estrutura crítica da nação", e "esse informe ainda não foi divulgado". Os ex-integrantes da comissão também pediram urgência a esse Departamento que incentive o setor privado, especialmente seguradoras e agência de qualificação de risco, a estabelecerem critérios para preparativos privados. De todo modo, acrescentaram, os únicos avanços se registraram nessa área.
O secretário de Segurança Interna, Michael Chertoff, em reunião com representantes do setor privado disse que "estar preparado não é unicamente uma responsabilidade do governo". Essa observação foi correta, segundo o Projeto Discurso Público. "Em outro ataque e em qualquer desastre natural, os empregados do setor privado provavelmente estarão novamente na vanguarda. Como demonstrou o relatório da Comissão 11/9, os funcionários de empresas que institucionalizam um alto nível de preparação para a emergência tem muito mais probabilidades de sobreviverem a um desastre", diz o informe.
Os ex-integrantes pediram urgência aos líderes corporativos para que "tomem a iniciativa de estimular toda as empresas norte-americanas, especialmente aquelas que estão em áreas de alto risco, ou as que possuem uma infra-estrutura nacional crítica, que incorporem os critérios de preparação nacional às suas práticas empresariais". Segundo Beau Grosscup, professora da Universidade do Estado da Califórnia, "para o governo Bush, o propósito real da Comissão 11/9 foi desviar a culpa de si mesmo e do Pentágono para "o resto" das agências de inteligência do ex-presidente Bill Clinton (1991-2003), especialmente o Escritório Federal de Investigações (FBI).
Uma comissão oficial dos Estados Unidos desacreditou seu criador, o presidente George W. Bush, ao concluir que "não há evidência" de vínculos operacionais entre o deposto ditador iraquiano Saddam Hussein e a rede terrorista Al Qaeda. A comissão, integrada por figuras dos partidos Democrata e Republicano para detectar possíveis falhas de previsão diante dos atentados de 11 de setembro, também desmentiu declarações recentes do vice-presidente, Dick Cheney. A Comissão 11/9 havia desacreditado vários argumentos do governo Bush para invadir o Iraque em 2003. Segundo o informe de junho de 2004, o líder da Al Qaeda, Osama bin Laden, havia tentado se comunicar com Saddam em busca de apoio, mas o ex-presidente iraquiano, hoje prisioneiro dos Estados Unidos, ignorou essas gestões.
Ao receber em julho de 2004 o informe definitivo da Comissão na Casa Branca por parte de seus co-presidentes, o ex-governador republicano de Nova Jersey, Tom Kearn e o ex-deputado democrata, Lee Hamilton, Bush aplaudiu seu "trabalho altamente positivo", ao mesmo tempo em que prometeu analisar as "recomendações adequadas e sólidas". A Comissão, cuja criação inicialmente encontrou resistência por parte do presidente, revisou dezenas de milhares de documentos e analisou os testemunhos de aproximadamente 1.200 pessoas, incluindo o presidente e seu vice. Ambos insistiram em somente se submeter a uma entrevista juntos e a portas fechadas, como altos funcionários deste governo e do encabeçado pelo democrata Bill Clinton. (IPS/Envolverde)

