Ambiente: A Antártida no vermelho

Santiago, 11/10/2005 – O aquecimento do planeta, associado, segundo cientistas, às grandes catástrofes naturais estaria tendo impacto também sobre a Antártida, com efeitos na redução da camada de ozônio e na possível incidência de acidentes que custaram a vida de militares argentinos e chilenos. "O buraco da camada de ozônio aumentou este ano e a quantidade de ozônio nele destruída também cresceu", disse à IPS desde o porto de Punta Arenas, no extremo austral do Chile, o cientista Bedrich Magas, da Universidade de Magalhães, que realiza diariamente medições das radiações solares ultravioletas nessa cidade de 120 mil habitantes.

Segundo o Instituto Antártico Argentino, em setembro o "buraco" na camada de ozônio chegou a 28 milhões de quilômetros quadrados, 8% de aumento em relação a 2004, sendo constatada também entre os dois anos uma redução de 95 para 87 unidades Dobson, que medem a densidade da camada e indicam perigo quando seu índice é menor do que 220 unidades. A deterioração da camada de ozônio, que nas observações com satélites aparece como uma mancha oval desde os pólos até as zonas habitadas em permanente deslocamento, impede que sejam filtrados os raios ultravioletas, cuja ação na superfície terrestre causa danos para a flora e a fauna, com riscos de câncer de pele e outras afecções nos seres humanos.

O fenômeno ganha a cada ano maior intensidade sobre a Antártida com a chegada da primavera no hemisfério sul, com impactos nesse continente e nas cidades mais austrais da Argentina e do Chile, como Punta Arenas, que fica mil quilômetros ao norte da península Rei Jorge da Antártida e 2.300 quilômetros ao sul de Santiago. O físico Cláudio Casiccia, que dirige o Laboratório de Ozônio da Universidade de Magalhães, disse à IPS que no início deste mês o "buraco" diminuiu para 21 milhões de quilômetros quadrados, depois de chegar a 24 milhões em agosto e aumentar em setembro. No entanto, o índice de unidades Dobson se mantém abaixo de 100.

"O sul da América, a Patagônia e a região de Magalhães estão sob a influência do buraco na camada de ozônio durante alguns dias da primavera, que variam em quantidade e intensidade. Este ano tivemos um evento (em Punta Arenas) mas não houve um grande aumento da radiação ultravioleta, já que o ângulo do sol ainda é grande e há muita nebulosidade", explicou o cientista. A deterioração do ozônio, um gás estratosférico que impede a passagem dessas radiações, é atribuída a emissões de substâncias químicas, como os hálons, usados em sistema de extinção de incêndios, os CFC (clorofluorcarbonos), empregados em equipamentos de refrigeração e aerossóis, e o brometo de metilo, de uso agrícola em desinfecções e fumigações.

O Protocolo de Montreal, subscrito em 1987, fixou metas mundiais de redução desses compostos, as quais "permitirão, segundo estimativas feitas pelos cientistas, que a camada de ozônio se recupere até meados deste século", explicou à IPS Ana Isabel Zúñiga, coordenadora do Programa de Ozônio da governamental Comissão Nacional do Meio Ambiente do Chile. Mas a própria comunidade científica adverte que também o chamado efeito estufa, provocado pelo dióxido de carbono (CO²) e outras emissões originadas na queima de combustíveis fósseis, culpadas pelo aquecimento do planeta, estão incidindo igualmente na redução da camada de ozônio.

Desta forma, o Protocolo de Kyoto, que busca regular essas emissões e que não foi assinado pelos Estados Unidos, o maior emissor de gases que causam o efeito estufa, deveria atuar junto ao Protocolo de Montreal como um protetor do ozônio, além de impedir outros fenômenos atribuídos ao aquecimento atmosférico. A atenção se concentra ultimamente nos devastadores furacões, como o Katrina e o Rita, devido à constatação científica de que os oceanos mais quentes e o aumento do nível do mar geram ventos mais fortes, como advertiu Vicki Arroyo, do Centro Pew sobre Mudança Climática Global, com sede em Virginia (EUA).

Peter Frumhoff, outro cientista norte-americano, afirmou no final de setembro que as últimas pesquisas "vinculam claramente a maior intensidade das tempestades com a mudança climática", fenômeno que também se relaciona com episódios de secas, altas temperaturas e inundações que se sucedem na Europa desde 2002. Casiccia disse que estas vinculações ainda são objeto de estudo, embora "já se reconheça que existe uma relação importante, ainda a ser avaliada, entre a redução da camada de ozônio e as mudanças climáticas globais".

Paola Vasconi, coordenadora do Programa de Meio Ambiente da não-governamental Fundação Terram, disse à IPS que o vínculo entre o aquecimento global e a deterioração da camada de ozônio também opera através do fato de o aumento das radiações ultravioletas aumentarem as temperaturas. "Uma coisa provavelmente é certa: se o clima não se estabilizar, o buraco na camada de ozônio não se fechará jamais", destacou Magas, lembrando que "os Estados Unidos emitem ao ano uma escandalosa quantidade equivalente a 25 toneladas de CO² por habitante, o Chile emite 3,7 toneladas e a média mundial é de três toneladas por habitante".

A relação entre o aquecimento do planeta e a redução da camada de ozônio foi estabelecida em 1987 através de medições internacionais na região de Magalhães, afirmou o cientista. "O incrível é que depois disto se omitiu completamente o esforço de reparação dos gases causadores do efeito estufa, apesar de serem atualmente, junto com as emissões de CFC estabilizadas, os principais facilitadores da destruição do ozônio mundial", disse Magas. "Embora soe terrível, bem-vindos os furacões para mudar a atitude dos grandes e irresponsáveis contaminadores", acrescentou o especialista.

"O presidente (dos Estados Unidos, George W) Bush fez um chamado para se "guiar menos" (automóveis) e anunciou um programa federal de cortes nos consumos de combustível, acompanhado, naturalmente, por desregulamentações ambientais na exploração de petróleo em zonas prístinas e protegidas. Uff…", acrescentou Magas, ironicamente. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan, ressaltou em 16 de setembro, Dia Internacional da Proteção da Camada de Ozônio, os esforços da comunidade mundial em seu conjunto para reduzir as substâncias prejudiciais a este valioso gás atmosférico.

No dia seguinte, na Antártida, perderam a vida dois argentinos, o biólogo Augusto Thibaud e o suboficial da Marinha Teófilo González, quando a moto de neve em que se deslocavam caiu em uma rachadura de 100 metros. No dia 28 do mês passado morreram o capitão Enrique Encina e os suboficiais Fernando Burboa e Jorge Basualto, todos do Exército chileno, quando o veículo para neve em que estavam caiu em uma falha de 40 metros de profundidade, no mesmo continente. Magas disse que sempre existiram fendas na Antártida, mas o fato de agora fraturarem as formações de gelo que as cobrem obedeceria ao aumento da temperatura, associada também ao aquecimento do planeta, bem como ao aumento de blocos de gelo á deriva que se observa no mar de Drake. Com mais de 14 milhões de quilômetros quadrados de superfície, a Antártida é o quarto continente do mundo em tamanho. Noventa e cinco por cento seu território estão cobertos por gelo e este continente guarda 70% das reservas de água doce do planeta. Razões demais para se preocupar. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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