México, 07/10/2005 – "Foi dito, foi avisado", são algumas das expressões dos especialistas e ativistas em meio ambiente ao se referirem aos prejuízos causados esta semana pelas tempestades que atingiram o sul do México, Guatemala, El Salvador e Nicarágua, com um saldo provisório de mais de 160 mortes. É que a devastação aconteceu sobretudo em zonas onde a cobertura vegetal foi previamente destruída. Mesmo antes de fazer avaliações, "já podemos dizer que haverá uma coincidência entre as zonas mais afetadas pelo desmatamento e degradadas", disse á IPS o chefe de Recursos Naturais do escritório para a América Latina e o Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Julio Calderón.
A maioria das mortes provocadas pela tempestade tropical Stan, que se formou na zona do golfo do México no final da semana passada e foi precedida por chuvas moderadas, se produziu por deslizamentos de terra, soterrando centenas de casas, ou jogando-as morro abaixo. Além disso, muitos rios e riachos transbordaram precisamente por lugares onde a vegetação havia sido destruída antes. Autoridades da Guatemala informaram sobre 79 mortos pelas chuvas e conseqüentes inundações, as de El Salvador 62, as do México nove e as da Nicarágua 11. Quanto aos desabrigados, o número supera os 80 mil. Os governos dos países atingidos declararam emergência nas zonas devastadas e trataram de enviar-lhes ajuda.
Calderón disse que, embora a tempestade Stan não tenha registrado a força de furacões como o Katrina, que em agosto atingiu o sul dos Estados Unidos deixando mais de mil mortos, sua capacidade de destruição foi impressionante, pois se tratou de um fenômeno "estacionário e contínuo", que demora mais tempo para se dissipar. O especialista do Pnuma, cujos escritórios para a América Latina e o Caribe, ficam no México, declarou que os países da região foram alertados em diversas ocasiões de que a capacidade destrutiva de fenômenos naturais se multiplica quando o meio ambiente foi previamente deteriorado.
Os ambientalistas recordam que a vegetação, seja na forma de árvores, mangues ou mata, são efetivas barreiras naturais contra ventos, ondas e cheias de rios. Além disso, a terra sobre a qual se levantam tem maior capacidade de absorção de água do que uma árida ou degrada. Mas parte da cobertura vegetal do sul do México e dos países da América Central, agora afetados por inundações e chuvas torrenciais, desapareceu devido à expansão de zonas urbanas, agrícolas e pecuárias, bem como pela construção de estradas e outras obras de infra-estrutura.
A organização internacional ambientalista Greenpeace disse que os danos registrados no Estado mexicano de Chiapas, fronteiriço com a Guatemala, se multiplicaram devido à prévia destruição de mangues e ao desmatamento. Nesse Estado, as chuvas deixaram seis mortos, 40 mil desabrigados e cerca de duas mil casas totalmente destruídas. "As inundações ocasionadas deixam claro uma vez mais que a degradação dos mangues e o desmatamento aumentam a vulnerabilidade a furacões, inundações e outros fenômenos climático", acrescentou o Greenpeace. Diversos estudos indicam que 76% da cobertura florestal original de Chiapas estão degradados.
Os eventos relacionados ao clima, como inundações, furacões e tempestades, foram a segunda causa de morte por desastres de origem natural na América Latina e no Caribe nas últimas três décadas, segundo dados fornecidos pelo Pnuma. "Embora pareçam atingir sem prévio aviso, os desastres são previsíveis em diversos graus e seus efeitos dependem da vulnerabilidade ambiental e humana", diz o documento "Geo, América Latina e Caribe", editado por esta agência da Organização das Nações Unidas. A vulnerabilidade humana é alta nos nove Estados do sudeste mexicano e em Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá, uma área de um milhão de quilômetros quadrados, onde moram 64 milhões de pessoas.
Essa região está marcada pela pobreza. De cada mil crianças nascidas vivas, entre 20 e 40 morrem antes de completarem 5 anos, e 25% da população infantil está desnutrida. Além disso, 20% dos habitantes são analfabetos e cerca de 14% dos menores de 5 anos apresentam baixo peso e baixa estatura devido à falta de alimentação adequada, indicam pesquisas feitas dentro do chamado Plano Puebla-Panamá, um projeto intergovernamental que busca o desenvolvimento conjunto dessa região. Esta é uma das zonas mais afetadas pelas tempestades tropicais e por furacões que se formam anualmente entre junho e novembro na parte central do continente americano.
As tempestades tropicais e seu parente mais velho, o ciclone – que na América é chamado de furacão – se forma quando aumenta a temperatura da água dos oceanos em latitudes próximas dos trópicos. De forma prévia à temporada, todos os países ativaram seus sistemas de prevenção e alarme, mas mesmo assim agora vários contam às centenas seus mortos e desabrigados. A região se preparou da melhor forma para enfrentar fenômenos naturais, mas ainda falta muito a ser feito, sobretudo em matéria de prevenção, e esse é um assunto importante, disse o chefe de Recursos Naturais do Pnuma. (IPS/Envolverde)

