Washington, 27/10/2005 – Cada vez são mais as destacadas figuras do governante Partido Republicano lançam irados questionamentos à ala mais direitista da administração dos Estados Unidos por persuadir o presidente George W. Bush a invadir o Iraque. Às acusações contra o vice-presidente, Dick Cheney, e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, feitas por Lawrence Wilkerson, principal colaborador do ex-secretário de Estado Colin Powell, agora se somam as críticas do ex-conselheiros de Segurança Nacional Brent Scowcroft.
Entrevistado pela revista The New Yorker, Scowcroft, que foi conselheiro durante a presidente de George Bush (1989-1993), pai do atual mandatário, advertiu que a invasão foi contraproducente. Considerado um "realista" em matéria de política externa em contraposição aos "falcões" que dominam o atual governo, havia manifestado sua oposição à guerra sete meses antes da ocupação iniciada no dia 20 de março de 2003. "Dizia-se que a operação era parte da guerra contra o terror", mas a própria ocupação desse país "alimenta o terrorismo", disse Scowcroft.
A guerra, acrescentou, pode levar a opinião pública a se opor a qualquer compromisso em matéria de política externa, do mesmo modo como aconteceu com a do Vietnã no final dos anos 70 e na década seguinte. "O Vietnã foi algo visceral no povo norte-americano", disse Scowcroft, que também foi conselheiro de Segurança Nacional durante o governo de outro republicano, Gerald Ford. "Esse foi um período realmente amargo, e nos colocou profundamente contra as aventuras em matéria de política externa. Isto não é tão profundo, mas vamos nessa direção", acrescentou.
As declarações de Scowcroft chegam em um momento crítico. As pesquisas de opinião marcam uma queda para menos de 40% na aprovação da gestão do presidente Bush. Os pesquisados criticam a ação do governo nas tarefas de resgate das vítimas do furacão Katrina, a nomeação da advogada pessoal do presidente para integrar a Suprema Corte de Justiça e a falta de avanços no Iraque. Por outro lado, crescem as possibilidades de um promotor especial acusar esta semana altos funcionários do governo, entre eles o principal assessor presidencial, Karl Rove, e o chefe da equipe do vice-presidente, I. Lewis Libby.
Ambos são suspeitos de terem tentado desacreditar e punir o embaixador Joseph Wilson, que havia questionado a guerra no Iraque. Para isso, vazaram para a imprensa a informação de que a mulher de Wilson era agente secreta da inteligência. A divulgação desses dados é crime nos Estados Unidos. A investigação oficial sobre o caso é uma nuvem negra pairando sobre a Casa Branca no momento em que se encontra mais debilitada. Por outro lado, na semana passada, Wilkerson, um coronel da reserva que por 16 anos considerou que Cheney e Rumsfeld encabeçaram um "complô" que evitou processos formais de tomada de decisão política e de inteligência para atacar o Iraque.
Wilkerson também acusou a atual secretária de Estado, Condoleezza Rice, de "consentir" no complô e não impor no Conselho de Segurança Nacional, que então encabeçava, um processo político transparente e aberto, em que todas as opções fossem atendidas. Scowcroft, um ex-general da Força Aérea que durante muito tempo foi considerado o amigo mais próximo de Bush pai, não foi tão cáustico quanto Wilkerson, que refletiu ira e frustrações em suas declarações. Por outro lado, Scowcroft soou um tanto resignado. Mas o ex-funcionário manifestou desconcerto ao considerar o papel de Cheney, com que teve uma ligação muito estreita em outros governos republicanos: o atual vice-presidente foi secretário de Defesa no governo de Bush pai e chefe de pessoal da Casa Branca na administração de Gerald Ford.
"A verdadeira anomalia da administração é Cheney", afirmou Scowcroft. "Considero Cheney um bom amigo: o conheço há 30 anos.Mas Dick Cheney eu desconheço". Ao que parece, segundo Scowcroft, Cheney levou em conta as recomendações de Bernard Lewis, um octogenário especialista em questões de Oriente Médio da Universidade de Princeton convidado à Casa Branca pouco depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, que deixaram três mil mortos em Nova York e Washington. "Creio que uma das coisas que vocês devem fazer com o árabes é golpeá-los com um grande pedaço de pau entre os olhos. Os árabes respeitam o poder", foi, segundo Scowcroft, a mensagem de Lewis.
"Não creio que Cheney seja um neoconservador, mas aliada com o núcleo dos conservadores está o grupo que acredita que cometemos um erro na primeira guerra do Golfo, que deveríamos ter terminado o trabalho" e avançado sobre Bagdá contra o então presidente iraquiano, Saddam Hussein, acrescentou. "Outro grupo ficou tão traumatizado pelo 11 de setembro que pensou: 'o mundo vai para o inferno e temos de mostrar-lhe que devemos responder. O Afeganistão está OK, mas não é suficiente? ", disse Scowcroft.
Quando o ex-conselheiro de Estado divulgou em agosto de 2002 sua posição contra a guerra no Iraque, Rice, de quem foi seu mentor, o chamou por telefone de seu escritório na Casa Branca e lhe perguntou: "Como pôde nos fazer isto?", segundo uma fonte. "O que desagrada Brent mais do que o fato de Rice gritar com ele é o fato de que ela era a conselheira de Segurança Nacional e não estava interessada em ouvir o que um antecessor seu tinha para dizer", disse o informante. Scowcroft presidia na época a Junta Assessora de Inteligência Externa da Casa Branca, que, ao que parece, não foi consultada na preparação para a guerra. (IPS/Envolverde)

