Saúde: A medicina natural em Cuba

Guantânamo, 04/10/2005 – Imesfama para os asmáticos, xarope de copal contra catarro e tintura de alho para hipertensos são alguns dos produtos naturais que competem de igual para igual com os medicamentos químicos na província cubana de Guantânamo. Esses produtos são os de maior demanda entre os mais de 30 fitofamárcos (medicamentos cujo ingrediente biológico ativo provém do extrato de uma planta) fabricados pela Empresa de Farmácias e óticas de Guantânamo, situada mil quilômetros a sudeste de Havana, com um pessoal majoritariamente feminino.

O imefasma é um broncodilatador feito da mistura do talo da bananeira, flor de hibiscos (hibiscus elatus malvaceae) e babosa (Aloe vera), que substitui a Difenhidramina composta e o Neoasma segundo o quadro de equivalências de medicamentos genéricos convencionais pelos de origem natural que estão à venda nas farmácias de Guantânamo. "Meu neto toma desde os três anos e todo este tempo não teve crise asmática nenhuma", afirma, enfática, uma senhora que esperava para ser atendida em um local do centro da cidade. A tintura de alho, conhecida como "elixir da vida", também é muito procurada por pessoas hipertensas, porque limpa as artérias, ou por suas virtudes em reduzir os níveis de colesterol e como antiinflamatório, afirmou Cristina Tabera, técnica em farmácia.

Embora se trate de uma tendência generalizada em todo o país, cujo sistema de saúde concebe a medicina natural e tradicional como uma forma a mais de cura, o uso de medicamentos à base de ervas em Guantânamo é um costume extremamente difundido. "Meus pais me tratavam com ervas e não era por falta de dinheiro. É um hábito em nossa província", afirmou à IPS María Miras San Jorge, diretora da Empresa de Farmácias e óticas de Guantânamo, que emprega 757 pessoas, das quais 631 são mulheres. Entretanto, alguns médicos falaram à IPS sobre o risco que implica esse costume quando se desconhece o limite entre o tóxico e o terapêutico de uma determinada planta.

"O perigo é maior no caso das crianças. Deve-se ter muito cuidado no que se prescreve para menores de 5 anos", disse uma pediatra do Hospital de Guantânamo que preferiu manter seu nome em reserva. A indústria de fitofarmácos deste território conta com três laboratórios de produção especializada e 26 dispensários farmacêuticos distribuídos em 10 municípios, sete deles nas zonas montanhosas da província, dando emprego a 104 pessoas. Uma área dedicada ao cultivo de plantas medicinais abastece a empresa de matéria-prima. "No total, 141 trabalhadores se dedicam à produção e neste ano projetamos fabricar 2,1 milhões de unidades. Não sobra nada. Tudo é consumido na província", assegurou Miras San Jorge.

De todos os recursos da medicina natural e tradicional, o mais difundido entre os 11,2 milhões de cubanos é o emprego de plantas medicinais transmitido de geração para geração. Nos anos 40, o sábio cubano Juan Tomás Roig (1877-1971), botânico, farmacêutico e agrônomo, identificou 599 espécies que eram empregadas pela população para diferentes usos curativos. "Me considero discípulo de Roig, disse Américo Delgado, conhecido como "El Botânico" e famoso na província por seus conhecimentos sobre as possibilidades curativas de centenas de plantas que ele mesmo busca "no monte" para os que lhe pedem ajuda. "A mãe terra tem tudo o que um ser humano precisa, apenas é necessário conhecê-la", afirma.

O homem preparou a sala de sua casa como consultório, onde duas vezes por semana atende centenas de pessoas. "As ervas que recomenda são muito boas, meu pai curou a ferida que tinha na perna", contou María Mercedes, uma jovem moradora no bairro de "El Botânico". Delgado mantém um rígido registro de seus pacientes, doenças e tratamento recomendado. Segundo assegurou à IPS, um laboratório de Saúde Pública controla a qualidade de seu trabalho. "O engenheiro Delgado se converteu em um líder popular no uso das plantas medicinais em diferentes aplicações", afirmou Marlenis Cala Cala, representante permanente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente na Comissão Provincial de Medicina Natural e Tradicional.

Cala Cala admitiu, entretanto, que Delgado carece de tecnologias apropriadas para consolidar a qualidade de seus produtos. "Estamos assessorando um projeto de desenvolvimento, inovação e transferência tecnológica a titulo de colaboração com seu sonho de ter um pequeno laboratório", afirmou. Um CD-Rom sobre as plantas medicinais publicado em Guantânamo fornece informação sobre as 74 espécies curativas de maior uso nas montanhas cubanas e é distribuído em centros de saúde e de educação superior com acesso a tecnologias digitais. O CD-Rom também relaciona as famílias botânicas e os 63 gêneros nas quais se agrupam, ilustradas graficamente e ordenadas de modo alfabético.

Cala Cala disse à IPS que atualmente estão em andamento vários projetos para recuperar espécies procuradas pelo sistema de saúde e que estão em risco de extinção, como o chá de riñón (Orthosiphon aristatus B), arruda (Ruta graveolens L.), alecrim (Rosmarinus officinalis L.) e o copal, entre outras. O programa cubano para o desenvolvimento da medicina bioenergética e naturalista, vigente desde 1996, inclui a capacitação de pessoa, pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico, integração dos recursos terapêuticos à rede sanitária e produção, distribuição e uso dos produtos naturais. Autoridades da área de saúde consideram que esta medicina não é uma alternativa nem um complemento à clássica medicina ocidental, mas que se integrou para enriquecer o arsenal de recursos terapêuticos dominados e aplicados pelos profissionais cubanos. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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