Bangcoc, 06/10/2005 – Durante a maior parte de sua carreira, Suthee Yoksan trabalhou duro para desenvolver uma vacina contra a dengue, doença que cada vez mais preocupa as autoridades do sudeste da Ásia, embora pareçam concentradas em combater a gripe do frango. "Já se passaram 25 anos", disse este médico tailandês de 55 anos, que coordena pesquisas para desenvolver uma vacina contra a dengue. Mas a probabilidade de sucesso ainda parece longe. Uma das maiores dificuldades dos pesquisadores é encontrar uma vacina que enfrente as quatro variantes do vírus transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti.
"Temos uma vacina candidata para três cepas do vírus, mas nenhuma funciona com as quatro. Temos de encontrar uma até o final de 2006 ou, no mais tardar, início de 2007", disse à IPS Suthee, diretor de pesquisas do Centro para o Desenvolvimento de Vacinas da Universidade de Mahidol, na Tailândia. A província de Ratchaburi, 85 quilômetros a oeste de Bangcoc e fronteiriça com a Birmânia, foi o lugar escolhido para uma série de testes previstos para meados de 2007 com as diferentes vacinas elaboradas contra as quatro cepas do vírus. "Em Ratchaburi se encontram os quatro tipos de dengue, por isso é ideal. Observaremos 10 mil meninos e meninas, dos quais cinco mil serão vacinados e os outros cinco mil receberão placebos, durante um período de dois anos antes de se chegar a qualquer conclusão", disse Suthee.
A firme determinação do médico tailandês em continuar com as pesquisas é motivada pelo recente aumento da potência da doença no sudeste da Ásia, especialmente da fatal febre hemorrágica da dengue, a variante mais perigosa da doença. A dengue clássica se manifesta com febre alta, forte dor de cabeça, perda do paladar e do apetite, erupções no peito e membros inferiores, náuseas e vômitos. Mas na variante hemorrágica se soma dor de estômago intensa, pele pálida, fria ou pegajosa, hemorragias nasais, bucais ou da gengiva, vômitos freqüentes, entre outros sistemas. O alarme soou este ano em quase todas as nações do sudeste asiático, desde Cingapura, famosa por suas ruas limpas e belas, até a pobre Birmânia e a caótica Filipinas.
Em Cingapura foram detectados 11 mil casos de dengue este ano, dos quais 11 fatais, isto é, 1.500 mais do que em 2004, uma cifra importante para um país com 4,2 milhões de habitantes. A Malásia está prestes a declarar uma epidemia de dengue depois da constatação de 752 casos na última semana de setembro, o dobro do registrado em agosto. Neste ano, a Malásia teve 27 mil casos, 70 deles fatais, enquanto em 2004 foram 33 mil e 102 mortes. Nas Filipinas foram constatados 17.340 casos de dengue, incluindo 197 mortes pela febre hemorrágica, 20% mais do que no ano passado. A Tailândia registrou cerca de 31 mil casos da doença até agosto, com 46 mortes, enquanto a Indonésia, último país da região a ser afetado pela dengue, teve 48 mil casos com 600 mortes.
Porém, agora a ameaça se estende para além do sudeste da Ásia, onde a febre hemorrágica foi detectada pela primeira vez nos anos 50, segundo a Organização Mundial da Saúde. Sua propagação nos últimos 35 anos revela sua potência. A febre hemorrágica passou de estar presente em nove países, em 1970, para 60 hoje em dia. Segundo a OMS, cerca de 50 milhões de pessoas por são infectadas com dengue em todo o mundo, e outros 2,5 bilhões – dois quintos da população do planeta – estão sempre em risco. Entretanto, agências como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) disseram que a "falta de mercado" nos países do Sul em desenvolvimento fazem com que os laboratórios não invistam no desenvolvimento de vacinas contra "doenças que afetam fundamentalmente os pobres".
Para o sudeste asiático, a dengue representa uma carga a mais à já disseminada gripe do frango, que matou 62 pessoas desde janeiro último. O temor de uma epidemia de gripe aviária se agravou nos últimos meses depois da detecção de novos focos na Indonésia. Esta doença afeta todo tipo de ave. Nos seres humanos infectados os primeiros sintomas são febre e tosse, bem como queda da pressão arterial e do nível de glóbulos vermelhos. Em última instância, pode-se desenvolver pneumonia. As aves sofrem enrijecimento dos olhos e problemas no fígado. A doença conhecida há cerca de cem anos ultrapassou, em 1997, a fronteira das espécies ao contagiar humanos. Algumas cepas são de altíssima mortalidade, mas a H5N1 é a pior de todas, devido à sua gravidade e capacidade de adaptação genética. (IPS/Envolverde)

