Nova Délhi, 11/10/2005 – O terremoto de sábado na Caxemira que matou pelo menos 20 mil pessoas e deixou outras 40 mil feridas pôs á prova a aproximação diplomática entre Índia e Paquistão, países que disputam esse território há 58 anos e agora estão em uma fase de "reconciliação". Dados não definitivos indicam que a grande maioria das mortes em razão do sismo, de 7,6 pontos na escala Richter, aconteceu do lado paquistanês da província. Das mais de 20 mil vítimas fatais, 450 foram do lado indiano.
Índia e Paquistão disputam o controle da Caxemira desde 1947, quando ficaram independentes do império britânico. Trata-se de uma zona rica em petróleo e cuja população é majoritariamente muçulmana, como no Paquistão. Esta disputa provocou três guerras entre os dois países, levando a Organização das Nações Unidas a criar uma fronteira provisória – a chamada linha de controle – através da qual, entretanto, a troca de tiros ainda é freqüente. Na parte sob controle indiano, integrada ao Estado de Jammu e Caxemira, atuam grupos separatistas que cometeram nos últimos anos vários atentados. Nova Délhi acusa Islamabad de apoiar militarmente esses guerrilheiros islâmicos, mas o governo paquistanês afirma que somente lhes dá "apoio moral e diplomático".
A Índia foi o primeiro país a oferecer ajuda ao Paquistão para as operações de resgate, mas até agora não se sabe se Islamabad aceitará. No sábado à noite, o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, telefonou ao presidente paquistanês, Pervez Musharraf, e lhe ofereceu toda ajuda de seu governo, anunciou o porta-voz da administração indiana, Sanjaya Baru. "Embora haja partes da Índia que também foram atingidas pelo terremoto, estamos preparados para estender nossa ajuda até onde for considerado apropriado", teria dito Singh a Musharraf. O analista indiano Kamal Mitra Chenouy, da Universidade Jawaharlal Nehru, em Nova Délhi, disse à IPS que "a resposta teria sido melhor se o Paquistão tivesse um governo civil genuíno".
"A Índia está em uma posição única para colaborar com as operações de resgate na região da Caxemira controlada pelo Paquistão", mas Islamabad prefere a ajuda de outros países mais distantes, como Estados Unidos e Grã-Bretanha, disse Chenouy. "Se o Paquistão aceitar, a Índia poderá enviar ajuda às zonas afetadas em questão de horas, já que o terreno é familiar para seus soldados."Lamentavelmente, o enfoque continua sendo militar e não humanitário", disse Chenoy. Muitas áreas da Caxemira paquistanesa, afetadas especialmente por desmoronamentos causados pelo terremoto, são mais acessíveis a partir do lado indiano, mas até agora há pouca cooperação entre os exércitos dos dois países na fronteira.
A força aérea indiana colocou à disposição seus helicópteros para distribuir a ajuda e transportar engenheiros e médicos para Srinagar, uma das cidades mais importantes de Jammu e Caxemira. Toda a operação é supervisionada pelo ministro da Defesa, Pranab Mukherjee, e pela presidente da governante Aliança Progressista Unida, Sonia Gandhi. "Já enviamos um grande número de feridos aos hospitais de Srinagar, e agora nos concentramos em fornecer apoio logístico e direto às pessoas afetadas em diferentes partes da Caxemira", afirmou o porta-voz da Força Aérea indiana, Mahesh Upasini.
As Forças Armadas indianas ganharam prestígio internacional na ajuda a vítimas de desastres naturais de países vizinhos depois que seus navios foram os primeiros a prestar ajuda a Sri Lanka e Indonésia depois do tsunami do dia 26 de dezembro. Pelo menos 11 mil pessoas morreram em Muzaffarabad, capital da Caxemira paquistanesa, e 60% de sua infra-estrutura está destruída. Enquanto a Índia espera que sua oferta seja aceita, a ajuda ao Paquistão começou a chegar da Austrália, Estados Unidos, França, Japão e Turquia com dinheiro, equipamentos, cães treinados, policiais e equipes de resgate.
Chenoy disse que será difícil para o Paquistão aceitar a ajuda da Índia "no momento em que se submete a arbítrio internacional a disputa sobre o rio Indus e seus afluentes, que irrigam as terras agrícolas da Caxemira". Entretanto, esforços de resgate conjuntos poderiam ajudar a melhorar a confiança entre os dois países, reconheceu o analista, afirmando que a lenta resposta do governo de Musharraf à oferta de Singh é prejudicial. "Será difícil que a Índia a reitere", ressaltou. O terremoto sacudiu a Caxemira bem depois de o chanceler indiano, Natwar Singh, ter passado quatro dias em Islamabad para elaborar um documento em que os dois países se comprometem com uma desmilitarização progressiva da fronteiriça zona glacial Siachen, considerada "o campo de batalha mais alto do mundo".
Manter tropas na geleira Siachen, cerca de 6.300 metros acima do nível do mar, custa à Índia mais de US$ 1 milhão por dia, além das freqüentes perdas humanas pela exposição dos soldados a temperaturas extremamente baixas. Está prevista para janeiro próximo uma rodada de diálogo bilateral para chegar a um acordo sobre o controle dessa zona estratégica. Por outro lado, parece improvável que o Paquistão aceite a ajuda indiana para as vítimas do terremoto. "A última coisa que o Paquistão quer é ver soldados indianos caminhando por uma zona onde se sabe que estão as bases de vários grupos separatistas", afirmou um analista militar indiano.
(IPS/Envolverde)

