Belgrado, 04/10/2005 – A economia da Sérvia se recupera após anos de sanções internacionais, cinco anos depois da queda do ex-presidente Slobodan Milosevic, e se prepara para receber grandes investimentos, entre eles os da empresa de informática Microsoft. Às vésperas de 5 de outubro, data em que completarão cinco anos do protesto pacífico que pôs fim ao regime de Milosevic (1989-2000), muitos ainda recordam dos gases lacrimogêneos usados nesse dia pela polícia. Mas também permaneceu na memória a sensação de triunfo dessa noite, quando o presidente foi obrigado a renunciar.
Milosevic havia se negado a admitir a derrota eleitoral das eleições presidenciais de 24 de setembro, e de a Oposição Democrática da Sérvia (ODS), cujo candidato Vojislav Kostunica havia vencido a votação, organizou um protesto sem precedentes. "Foi um acontecimento histórico, mas foi apenas o prelúdio do longo caminho percorrido por este país para recuperar a normalidade", disse à IPS o historiador Predrag Markovic. Historiadores, analistas e especialistas de todo tipo se dedicaram nos últimos dias a participarem de mesas-redondas, conferências, debates e editoriais nos meios de comunicação sobre o acontecido.
"O do dia 5 de outubro foi um dos fatos mais importantes na história recente da Sérvia, disse o analista Slobodan Antonic. "As pessoas simplesmente haviam agüentado ao máximo". Desde sua prisão e entrega ao Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia, em junho de 2001, Milosevic continua na cidade holandesa de Haia, submetido a julgamento por crimes de guerra e genocídio. Entre 1991 e 1995, o governo do ex-ditador esteve marcado por três guerras pela secessão da então Iugoslávia, que se dividiu nos atuais Estados independentes de Sérvia e Montenegro, Bósnia-Herzegovina, Croácia, Eslovênia e Macedônia, deixando saldo de 250 mil mortos.
Mais tarde, sua opressão contra a comunidade étnica albanesa na província sérvia de Kosovo levou os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a bombardear a Sérvia durante 11 semanas, o que ainda é um dos acontecimentos mais traumáticos nas vidas de muitas pessoas. A Sérvia se converteu em um Estado paria, excluído de todas as organizações e instituições internacionais, e castigada por rígidas sanções econômicas da Organização das Nações Unidas. Somente depois da queda de Milosevic foi readmitida na ONU e na Organização para a Cooperação na Europa (OSCE), e pôde ter acesso ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional (FMI).
No dia 29 de setembro, os embaixadores da União Européia em Bruxelas acordaram o início de conversações com a Sérvia sobre um Acordo de Estabilização e Associação, primeiro vínculo formal com vistas a sua entrada na UE. Este tipo de acordo estabelece modalidades de cooperação nas áreas de Justiça e assuntos internos, bem como ajuda econômica e financeira, e constituem importante sinal político para qualquer Estado que deseja integrar esse bloco de países. Belgrado aplaudiu a decisão, a qual considerou como uma grande vitória política. "Sem levar em conta as mudanças na casa, o efeito mais positivo desde o 5 de outubro está na área da economia, completamente devastada nos tempos do governo de Milosevic", disse à IPS a analista Misa Brkic.
Nos anos de isolamento, os únicos segmentos da economia sérvia que funcionaram foram agricultura, produção de eletricidade e as telecomunicações. As fábricas permaneceram ociosas sob rígidas sanções internacionais. Todo o comércio estava proibido, incluindo a importação de matéria-prima. Nos últimos anos, a produção reviveu onde foi possível, com a ajuda de instituições financeiras internacionais. As privatizações geraram quase US$ 2 bilhões. E o investimento estrangeiro através da privatização chega a US$ 1,2 bilhão.
"A Sérvia será testemunha de um auge de investimentos", disse em entrevista coletiva Jasna Matic, funcionária do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). "O próximo ano será o de maior sucesso, devido à privatização das empresas que seguem em poder do Estado", acrescentou. Espera-se que a Sérvia complete o processo de privatização nos próximos 18 meses. Mas a transição para a economia de mercado foi um processo doloroso. O desemprego é de quase 30%. Graças à ajuda estrangeira, o Estado pode oferecer alguma compensação aos milhares que ficaram sem trabalho.
"Durante décadas, no governo comunista, todos esperavam que o Estado cuidasse de todas suas necessidades", disse à imprensa de Belgrado Bozidar Djelic, primeiro-ministro das Finanças depois da era Milosevic. "Para muitas pessoas é difícil pensar que agora devem cuidar de si próprias". Muitos tiveram êxito. As pequenas empresas estão florescendo. No ano passado, 10 mil novos estabelecimentos comerciais de artesanato foram registrados em Belgrado. A Câmara de Comércio dessa cidade descreveu o fenômeno como um "milagre" que representa uma salvação para milhares de famílias.
"Mas muitas pessoas continuam decepcionadas, porque esperavam uma recuperação rápida e a boa vida que tinham antes de Milosevic", disse Markovic. "As coisas não podem mudar a noite para o dia depois de uma década de devastação". O salário mensal médio aumentou para US$ 200, desde os US$ 50 da era Milosevic. "Não é muito, mas é quatro vezes mais", destacou Brkic. "Em 2000, uma geladeira custava o equivalente a quase 4,5 salários. Agora, custa um". Um sinal do caminho da Sérvia para a recuperação foi a decisão tomada na semana passada pela Microsoft – a gigante norte-americana dos programas de informática – de instalar um de seus centros de desenvolvimento global em Belgrado. É o terceiro desses centros nos mercados emergentes, depois da China e Índia. "Foi um caminho realmente longo o que tomamos nos últimos cinco anos, desde os gases lacrimogêneos até à Microsoft", resumiu Ljiljana Palovic, uma professora da pré-escola de 54 anos que trabalha em Belgrado. (IPS/Envolverde)

