Tóquio, 06/10/2005 – As conversações entre Japão e Estados Unidos para elaboração de uma agenda comum de assistência internacional ao desenvolvimento deixará Tóquio ainda mais atrelado aos interesses políticos de Washington e significará mais uma ofensiva pela abertura econômica nos países do Sul em desenvolvimento. Assim advertiram acadêmicos e ativistas japoneses, preocupados por esta iniciativa impulsionada pela secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, e que começou a ser negociada no final do mês passado. Um funcionário da chancelaria japonesa explicou à IPS que as conversações estão centradas em alcançar dois objetivos: criar um ambiente para aumentar o investimento privado nos países do Sul em desenvolvimento e fornecer capacitação profissional para jovens.
"Os dois aspectos são chave para o crescimento econômico dos países em desenvolvimento", disse o funcionário, lembrando que esse projeto ajudará essas nações a reduzirem suas tarifas e outras barreiras comerciais para impulsionar o comércio internacional e o investimento estrangeiro. "Mantivemos apenas a primeira reunião para preparar um rascunho. O próximo passo é definir os detalhes", acrescentou. O Japão é o segundo maior doador, com US$ 8,860 bilhões em ajuda oficial ao desenvolvimento (ODA) no ano passado. A combinação dos dois orçamentos representa 40% da ajuda mundial ao desenvolvimento.
"Japão e Estados Unidos são as duas maiores economias do mundo. A iniciativa de trabalharem juntos deixou os países menores, dependentes da ajuda internacional, sem estratégias de desenvolvimento alternativas", disse Keisuke Oohashi, professor de desenvolvimento internacional da Universidade Keisen. Oohashi afirmou que o enfoque adotado por Washington e Tóquio na ajuda coloca mais pressão nos países do Sul para que abram seus mercados e permitam a privatização de setores chaves, como educação e saúde. "Sempre defendi um sistema de ajuda sob a direção da Organização das Nações Unidas, que representa melhor a necessidade dos países em desenvolvimento, mais do que a colaboração bilateral", afirmou. Oohashi também alertou para o perigo da politização da ajuda japonesa, pois a partir de agora seguirá os interesses de Washington.
Por sua vez, o economista Hisashi Nakamura, da Universidade Ryukoku, afirma que Tóquio novamente está cedendo à pressão norte-americana. "Não estou seguro de que a colaboração bilateral vá funcionar, já que os dois países têm políticas de ajuda diferentes. Mas os japoneses, obviamente, não podem voltar as costas à proposta", destacou. Nakamura explicou que a ajuda japonesa tem a prioridade de desenvolver a infra-estrutura local dos países beneficiados, enquanto os Estados Unidos se voltam mais em apoiar o intercâmbio tecnológico. A chancelaria japonesa, entretanto, negou que Tóquio esteja agindo sob pressão da Casa Branca.
"O Japão manterá os princípios que regem sua ODA e dará uma ajuda que respeitará as metas e os desejos dos países beneficiados. Não há medo de uma dominação pelos Estados Unidos", destacou o funcionário ouvido pela IPS. Além disso, afirmou que a colaboração entre os dois países permitirá o intercâmbio de experiências e reduzirá a superposição de programas. Alguns analistas dizem que a colaboração bilateral poderia estimular a cooperação entre organizações não-governamentais dos dois países. A assistência japonesa ao desenvolvimento diminuiu nos últimos sete anos por causa da recessão econômica, e é possível que diminua ainda mais no futuro já que o governo do primeiro-ministro, Junichiro Koizumi, prevê adotar uma série de reformas estruturais.
Por outro lado, ativistas pressionam Tóquio para que cumpra a meta de destinar 0,7% do produto interno bruto à ODA. Os países do Norte industrializado se comprometeram, em 1970, a destinar essa porcentagem ao desenvolvimento, mas somente Dinamarca, Holanda, Noruega e Suécia cumpriram a promessa. Bélgica e Finlândia se propõem alcançá-la em 2010, França e Espanha em 2012 e Grã-Bretanha em 2013. A chancelaria japonesa garantiu que manterá sua ODA para combater a pobreza e colaborar com o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. A coordenação com os Estados Unidos será de vital ajuda para isto, destacou. Os Objetivos incluem metas em matéria de melhoria da saúde, dos serviços de água e saneamento, da educação, da igualdade de gênero e do meio ambiente. A promessa do Japão de concentrar sua ajuda na Ásia e duplicá-la para os países africanos se mantém, acrescentou o funcionário da chancelaria japonesa. (IPS/Envolverde)

