Política: Estados Unidos preparam sanções à Síria

Nações Unidas, 24/10/2005 – A ameaça de sanções se fecha sobre a Síria, depois que uma investigação da Organização das Nações Unidas implicou funcionários do governo desse país no assassinato do ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri. Numerosas pistas levam a essa direção, segundo a comissão investigadora instalada pelo Conselho de Segurança da ONU e pelo secretário-geral, Kofi Anann. "As descobertas requerem um forte acompanhamento do Conselho de Segurança", disse o embaixador dos Estados Unidos nas Nações Unidas, John Bolton, pouco depois que a Comissão Investigadora Independente Internacional apresentou seu relatório, na sexta-feira.

Os Estados Unidos e outros países examinam os termos de dois projetos de resolução sobre o caso a ser apresentado ao Conselho de Segurança esta semana. Também são analisadas sanções, segundo fontes diplomáticas. Embora não tenha descartado essa possibilidade, o embaixador sírio na ONU, Fayssal Mekad, disse à IPS que isso não acontecerá "nesta etapa". Hariri, um político multimilionário, morreu junto com outras 22 pessoas em um atentado com explosivos cometido em Beirute, em fevereiro. Os fatos que derivaram do crime culminaram com a retirada das tropas e dos agentes de inteligência sírios que permaneciam no Líbano desde o começo da guerra civil nesse país (1975-1980).

Bolton, conhecido por suas posições belicistas e unilateralistas em matéria de política externa, considerou que o relatório é "contundente". Em suas declarações à imprensa, não usou o termo "sanções", mas advertiu que Washington analisa "uma gama de opções?. Em ocasiões anteriores, o governo de George W. Bush sugeriu que imporia sanções à Síria, país que considera como um dos patrocinadores do terrorismo. O secretário de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, Jack Straw, informou na sexta-feira que o Conselho de Segurança estudará possíveis sanções quando se reunir em sessão especial para analisar o relatório.

Apesar de sugerir a participação de funcionários sírios na conspiração que acabou com a vida de Hariri, no informe, de 53 páginas, admite-se que este não é concludente. "A Comissão revisou e examinou a evidência a seu melhor saber?, diz o prólogo do relatório. "Até que a investigação esteja completa, que todas as novas pistas e evidências sejam analisadas e se instale um mecanismo independente e imparcial de acusação, não se pode saber a história completa do que ocorreu", acrescenta o documento. Os investigadores da ONU aderiram à noção de que o assassinato teve motivações políticas, originadas na oposição de Hariri à influência da Síria sobre o governo do Líbano.

"A investigação da Comissão confirmou o que muitos no Líbano afirmaram durante muito tempo: que altos funcionários da inteligência síria tinham uma poderosa e estratégica influência sobre o governo libanês", informaram os investigadores. "O evidente e crescente conflito entre Hariri e altos funcionários sírios, incluindo o presidente, Bashar Assad, era um aspecto central da informação obtida pela Comissão através de entrevistas e documentos", acrescenta o relatório. Aos olhos dos investigadores, o conflito parece ter se agravado em uma reunião, em Damasco, entre Assad e Hariri, então primeiro-ministro, no dia 26 de agosto de 2004. Nessa oportunidade, o presidente sírio disse que pretendia prorrogar o período de Emile Lahoud na presidência do Líbano, contrariando a vontade de Hariri.

Funcionários sírios, que criticam os métodos da Comissão, afirmaram que a investigação devia se concentrar em fatos relativos ao incidente e não nas circunstâncias políticas da região. "Isto é uma grande mentira. Não é um relatório crível", disse o embaixador Mekad. Por sua vez, os investigadores se queixaram de que Damasco não cooperou plenamente. Mekad disse que seu país "não entorpeceu a investigação". Também perguntou por que o relatório vazou para a imprensa horas antes de ser entregue aos representantes do Conselho de Segurança. Na quinta-feira passada, um porta-voz da ONU havia dito aos jornalistas que o estudo estaria disponível depois que Kofi Annan o apresentasse ao Conselho.

Porém, pouco depois, funcionários das Nações Unidas constataram que algumas passagens do documento já haviam sido divulgadas na imprensa. "Supunha-se que era confidencial", disse Detlev Mehlis, procurador alemão que dirigiu a investigação, ao ser interrogado pela imprensa a respeito. Além disso, afirmou que fez mudanças no documento depois de saber que a ONU havia decidido divulgá-lo. "De outro modo, daria uma impressão equivocada sobre alguns testemunhos. Também devíamos manter a presunção de inocência. Os testemunhos podem estar equivocados", acrescentou. As partes eliminadas do informe mencionavam os nomes do irmão e do cunhado do presidente Assad.

Por sua vez, o embaixador Mehlis afirmou que o documento "se baseia em suposições. E não há acusações diretas no momento". O relatório também aponta para o possível envolvimento de funcionários libaneses, um extremo que Beirute se apressou em desacreditar. O mandato da Comissão foi ampliado por Annan até dezembro, e um segundo relatório é aguardado para os próximos dias. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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