Saúde: Laboratórios se fazem de surdos para o Sul

Bangcoc, 24/10/2005 – Sem nenhum resquício de vergonha, vozes do establishment político do mundo rico deixam evidência de que, para eles, a vida de um ser humano no Norte vale mais do que a de outro no Sul. O senador norte-americano Chuck Schumer ameaçou a companhia farmacêutica Roche para que abra mão de seu direito de proteger a patente do Tamiflu, único remédio capaz, hoje, de combater o vírus H5N1, a cepa da gripe aviária que se transmite para seres humanos. Segundo Schumer, a Roche deveria permitir a produção do medicamento por outros laboratórios, pois não tem capacidade para fabricá-lo em quantidade suficiente, enquanto cresce o temor de que ocorra uma pandemia de gripe do frango, o que pode ocorrer se uma mutação do vírus permitir seu contágio entre humanos.

"Se não começarem a ceder a patente do Tamiflu para aumentar radicalmente sua produção mundial, proporei um "remédio legislativo" por mês a partir de hoje", advertiu o legislador norte-americano. A Roche coloca seu próprio interesse acima da saúde mundial, quando temos uma pandemia potencial que pode ocorrer a qualquer momento", acrescentou. Na quinta-feira passada, cinco dias após a advertência, o laboratório cedeu a licença a quatro empresas norte-americanas, que poderão fabricar o Tamiflu como genérico, que são os remédios identificados pelo nome de seu princípio ativo e muito mais baratos do que seus equivalentes de marca.

Um pensamento tão iluminado – que a saúde pública tem mais importância do que o lucro da Roche – surgiu somente depois de saber-se que o vírus H5N1, que ataca o sudeste da Ásia desde janeiro de 2004, cruzou as fronteiras da Europa. As autoridades sanitárias européias sentiram, então, que esta virada nos acontecimentos era suficiente para qualificar a gripe aviária como "ameaça mundial". E, para salvar seus cidadãos, funcionários da União Européia iniciaram um diálogo com a indústria farmacêutica. Os políticos asiáticos, por outro lado, consideraram que não podiam se dar ao luxo de se comportar como seus colegas dos Estados Unidos e da União Européia, apesar dos 60 mortos registrados na região, 43 no Vietnã e 13 na Tailândia, para citar apenas dois países.

Esses países, e os do Sul em desenvolvimento, em geral, conhecem bem a rudeza com que Washington e Bruxelas defendem as patentes dos grandes laboratórios. E não só os de medicamentos que combatem a gripe do frango, como também de outros contra numerosos males que anualmente cobram milhões de vidas. "A reação nos Estados Unidos e na União Européia não só reflete um duplo discurso como também é absurda", disse à IPS Nicola Bullard, pesquisadora do centro acadêmico Focus on the Global South, com sede em Bangcoc. "É um absurdo porque querem que a Roche renuncie aos seus direitos de patente para combater uma doença que é somente uma ameaça e não existe como pandemia humana", afirmou Bullard.

Não houve compaixão dos líderes dos Estados Unidos e da União Européia com os afetados por pandemias como as da aids, tuberculose e malária no Sul em desenvolvimento, com escasso acesso a medicamentos muito caros, segundo a especialista. A aids matou mais de três milhões de pessoas no ano passado, a maioria na África; a tuberculose fez dois milhões de vítimas fatais e a malária um milhão. No mês passado, a organização humanitária Médicos Sem Fronteiras escreveu à Organização Mundial do Comércio uma carta pública advertindo sobre as conseqüências de se colocar o lucro acima da vida humana. "A crise da aids demonstra a urgente necessidade de se garantir a disponibilidade de remédios essenciais a preços acessíveis", disse a MSF ao novo diretor-geral da OMC, Pascal Lamy.

A situação vai piorar, segundo a organização humanitária, "na medida em que o impacto da proteção das patentes sobre remédios para tratamento da aids se torne mais evidente nos próximos cinco anos". O Camboja, um dos países mais pobres da Ásia, é um caso digno de estudo. Ao integrar-se à OMC, no ano passado, enfrentava a possível perda de acesso a medicamentos genéricos baratos que retardam o desenvolvimento da aids nos portadores do vírus de deficiência imunológica humana (HIV). Essa possibilidade era alimentada pela pressão dos Estados Unidos e da União Européia, onde está radicada a maioria das grandes companhias farmacêuticas.

O Cambojá tem a mais alta taxa de HIV na Ásia do Pacífico: quase 1,9% dos adultos é portador do vírus. Atualmente, segundo o Programa Conjunto das Nações Unidas para o HIV/aids (Onusida), carecem de acesso a medicamentos contra a aids mais da metade dos seis milhões de portadores do vírus que os necessitam no Sul, o que os condena a uma morte precoce e evitável. Por outro lado, os portadores do HIV no Norte industrializado têm uma ampla disponibilidade de medicamentos anti-retrovirais e a capacidade econômica para comprá-los.

Contudo, esta não é a primeira vez que o mundo presencia o espetáculo de políticos do Norte ignorando um princípio que eles mesmos cristalizaram – como a proteção das patentes farmacêuticas -, como conseqüência de uma crise de saúde pública que afeta seus países. Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Itália e Nova Zelândia, entre outros países, violam as normas internacionais sobre propriedade intelectual quando enfrentam emergências de saúde pública. O fazem através da "licença obrigatória", uma medida prevista na legislação de muitas nações e que lhes permite autorizar a fabricação do medicamento por outros laboratórios instalados no país, estabelecendo uma remuneração fixa para o laboratório proprietário da patente.

O Canadá determinou 613 licenças compulsórias para a importação ou fabricação de genéricos entre 1969 e 1992, e pagava aos laboratórios donos da patente 4% sobre o preço líquido de venda, informou a Organização das Nações Unidas em um antigo relatório. "Nos Estados Unidos, a licença compulsória foi usada em mais de cem acordos extra-judiciais em processos anti-truste, referentes a antibióticos, esteróides sintéticos e diversas patentes biotecnológicas", acrescenta o informe. Entretanto, como disse Bullard, nega-se esse privilégio aos governos do mundo em desenvolvimento, como se a vida dos pobres valesse menos do que a dos ricos. A bem-sucedida advertência do senador norte-americano Schumer reforça essa idéia, acrescenta a ativista. (IPS/Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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