Tóquio, 01/11/2005 – Os golfinhos sofrem nos mares do Japão uma cruel matança em nome da gastronomia tradicional e da pesquisa científica, segundo defensores dos direitos animais e conservacionistas. Mas o governo se nega a ceder a estas pressões. "O Japão apóia o uso sustentável de cetáceos e nossa captura de golfinhos se baseia em evidências científicas. Não cederemos à pressão de ativistas", disse Hideki Morikuni, diretor de caça de baleias do Ministério de Agricultura, Florestas e Pesca. O Japão conta com uma cota anual de captura de 21.120 golfinhos de oito espécies para fins "científicos", regulamentada por normas aprovadas há 13 anos.
A captura varia a cada ano e se destina, em sua maioria, ao consumo em áreas onde a carne de golfinho é parte de pratos tradicionais. Os animais capturados vivos são vendidos para aquários. Mas a principal instituição conservacionista do país, Elsa Conservancy, acusou o governo de permitir a matança indiscriminada de golfinhos com fins comerciais e de implementar um controle inadequado da captura. "Com freqüência, os números divulgados pelo governo são fornecidos pelos próprios pescadores. O sistema é desordenado e não há respeito pela proteção de animais", disse o diretor da Elsa Conservancy, Sake Henmi.
Os conservacionistas também procuram acabar com o que consideram métodos cruéis de pesca mediante o uso de facas e arpões. "Os golfinhos mortos por pescadores sofrem morte lenta e cruel, com métodos que não são permitidos na maioria dos países. E os golfinhos enviados para os aquários sofrem muito estresse", afirmou Henmi. Estudos feitos por organizações conservacionistas indicam que a pesca de golfinhos é um negócio muito lucrativo. Um animal de tamanho médio é cotado entre US$ 6 mil e US$ 25 mil. Quando as capturas diminuem, os pescadores podem vender os golfinhos para aquários pelo dobro do preço. A carne de golfinho também é processada como fertilizante e alimento de animais de estimação.
Com cada vez mais países proibindo a captura de golfinhos, os preços aumentam no mercado internacional, segundo vários informes de imprensa. As pesquisas científicas demonstram que esses animais contam com elevada inteligência e complexos hábitos sociais, o que converte o cativeiro em uma experiência extremamente estressante. Estas graciosas criaturas são grandes atrações em aquários, onde são treinados em duras condições, com métodos que incluem não alimentá-los até que adquiram determinada destreza. Conservacionistas asseguram que a pressão de ativistas e público permitiu aliviar esta situação.
A expectativa de vida de um golfinho em cativeiro é de aproximadamente sete anos, um terço da que têm em estado natural. O zoólogo Toshio Kasuya, da Universidade Científica Tekyo, afirmou que o debate entre ativistas e funcionários governamentais reflete o predomínio que há muito tempo tem em Tóquio o interesse comercial sobre a proteção dos animais. "Esta posição deve mudar. As decisões devem ser tomadas com maior consideração do meio ambiente e da conservação de animais", afirmou. "A evidência obtida até agora demonstra que certas espécies de cetáceos devem ser respeitadas por sua inteligência. Mas contamos com informação limitada e necessitamos de mais investigações", disse Kasuya.
Por outro lado, ativistas tiveram sucesso em seus apelos públicos em favor da proteção dos golfinhos e outros cetáceos, como as baleias, bem como das tartarugas. Cada vez mais pessoas participam de atividades marinhas para observação dos hábitos desses animais e reclamam sua libertação em um habitat natural quando ficam presos em redes de pesca. Além disso, se popularizam as terapias com golfinhos para crianças deficientes. Mas estes avanços se registram em um clima saturado de mercantilismo. A captura de baleias "com fins científicos" no Japão permite a venda anual de mais de quatro mil toneladas de sua carne nesse país. Os golfinhos capturados no Japão também são vendidos em parques marinhos na China e nos Estados Unidos. A temporada de captura começa em setembro e termina em 31 de março. É um tempo de intenso trabalho para os ativistas, que se dedicarão a coletar evidências para deter a matança. (IPS/Envolverde)

