Comunicações: Mais Internet significa menos pobreza?

Túnis, 18/11/2005 – O acesso dos despossuídos do mundo às tecnologias da informação e das telecomunicações não reduzirá a pobreza de maneira automática. Aproximadamente 17 mil pessoas assistem em Túnis à Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação com o objetivo de reduzir a brecha digital, isto é, a diferença no acesso à Internet e outros instrumentos tecnológicos entre países ricos e pobres, e inclusive dentro das próprias nações. Mas a Internet e a telefonia celular ajudarão mais pessoas a saírem da pobreza que afeta milhares de milhões de pessoas em tantos países? E se isto for verdade, qual é a melhor maneira de enfrentar o desafio? Deve-se destinar os recursos às pessoas ou às empresas?

Reduzir a pobreza mundial pela metade até 2015 é a meta central dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, disse na Cúpula que as tecnologias da informação e telecomunicação poderiam estar na vanguarda dessa campanha. Estas tecnologias poderiam "trazer novos benefícios para todas as classes sociais", afirmou. A Cúpula, acrescentou Annan, "deve gerar um novo impulso para o desenvolvimento das economias e das sociedades dos países pobres e transformar a vida dos despossuídos".

Porém, o pesquisador canadense Laurent Elder sugeriu, em um encontro realizado no contexto da Cúpula, nesta quinta-feira, que é necessária mais pesquisa antes de concluir que o incentivo à informática e às comunicações inevitavelmente reduz a pobreza. "As pessoas usam esta tecnologia, antes de mais nada, para se comunicarem umas com as outras. Isto tem um efeito sobre a pobreza? Sim, provavelmente sim, mas é muito difícil de medir", disse Elder, chefe de equipe do programa Pan-Ásia Networking, do canadense Centro de Pesquisas para o Desenvolvimento Internacional (IDRC).

Um projeto pelo qual agricultores do Senegal recebem atualizações diárias do preço de seus aumentos representou um aumento de renda mensal de US$ 100 para 150 camponeses. Este é um caso de sucesso, mas outras pesquisas mostram resultados preocupantes. Algumas comunidades pobres do Sri Lanka estão gastando até 15% de sua renda em telecomunicações. "Isto é uma enormidade", disse Elder. "É bom? Ou estamos empobrecendo as pessoas?". A Índia aposta que não. Cem organizações de voluntários, 22 departamentos governamentais, 34 empresas e 18 centros acadêmicos anunciaram em Túnis que conectarão à Internet 1,2 milhão de indianos – um homem e uma mulher em cada povoado – para introduzir seus moradores na era da informação.

Outro projeto indiano, chamado Missão 2007, do Instituto de Pesquisas Internacionais de Colheitas para Trópicos Semi-áridos, se dedica a treinar jovens de áreas rurais para que apresentem as novas tecnologias em suas comunidades. E em Madagascar, agricultores e artesãos viajam horas para chegarem a centros de informação onde têm acesso à Internet, para conhecer métodos para melhorar sua produção e encontrar novos mercados para seus produtos. Entretanto, a diretora do Centro Técnico de Informação de Madagascar, Andramihaja Helene Marie, foi inequívoca ao responder se estes serviços fortalecem os indivíduos ou as empresas. "As empresas", respondeu.

Além de oferecer acesso à Internet a microempresas, o Centro apóia outras 800 pequenas e médias companhias desta nação insular africana. "O objetivo é que cada empresa ganhe experiência, se amplie, aumente seu faturamento e, assim, reduza a pobreza", disse Marie, entrevistada em Túnis logo após ter participado de um encontro sobre pequenas e médias empresas e tecnologias da informação. Esta reunião foi parte do projeto Compartilhando o Futuro, desenvolvida depois da primeira faze da Cúpula, realizada em 2003 em Genebra.

"Os governos holandês e tunisino se aproximaram de nós para dizer que, se o setor privado é o motor do crescimento no mundo em desenvolvimento, devemos fazer algo para apoiá-lo com tecnologia", disse Hans Pruim, da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Onudi). Esta agência e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) convidaram representantes de 60 organizações não-governamentais e de pequenas e médias empresas a participarem do encontro. A Onudi centra suas atividades em ajudar os governos a desenvolverem políticas e instituições de fomento às tecnologias da informação e telecomunicações para as micro, pequenas e médias empresas.

Muitas atividades se desenvolvem no setor agrícola da África subsaariana, disse Pruim, à IPS. "Se pudermos ajudar com programas de tecnologia que criem empregos concretos, criaremos riqueza e reduziremos a pobreza", acrescentou. Porém, o pesquisador Richard Duncombe, da Universidade de Manchester, da Grã-Bretanha, disse que a atenção deveria estar concentrada em menos empresas do mundo em desenvolvimento, mas com maiores possibilidades de expansão. Duncombe reconheceu, de todo modo, que a maior demanda não parte dessas empresas, mas da maioria dos pobres que trabalham em "empresas de subsistência". O investimento poderia pingar para as empresas menores, explicou.

"As tecnologias da informação e das telecomunicações são essencialmente instrumentos que podem ser utilizadas para aumentar a competitividade de uma economia e a produtividade das empresas", afirmou Duncombe. "O problema com a brecha digital é que existe certa obsessão por criar-se um campo de jogo nivelado, através da inclusão e por atacar um problema que é muito grande para serem resolvidos pelas tecnologias", ressaltou. "Os problemas da pobreza e da indigência rural nada têm a ver com as tecnologias da informação e das telecomunicações, mas sim com uma grande gama de outros assuntos, como água, saneamento e saúde", conclui o especialista. (IPS/Envolverde)

Marty Logan

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