Educação: Informática e Internet, matérias rebeldes

Santiago, 16/11/2005 – Em uma escola de Santiago do Chile se decidiu proibir os alunos de fazerem trabalhos em computadores. "Os estudantes baixam material da Internet e o apresentam sem nenhuma modificação. Nem mesmo o lêem. Agora, têm de escrevê-los manualmente para que, pelo menos, os leiam", explicou à IPS a professora Josefina Arriagada. O colégio Jaime Eyzaguirre, que atende meninos e meninas das classes média e baixa do município de Recoleta, ilustra um dos tantos desafios de introduzir o ensino das TIC, sigla que remete às novas tecnologias da informação e das telecomunicações, cunhada pela expansão da informática e da Internet nos últimos 20 anos.

"As TIC não constituem mais um meio, mais um suporte, mas chegam para mexer com as próprias bases dos processos de aprendizagem e do lugar que o conhecimento tem na sociedade contemporânea", segundo o educador chileno Emilio Gautier, coordenador de uma pesquisa baseada em estudos de casos em oito países latino-americanos. A aplicação das tecnologias da informática e das telecomunicações no ensino é um dos assuntos centrais da agenda da Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, convocada pela Organização das Nações Unidas, cuja segunda fase acontece esta semana em Túnis.

O estudo coordenado por Gautier foi organizado em 2004 e publicado este ano pelo Escritório Regional para a América Latina e o Caribe (Orealc) da Unesco e inclui experiências de formação de docentes e uso das TIC na educação no Chile, Equador, Bolívia, Colômbia, México, Panamá, Paraguai e Peru. "Um professor que não maneje as tecnologias da informação e da comunicação está em clara desvantagem com relação aos alunos. A tecnologia avança na vida cotidiana mais rápido do que nas escolas, inclusive em zonas afastadas e pobres com serviços básicos deficitários", disse Ana Luiza Machado, diretora da Orealc.

A alta funcionária da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) advertiu que, infelizmente, a sociedade moderna é incapaz de imprimir mudanças na educação no mesmo ritmo em que andam as inovações no campo das TIC. "As crianças utilizam a Internet, mas fora da escola, por exemplo, em tarefas que lhes dou para que façam pesquisas", disse à IPS Lucy Lagos (45 anos), professora da quarta série do ensino básico em Santa Teresa, uma escola particular com subvenção estatal de Quilicura, município ao norte de Santiago.

Lagos explicou que em sua escola existe uma sala com 20 computadores para os alunos e outros três para os professores, mas sem conexão com a Internet, a qual será obtida quando o colégio integrar plenamente a rede Enlaces, um programa do Ministério da Educação cuja meta é aplicar as novas tecnologias a todo o sistema de ensino médio e básico. A rede Enlaces teve início em 1992 e participam hoje cerca de cem mil professores de todo o Chile, e é uma das experiências estudadas na pesquisa da Orealc, que no caso deste país incluiu também projetos universitários de educação à distância e formação de professores do ensino básico no uso das novas tecnologias.

Na Bolívia, o Ministério da Educação soma a um programa de gestão e direção de núcleos educacionais um projeto de aprendizagem sustentado na radiodifusão interativa, voltado aos cuidados com a saúde. Na Colômbia existem outros três programas, que incluem um mestrado universitário em TIC, incorporação destas tecnologias ao ensino de matemáticas, e uma escola virtual no departamento de Caldas, apoiada pelos produtores de café. Maestr@s.com é o nome do projeto do Ministério da Educação do Equador, onde o governo da província de Pichinca (Quito) promove a incorporação à escola da informática e da Internet e a capacitação de professores com o programa Edufuturo.

A Orealc também estudou as experiências do Diplomado em Educação para os Meios à Distância, no México, e do Programa Educador do Século XXI, do Panamá, apoiado por uma fundação privada. No Paraguai, o Instituto Superior de Educação "Doutor Raúl Pena" realiza um plano-piloto de formação de docentes nas TIC, que é ministrado no mesmo nível em castelhano e guarani. Também com um ensino bilíngüe e voltado ás escolas rurais e indígenas está o programa Ñañemoarandúke (Aprendamos Juntos) para professores não titulados. Nesse país também existe o projeto Web Escola, da organização não-governamental Paidéia.

O elenco de experiências estudadas pela Oralc se completa no Peru com o Projeto Especial de Educação à Distância da Universidade Católica e com o Projeto Huascarán, também de educação à distância, do Ministério da Educação. Gautier, diretor de educação à distância da privada Universidade Arcis (Artes e Ciências Sociais) do Chile, destaca nos comentários da pesquisa que praticamente todas as experiências latino-americanas que vinculam as TIC e o ensino acontecem em um esquema associativo que supera "as barreiras entre o público e o privado".

Segundo o especialista, "em várias delas vemos a colaboração de organismos públicos com empresas privadas. Também vemos a convergência de organizações sindicais com grupos profissionais. Nessa síntese, existe um esforço de articulação de diferentes atores". Gautier acrescenta que, "nessa direção, se destaca a experiência de maestr@s.com do Equador, com participação do Ministério da Educação, de empresas privadas como fornecedoras de equipamentos, sindicato dos professores, universidades e unidades escolares". A pesquisa demonstra que há um esforço no sentido de sintonizar a formação docente às novas necessidades educacionais da sociedade da informação e que neste âmbito se visa favorecer a igualdade de oportunidades, em uma região onde a conexão com a Internet reflete, e também provoca, desigualdades sociais e econômicas.

Um desafio importante é a inovação, conceito permanentemente associado as TIC e que em matéria de educação implica atualizar o modelo e a gestão dos projetos, gerar a produção de materiais educativos com diferentes suportes e, sobretudo, inovar na didática. Ao contrário da visão da professora Arriagada, que culpa a Internet pelo hábito da leitura, Ana María Quezada, de 50 anos, professora de uma escola básica municipal na localidade de Maipú, a oeste de Santiago, utiliza programas informatizados em disco digital em suas aulas.

"Meus alunos trabalham com o programa Abracadabra para aprender a falar e escrever e também com programas supermatemáticos. Os trabalhos que antes apresentavam escritos à mão, agora o fazem em computador", disse à IPS esta professora que exerce a docência há 28 anos. Para as aulas na sala de informática trabalha-se com um computador para cada dois alunos. "Neste momento há muitas meninas e meninos que lidam com os computadores, apesar de muitos não terem essa ferramenta em suas casas. Vejo isto como um impacto positivo", destacou Quezada.

A professora Lagos, por outro lado, não esconde sua decepção. Na escola Santa Teresa de Quilicura ainda estão à espera de capacitar professores no Programa Enlaces e de obter uma conexão com a Internet. "O único impacto que vejo até o momento é a instalação de salas de informática fantásticas, bonitas. As crianças usam programas de jogos educativos, mas que são jogos. Não existe uma relação direta entre o que fazem no computador com os programas de estudo em matemática, ciências ou linguagem", enfatizou. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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