Paris, 09/11/2005 – Os violentos protestos de jovens imigrantes ou filhos de imigrantes na França começaram a tomar a forma de uma rebelião em todo o país contra a segregação racial e social e a repressão da polícia. As manifestações de jovens procedentes em sua maioria do Magreb e da África subsaariana, que começaram há cerca de duas semanas nos subúrbios de Paris, se estenderam à própria capital e cidades como Marselha, Reins, Nantes e Lille. No final de semana, cerca de 1.400 veículos foram incendiados em todo o país, bem como vários supermercados e edifícios públicos, incluindo escolas e instalações esportivas. Até agora já foram detidas mais de 400 pessoas. Na segunda-feira morreu um homem que ferido durante os enfrentamentos. Testemunhas disseram que ele foi brutalmente golpeado por policiais.
A polícia não conseguiu restabelecer a ordem apesar de sua dura resposta. Os grupos que coordenam seus protestos através de telefone celular, agem com rapidez, e conforme passam os dias fica mais claro que será preciso mais do que a intervenção policial para restaurar a calma. Os distúrbios começaram no dia 27 de outubro, depois que dois adolescentes imigrantes morreram acidentalmente em uma estação elétrica de alta voltagem em Clichy-sous-Bois, um distrito pobre localizado 30 quilômetros a nordeste de Paris. Ao se espalhar o boato de que os jovens haviam se escondido naquele lugar porque fugiam da polícia – versão negada pelas autoridades – explodiu a fúria dos imigrantes.
A polícia respondeu duramente aos protestos e chegou a lançar gás lacrimogêneo dentro de uma mesquita, o que aumentou a ira popular. A maioria dos moradores dos subúrbios parisienses onde começaram os distúrbios é muçulmana. A situação se agravou com as declarações do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que chamou de "escória" os jovens e ameaçou "limpar" os subúrbios. "As palavras de Sarkozy me lembram a retórica da polícia militar em ditaduras raciais e em regimes que praticam a limpeza étnica", disse à IPS o sociólogo Hughes Lagrange, do independente Observatoire Sociologique du Changement (Observatório Sociológico da Mudança), de Paris.
Lagrange destacou que no coração desta rebelião estão a extrema pobreza, o desemprego e a segregação racial que sofrem os imigrantes. Em lugar de enfrentar estes problemas sociais, Sarkozy aumenta a tensão "estabelecendo vínculos eleitorais com a população de extrema direita". O sociólogo também disse que uma das primeiras medidas de Sarkozy como ministro do Interior foi dissolver uma unidade policial especial criada pelo gabinete do ex-primeiro-ministro Lionel Jospin (1997-2002), que tinha a função de manter um estreito contato com organizações juvenis e prevenir a violência social. "O dever dos oficiais de polícia é perseguir os criminosos, e não jogar futebol com eles", disse Sarkozy nessa oportunidade.
A violência dos últimos dias provocou divisões no espectro político francês. O líder ultradireitista Jacques Bompard e o nacionalista Philippe de Villiers exortaram o governo do presidente Jacques Chirac a colocar o exército para dissolver os protestos. De Villiers afirmou que a rebelião é uma prova de que o modelo francês de integração racial "claramente falhou". Por outro lado, líderes muçulmanos franceses divulgaram um comunicado depois do ataque policial à mesquita pedindo a remoção de Sarkozy, já que não o consideram "um negociador apropriado".
Chirac criticou indiretamente a resposta de seu ministro à violência. "A lei deve ser aplicada firmemente, mas dentro de um espírito de respeito e diálogo", disse o presidente na semana passada. Líderes da oposição pedem a Chirac que troque o ministro do Interior. "Sarkozy é um incendiário que finge ser bombeiro", disse o jornal esquerdista L´Humanité. Noel Mamère, do Partido Verde, afirmou que o ministro é um "perigo para a democracia francesa" que "está destruindo rapidamente os esforços de um ano realizados por grupos e trabalhadores sociais pela integração cultural". Se Sarkozy não renunciar, "o governo tem de expulsá-lo", afirmou.
Por sua vez, o criminologista alemão Christian Pfeiffer, que pesquisa o crescente mal-estar entre os jovens da Europa, disse que "a atitude de Sarkozy é absolutamente inaceitável". Porém, o ministro do Interior resiste a pedir desculpas. "Não posso entender porque algumas pessoas fazem tanto escândalo pelas palavras, mas ignoram a realidade dos distúrbios e dos crimes", afirmou. Sarkozy também disse que os protestos de rua foram "organizados detalhadamente por máfias criminosas e extremistas religiosos".
Autoridades municipais e trabalhadores sociais em todo o país propõem a criação de um plano para promover o desenvolvimento dos distritos mais pobres, e assim evitar futuras explosões de violência. O prefeito da cidade de Mullhouse, Jean-Marie Bocke, pediu um "Plano Marshall para nossos distritos". Trata-se de uma referência ao programa de George Marshall – secretário de Estados norte-americano entre 1947 e 1949 – de assistência financeira e cooperação para o desenvolvimento para recuperar a Europa depois do fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). (IPS/Envolverde)

