Comunicações: Brecha digital fica em segundo plano

Túnis, 18/11/2005 – O debate político sobre a administração da Internet relegou a "brecha digital" na Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação (CMSI), lamentaram participantes do encontro, que procuram chamar a atenção para a diferença entre ricos e pobres no aceso à informação e às comunicações. "A governabilidade ocupou o centro do cenário", disse à IPS Ranjit Silva, da Worldvision, uma organização cristã de ajuda humanitária e desenvolvimento. "A Cúpula poderia ocupar-se de metas de desenvolvimento factíveis", sugeriu. O presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, e seu colega da Nigéria, Olusegun Obasanjo, destacaram na quarta-feira o potencial de desenvolvimento das tecnologias da informação e das comunicações (TIC) em um pedido público de apoio ao Fundo de Solidariedade Digital, que financiaria projetos comunitários baseados nessas tecnologias.

Não foram muitos os que se dispuseram a ouvir o apelo público dos dois mandatários africanos. Os países pobres já haviam sido passados para trás na primeira fase da CMSI (Genebra, 2003), quando as nações ricas se negaram a apoiar o Fundo de Solidariedade Digital. Este Fundo "depende em grande medida das contribuições das partes interessadas" e "qualquer contribuição ajuda, sem importar a quantia", disse Obasanjo. "Para aproveitar plenamente as TIC, devemos procurar reduzir a brecha digital através de fundos voluntários", como o de Solidariedade Digital, exortou o presidente nigeriano, citando o secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Kofi Annan. "Estes ativos, estas pontes para uma vida melhor, podem se tornar universalmente acessíveis. Devemos reunir a vontade para conseguir isso", insistiu Annan também na quarta-feira, e acrescentou que "o obstáculo é mais político do que financeiro".

Líderes de todo o mundo apoiaram o Fundo de Solidariedade Digital na Cúpula Mundial realizada na sede da ONU em setembro último, no início da 60ª sessão da Assembléia Geral. A Cúpula, também chamada "Milênio mais cinco" e considerada "a maior reunião de líderes mundiais da história", reconheceu em seu documento final que a ciência e a tecnologia são vitais para se alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. "Recebemos com grande satisfação o estabelecimento do Fundo de Solidariedade Digital e exortamos no sentido de serem feitas contribuições voluntárias", dizia o documento.

Até agora, o Fundo arrecadou 5,5 milhões de euros de seus 22 membros, que incluem nove países, além de organizações internacionais, cidades e províncias. Para a África, isto significou um êxito limitado. Por exemplo, a Associação para a Solidariedade Africana, com sede em Burkina Faso, já está colhendo frutos dois meses depois de receber o dinheiro do Fundo. O projeto dessa entidade envolve pacientes de HIV/aids. Graças à conexão de banda larga para suas clínicas, os pacientes se beneficiam da última informação médica e de comunicação direta com médicos e especialistas de outros países. "O investimento em tecnologias é necessário", disse Silva. "Existem inumeráveis exemplos de como as TIC beneficiam os pobres. Devemos discutir e compartilhar mais destas melhores práticas e histórias de êxito" na CMSI, acrescentou.

"É essencial que esta segunda fase da CMSI dê suficiente importância ao potencial da tecnologia para melhorar o nível da vida", afirmou Anton Mangstl, diretor da Divisão de Biblioteca e Sistemas de Documentação da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). "Freqüentemente, as debilidades não têm a ver com a infra-estrutura e as ferramentas, mas com o processo da adoção e do uso destas. Portanto, deve-se enfatizar a educação, o intercâmbio de informação e a comunicação", ressaltou. Se contarem com fundos adequados, as TIC podem reduzir notavelmente a brecha digital, e isto já está provado. "As TIC impulsionam a economia mundial", destacou Obasanjo. Mas também as locais.

Com fundos do Banco Mundial, em 1997 criou-se a Universidade Virtual Africana, que oferece educação de alto nível em toda a África através da Internet. A universidade funciona em 18 países desde 2002 e tem mais de três alunos inscritos. Na Índia, o Projeto Sushiksha, financiado pelo Instituto para o Desenvolvimento Social Internacional, envolveu mais de 50 mil moradores de bairros precários em um programa de alfabetização funcional no qual as ferramentas das TIC têm prioridade. A FAO lançou recentemente um programa chamado "Construir pontos para fechar a brecha digital rural", voltado à promoção de uma ajuda sistemática a comunidades rurais para que obtenham a informação que necessitam para melhorar seus métodos agrícolas e de comercialização e minimizar os efeitos de desastres naturais.

"Moradores e instituições rurais necessitam da oportunidade de desempenhar um papel vital no intercâmbio de informação. Estas comunidades têm tudo para contribuir com seu rico conhecimento agrícola local", destacou Mangstl. Yoshio Utsumi, secretário-geral da União Internacional de Telecomunicações, organizadora da CMSI, acredita que o mundo estará interconectado até 2015, incluindo as 800 mil aldeias que hoje não conhecem as TIC. Para conectar essas aldeias necessita-se de US$ 1 bilhão, disse Utsumi. Anualmente são investidos US$ 100 bilhões no sistema de telefonia móvel, portanto, é necessário apenas 1% dessa quantia para alcançar o objetivo. (IPS/Envolverde)

Mithre J. Sandrasagra

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