Rússia: Enterrar o comunismo ou enterrar Lênin?

Moscou, 08/11/2005 – A tempestade desatada quanto ao destino do embalsamado corpo de Vladimir Lênin não dá sinais de dissipar. O debate se refere não somente ao líder da Revolução Russa de 1917, mas também ao enterro do comunismo soviético. Os que mais se opõem ao eventual sepultamento dos restos mortais de Lênin, ainda hoje exibidos no mausoléu da Praça Vermelha de Moscou, são as organizações sociais e partidos políticos de esquerda. Por outro lado, as forças que assumiram o Kremlim depois do fim da União Soviética desejam enterrar o cadáver. Nos últimos tempos "houve freqüentes chamados no sentido de remover o corpo do líder comunista da Praça Vermelha para enterrá-lo", admite uma declaração conjunta assinada por 18 organizações esquerdistas e publicada em uma página na Internet do Partido Comunista.

"A figura de Lênin é ferozmente atacada e fica claro que se trata de uma campanha artificial orquestrada por interesses políticos", disse à IPS o dirigente russo, Gennady Zyuganov. A proposta é "sacrílega e irresponsável", segundo Zyuganov. "É, em suma, uma provocação, uma afronta à história deste país e ao senso comum. Com suas mãos sujas e suas cabeças ébrias pretendem penetrar neste santuário do Estado. O desejo de remover os restos mortais é um grande pecado e indício de uma patologia mental", afirmou. O comunismo, acrescentou, não foi substituído por uma democracia que funcionasse, mas por uma "administração totalmente má da democracia".

A confusão e a desordem no Kremlin se espalharam por todo o tecido social, segundo Zyuganov. "Que o Kremlin comece a pensar no re-enterro de nosso grande líder reflete um completo ódio em relação ao Partido Comunista e aos seus ideais", afirmou o dirigente. A intenção de construir uma nova democracia deixando para trás o legado do comunismo equivale a destruir a história, destacou. "Tudo somente porque o nome de Lênin estava associado com décadas de comunismo", prosseguiu. Vladimir Lênin planejou a revolução bolchevique que derrubou o regime do kzares em 1917 e foi o arquiteto e primeiro chefe do Estado soviético.

Lênin cresceu dentro de uma típica família provinciana. Seu nome de batismo era Vladimir Ilyich Ulyanov. Destacou-se na escola e continuou seus estudos de Direito na Universidade de Kazan, na província (hoje república federada) russa de Tartastão. Como universitário, sentiu-se seduzido pelo pensamento radical. Suas idéias se reforçaram depois da execução de seu irmão mais velho, integrante de uma organização revolucionária. Expulso da universidade por razões políticas, Lênin se arranjou para terminar seus estudos de advocacia como estudante externo em 1891. Mudou-se para São Petersburgo e converteu-se em um revolucionário em tempo integral.

Em 1901, começou a usar o pseudônimo Lênin. Passou a maior parte dos primeiros 15 anos do século XX na Europa ocidental e se converteu no líder da facção bolchevique do Partido Russo de Trabalhadores Social-democratas. A revolução que encabeçou triunfou em 1917. No ano seguinte, sobreviveu a um atentado. Sua saúde ficou afetada e em 1922 sofreu uma apoplexia da qual nunca se recuperou totalmente. Faleceu no dia 21 de janeiro de 1924. Seu cadáver foi embalsamado, mas não enterrado junto ao corpo de sua mãe, tal como ele havia desejado. As incessantes visitas ao mausoléu na Praça Vermelha refletiam o culto que havia se forjado em torno de sua pessoa.

Os pedidos para que o corpo seja retirado da praça moscovita começaram há 16 anos, quando o comunismo soviético entrou em colapso e os reformistas quiseram enterrar Lênin junto com o marxismo-leninismo. O primeiro presidente da Federação Russa depois do fim do comunismo, Boris Yeltsin, disse que a Praça Vermelha "não deve parecer um cemitério" e propôs, em 1997, um referendo para decidir o que fazer com o corpo. Mas chocou-se com a firme oposição do Partido Comunista. Agora o assunto deve ser resolvido, disse à IPS o líder do Partido Democrata Liberal, Vladimir Zhirinovsky. "É necessário fazer isto no prazo de um ano". Zhirinovsky apóia o sepultamento. Por acaso, o kzar Pedro o Grande jaz em uma cripta? As pessoas acreditam que se desfizeram das idéias comunistas. Mas imaginem o corpo de Hitler no centro de Berlim. Quem acreditaria, nesse caso, que os alemães se desfizeram do nazismo?", perguntou.

Alguns outros pensam que é muito cedo para enterrar Lênin. "A meu ver, o momento ainda não chegou", disse à IPS Alexander Sokolov, porta-voz do Ministério da Cultura. "Esta é uma questão muito delicada. Não penso que se deva dar um passo precipitado. É necessário se discutir publicamente este tema. Devemos assegurar que todos os que desejarem falar o façam, e então se tomaria uma decisão. Mas agora é claramente prematuro", afirmou. Entretanto, acrescentou, o cadáver de Lênin deverá ser enterrado no seu devido tempo. "Estamos falando de coisas elementares: os mortos devem ser entregues à terra. Não quero mencionar nenhuma data", acrescentou.

Uma pesquisa do Centro Analítico Yury Levada revelou que 40% dos russos consultados disseram que o outrora "líder do proletariado mundial" deveria permanecer no mausoléu da Praça Vermelha. Por outro lado, 36% responderam que seu corpo deveria ser enterrado em São Petersburgo, 15% disseram que sua sepultura deveria ser perto da muralha do Kremlin, e 9% se mostraram indecisos. O país está claramente dividido. (IPS/Envolverde)

Kester Kenn Klomegah

Kester Kenn Klomegah is the IPS Moscow correspondent. He covers politics, human rights issues, foreign policy and ethnic minority problems. His research interests include Russian area studies and Russian culture. Kester has worked for several years with the Moscow Times. He has studied social philosophy and religion and spent a year at the Moscow State Institute of International Relations. He is co-author of ‘AIDS/HIV and Men: Taking Risk or Taking Responsibility’ published by the London-based Panos Institute. In 2004, he was awarded the Golden Word Prize for excellence in journalism by the Russian Media Union, a non-governmental media organisation in Moscow.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *