Sarajevo, 13/12/2005 – O número de mortos na guerra da Bósnia-Herzegovina (1992-1995) foi muito menor do que se pensava, apesar de ter sido um custo humano atroz, afirma uma investigação independente. O diretor do não-governamental Centro de Pesquisa e Documentação (CID), Mirsad Tokaca, disse à imprensa bósnia que, segundo suas pesquisas, "a quantidade de mortes está em torno de 93 mil e possivelmente chegue a 100 mil. De todo modo, continua sendo um número extremamente alto, mas existe uma grande diferença em relação aos 200 mil que são mencionados", acrescentou Tokaca. Antes de começar a guerra, a Bósnia tinha 4,2 milhões de habitantes. "Não se pode inflar de maneira irresponsável os números com finalidade política", disse.
Tokaca espera concluir a pesquisa em março próximo, quando o CID publicará a quantidade exata de muçulmanos, sérvios e croatas mortos no conflito. O informe, que conterá dados sobre etnia, idade, gênero, procedência regional e datas das mortes, estará disponível na Internet. "Até o momento, nossas pesquisas indicam que 70% das vítimas foram bósnios muçulmanos, 25% sérvios e 55 croatas", disse Tokaca. O CID é uma organização não-governamental com sede em Sarajevo financiada pelo governo da Noruega e criado em 2004 para determinar o número exato de vítimas da guerra de independência da Bósnia-Herzegovina, que fazia parte da extinta federação da Iugoslávia.
A equipe de pesquisadores é formada por 12 especialistas de diferentes nacionalidades e etnias, e sua função e encontrar e examinar os arquivos militares e civis, bem como outros registros e fontes que encontrarem em território bósnio. A Bósnia-Herzegovina costumava se descrever como "um modelo de mistura multiétnica " na qual conviviam e casavam entre si muçulmanos, sérvios e croatas. Depois de um pronunciamento popular a favor da independência em março de 1992, estourou a guerra civil que fez, segundo se acreditava, mais de 200 mil vítimas, a maioria bósnia-muçulmanas. Esse conflito fez parte das guerras de secessão dos anos 90 nos Balcãs, que acabaram com o que havia sido a Iugoslávia, formada até então por Croácia, Bósnia-Herzegovina e Sérvia e Montenegro.
"Na sociedade onde predominam divisões ideológicas muito fortes, é comum negar-se terminantemente os fatos ocorridos, ou, pelo contrário, inflar os números para mostrar qual parte sofreu mais", disse Tokaca. "O caráter terrível e trágico da guerra na Bósnia-Herzegovina não vai mudar absolutamente quando se conhecer os números reais", ressaltou, "por isso não há nenhuma necessidade de fabricar mentiras e mitos sobre as vítimas", acrescentou. Uma das atrocidades pior documentadas é a execução de aproximadamente oito mil jovens e adultos muçulmanos em julho de 1995, quando uma milícia sérvio-bósnia irregular, apoiada por Belgrado, atacou a cidade de Srebrenica, sob proteção da Organização das Nações Unidas.
Os bósnio-muçulmanos afirmam que foi o pior massacre na história da Europa depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Os sérvios negam que esse massacre tenha ocorrido e dizem que se trata de uma história inventada pelos muçulmanos para prejudicar sua imagem. O Memorial de Potocari, nos arredores de Srebrenica, contém milhares de sepulturas que – afirma-se – são das vítimas desse massacre. Mas nenhum funcionário do governo bósnio está disposto a admitir publicamente que muitas das pessoas ali enterradas foram simplesmente vítimas da guerra. Alguns dos corpos pertencem, por exemplo, a bósnio-muçulmanos que morreram nos confrontos registrados nos arredores de Srebrenica no começo de 1992. Seus restos foram encontrados depois da guerra e, uma vez identificados, foram enterrados junto às vítimas do massacre de 1995.
Durante o conflito, a comunidade internacional tendeu a tomar partido pelos bósnio- muçulmanos, especialmente quando os sérvio-bósnios, apoiados desde Belgrado pelo regime sérvio de Slobodan Milosevic, se lançaram em uma campanha de extermínio, ou limpeza étnica. Em meados de 1995, os sérvios haviam chegado a controlar 70% do território da atual Bósnia-Herzegovina. As atrocidades contra os bósnio-muçulmanos tiveram uma ampla cobertura da imprensa internacional, mas também se utilizaram localmente com fins de propaganda. Nenhuma autoridade da Bósnia-Herzegovina fez comentários sobre os novos números do CID.
Vojin Dimitrijevic, professor de direito internacional de Belgrado, afirmou que "era comum as diferentes partes em conflito da ex-Iugoslávia exagerarem nos números das vítimas". Dimitrijevic disse à IPS que "isto tinha por objetivo provar quem estava sofrendo mais e quem devia ser castigado como culpado por crimes extremos". A manipulação de números "também visava a justificativa do direito de revanche pela parte mais sofrida. O que a história necessita é de fatos. Os números não devem ser usados como pretexto para vingança, nem para demandas judiciais pelos danos sofridos, nem com fins de propaganda", acrescentou.
A quantidade de 200 mil vítimas é a base para a demanda do governo da Bósnia-Herzegovina contra a atual Sérvia e Montenegro no Tribunal Internacional de Justiça na cidade holandesa de Haia, cujas audiências começarão em fevereiro próximo. "O problema principal do abuso no manejo dos números é porque desde o final da guerra não foi feito nenhum censo simultâneo coordenado por todas as nações envolvidas", disse à IPS o diretor de Mercado Estratégico, Srdjan Bogosavljevic. "Isto cria um terreno favorável à especulação", ressaltou. O último censo na ex-Iugoslávia aconteceu em 1991, um ano antes do início do conflito, disse Bogosavljevic, que na época dirigia o Escritório Federal de Estatísticas. Na Sérvia e na Croácia, os primeiros censos do pós-guerra foram feitos em 2002, embora tivessem de acontecer em 2001. Nem Bósnia-Herzegovina nem Kosovo (província autônoma onde mora a maioria dos albaneses muçulmanos) fizeram censos depois do fim das guerras dos Balcãs, em 1999. Natasa Kandic, diretora do Centro de Direito Humanitário de Belgrado, destacada instituição independente, acredita que as pesquisas em curso são de inestimável importância. "Enquanto não for estabelecido um número fidedigno de vítimas, não haverá nenhuma possibilidade de os habitantes dessa região poderem voltar a viver como bons vizinhos", disse à IPS. "Somente então teremos tocado fundo e poderemos nos dispor a sair do poço, porque, no final, compartilhamos a região, bem como uma herança e um futuro comuns", concluiu. (IPS/Envolverde)


o brasil è pior em paz que a bosnia e servia em guerra