França: Negros unidos contra a República Branca

Paris, 15/12/2005 – Sessenta associações de franceses de ascendência africana e caribenha uniram-se para exigir dignidade, inspirados em Martin Luther King, o líder do movimento pelos direitos civis dos negros norte-americanos, que foi assassinado. Entre os membros do Conselho Representativo de Associações Negras (Cran) figuram personalidades como a legisladora Christiane Taubira, o ativista pelos direitos humanos Fodé Sylla e os acadêmicos Pap Ndiaye e Françoise Vergès. "A República Francesa Branca acabou", disse Sylla à IPS. "As anacrônicas instituições francesas apenas servem para perpetuar a discriminação contra os que não são brancos. A França deve enfrentar criticamente sua própria história. A verdadeira", afirmou.

Este país se considera a cunha dos direitos humanos por causa dos três valores fundamentais da Revolução Francesa, de 1789: liberdade, igualdade e fraternidade. Hoje, os negros invocam esses mesmos valores. Depois dos distúrbios provocado por jovens imigrantes em outubro e novembro, em protesto contra a discriminação generalizada, o Cran pretende expor a percepção que os franceses têm de si mesmos, freqüentemente em contradição com os valores da Revolução. A Assembléia Nacional (Câmara baixa do parlamento) aprovou em fevereiro uma lei que determina ao sistema educacional "reconhecer" nos programas de ensino "o papel da presença francesa no estrangeiro, especialmente na África setentrional".

A lei foi interpretada como um elogio oficial ao não tão distante colonialismo francês, e acabou sendo questionada em países como Marrocos e Argélia, cujo partido governante, a Frente de Libertação Nacional, surgiu do movimento independentista dos anos 50. A Frente divulgou uma declaração condenando a lei, que "glorifica o colonialismo e uma visão retrógrada da história". Segundo a declaração, a lei tenta justificar a "barbárie do colonialismo apagando os atos mais atrozes" cometidos pelas forças francesas na Argélia. Em território de outras regiões ainda sob domínio francês, especialmente no Caribe, foram registradas reações semelhantes.

Manifestantes se concentraram em Fort-de-France, capital do departamento de ultramar da Martinica, para rejeitar "a lei da vergonha". O ministro do Interior e pretendente ao cargo de primeiro-ministro, Nicolas Sarkozy, cancelou uma viagem à Martinica com o argumento de que necessitava de "um ambiente sereno" para se reunir com os representantes locais. No começo deste mês, a França comemorou a vitória de Napoleão Bonaparte sobre as tropas russas e austríacas na batalha de Austerlitz. Nessa mesma oportunidade, o governo se esqueceu de que em 1802, Napoleão restabeleceu a escravidão e que, um ano depois, proibiu os casamentos mistos.

Mesmo a essa altura da história, as manifestações de racismo são comuns entre intelectuais franceses. O professor de Filosofia da Escola Superior Normal de Paris, Alain Finkielkraut, disse que a seleção francesa de futebol era "negra, negra, negra. Todo o continente europeu ri disso", afirmou Finkielkraut, entrevistado no mês passado por um jornal israelense. O Cran pretende combater esses pontos de vista. "Existe na França uma experiência compartilhada por milhões de pessoas que têm uma única coisa em comum: são negras", disse á IPS Pap Ndiaye, professor da Escola de Estudos Sociais de Paris. "Essa experiência se chama discriminação", ressaltou.

O jogador de futebol Vikash Dhorasoo, nascido na cidade francesa de Harfleur, contou que era regularmente parado pela polícia, até que ganhou prestígio como esportista. "Uma vez que comecei a me destacar como meio-campista, a polícia deixou de me hostilizar. Meu sucesso como jogador de futebol me fez branco", disse Dhorasoo, que defende a seleção da França e joga no Paris Saint Germain, em entrevista ao jornal esportivo L`Equipe.

A criação do Cran estava planejada muito antes dos distúrbios de outubro e novembro, que levou o governo a recorrer a uma lei de emergência aprovada em 1955 para conter a guerra dos argelinos contra o colonialismo francês. A crise e as respostas governamentais fortaleceram a decisão de pessoas como Sylla, Ndiaye e Vergès. O Cran reconhece que se inspirou em Martin Luther King, o pastor cristão e herói dos direitos civis que lutou contra a discriminação sofrida pela população negra dos Estados Unidos no final dos anos 50 e início da década seguinte.

A organização também reclama uma espécie de "ação afirmativa" como a instaurada naquela época nos Estados Unidos para ajudar no acesso e na permanência dos negros nas universidades e no mercado de trabalho. "Na França existem cursos universitários sobre a comunidade afro-norte-americana, ou sobre a história da escravidão nas colônias britânicas ou nos Estados Unidos", disse Ndiaye. "Mas não há praticamente chance de se estudar sistematicamente a história dos negros franceses". Stéphane Pocrain, também fundador do Cran, disse à IPS: "Nosso desafio é criar um modelo francês de coesão social que integra a consciência nacional as comunidades permanentemente excluídas por serem negras". (IPS/Envolverde)

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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