Toronto, 01/12/2005 – O combate a uma futura pandemia da gripe do frango irá requerer mais do que novos medicamentos e bons controles. De acordo com especialistas, também será preciso um contexto ético para tomar decisões. Uma pandemia dessa enfermidade poderia colocar em risco a saúde de milhões de pessoas em todo o mundo e superaria a capacidade dos sistemas de cuidados médicos. Para enfrentá-la, as autoridades sanitárias necessitam de um contexto ético que ajude a adotar decisões difíceis e obter a cooperação do público, segundo um estudo de acadêmicos canadenses sobre a crise da síndrome respiratória aguda severa (Sars), uma forma de pneumonia que matou 800 pessoas e deixou doentes outras oito mil em meados de 2003.
"Quando surgiu a Sars, apareceram os dilemas éticos", disse o diretor do Centro Conjunto de Bioética da Universidade de Toronto, Peter Singer, um dos autores do estudo, que inclui um adendo com 15 diretrizes para a tomada de decisões durante uma epidemia. "A Sars nos mostrou que a ética é importante porque fundamenta muitas decisões na atenção médica. Se uma pandemia da gripe aviária se tornar um "tsunami" internacional, então seria útil para cada chefe de Estado contar com este guia", disse à IPS. Até agora, cerca de 120 países têm planos para enfrentar uma eventual pandemia da gripe do frango, mas nenhum conta com um contexto ético, disse o especialista.
A gripe aviária afeta todo tipo de ave. Os primeiros sintomas nos seres humanos infectados são febre e tosse, bem como queda da pressão arterial e do nível de glóbulos vermelhos. Em última instância, pode-se desenvolver pneumonia. Já as aves ficam com os olhos vermelhos e sofrem danos no fígado. A doença, conhecida há cerca de cem anos, em 1997 ultrapassou a fronteira das espécies ao contagiar humanos. Algumas cepas são de elevadíssima mortalidade, mas a H5N1 é a pior de todas, devido à sua gravidade e capacidade de adaptação genética. A Organização Mundial da Saúde alertou que se esta cepa sofrer uma mutação de maneira que possa ser transmitida entre humanos, a doença se espalhará a todos os continentes em menos de três meses.
Por sua vez, o Banco Mundial, baseando-se nas experiências da Sars, disse que o produto interno bruto mundial poderia cair 2%, ou mais, em um cenário de pandemia. Isto significaria perdas no valor de US$ 800 bilhões no curso de um ano. A expansão global da enfermidade obrigaria as autoridades sanitárias internacionais, incluindo a OMS, a impor proibições de viagens e até fechar edifícios públicos como escola, igrejas e mesquitas. Durante o surto de Sars, a OMS impôs suas primeiras proibições de viagens, que causaram ao setor turístico do Canadá prejuízos de milhões de dólares. "Essa proibição esteve baseada na má informação, e o critério utilizado por essa organização não estava claro", disse Kumanan Wildon, professor associado da Universidade de Toronto.
Isto causou confusão entre o público e um enfrentamento na imprensa entre as autoridades canadenses e a OMS. "As decisões sobre restrições a viagens devem estar claramente justificadas, e o processo deve ser transparente e equilibrado entre todos os países", disse Wilson. Em última instância, a confiança é a chave para ganhar a cooperação pública para outras restrições ao movimento, como as quarentenas. As autoridades devem assessorar o público sobre os procedimentos e fundamentos, explicando os riscos e benefícios da medida, afirmou Singer. Esse enfoque contrasta com a idéia do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de usar suas forças militares para fazer respeitar quarentenas em caso de uma pandemia da gripe aviária.
"O envio de soldados para vigiar a quarentena de grandes quantidades de pessoas seguramente criaria pânico e faria com que as pessoas fugissem e, assim, espalhassem ainda mais a doença", disse o presidente do Departamento de Saúde Legal, Bioética e Direitos Humanos da Universidade de Boston, Geortge Annas. Um boato durante a pandemia de Sars de que Pequim estaria em quarentena fez com que cerca de 250 mil pessoas fugissem da cidade nessa mesma noite, contou Annas em um editorial para o periódico The Boston Globe. "Qualquer política efetiva de saúde pública deve estar baseada na confiança, não no medo do público", acrescentou.
Por outro lado, Alison Thompson, pesquisadora do Hospital Saint Michael, de Toronto, e co-autora do informe, destacou que um contexto ético explícito facilitaria para as autoridades explicar à população os fundamentos de cada medida, e aos trabalhadores da saúde quais são os riscos que correm. Alguns destes se negaram a atender pessoas infectadas com Sars em 2003, e vários foram demitidos por não se apresentarem para trabalhar, pois consideravam que não contavam com proteção suficiente. Uma epidemia da gripe aviária seria ainda pior, segundo os especialistas. "A sociedade deve reconhecer os grandes riscos que correm os trabalhadores da saúde e garantir sua segurança", afirmou Thompson à IPS. (IPS/Envolverde)

