Iraque: Um país impagável

Bagdá, 05/12/2005 – Os Estados Unidos destinaram milhares de milhões de dólares à reconstrução do Iraque, mas a população desse país do Golfo luta para subsistir em meio a uma inflação e um desemprego incontroláveis, além do corte nos serviços básicos. Antes da invasão lançada pelos norte-americanos em 2003, os iraquianos recebiam uma ração mensal de produtos básicos graças ao programa humanitário da Organização das Nações Unidas Petróleo por alimentos, que aliviava o efeito das sanções internacionais contra o regime de Saddam Hussein. Cada chefe de família recebia cupões mensais que lhe permitia adquirir produtos como açúcar, arroz, chá, detergente, óleo para cozinhar, feijão e leite para os bebês. Mas as autoridades iraquianas estabelecidas pela ocupação norte-americana depois do triunfo da invasão e as eleitas mais tarde nas urnas não conseguiram realizar uma entrega pontual de cestas básicas mensais de alimentos, em meio a um desemprego estimado em quase 70%.

Abu Alí, de 66 anos, trabalhou até há pouco tempo como distribuidor dessas rações. "O Ministério de Comércio distribuía açúcar para as pessoas. Mas parou. Isto significa que temos de comprar no mercado, ao dobro do preço. O que farão os pobres para conseguir açúcar?", perguntou. Abu Mushtaq, de 40 anos e pai de cinco filhos, carece de dinheiro para comprar produtos básicos, mesmo recebendo por mês do governo 120 mil dinares iraquianos (US$ 85) para compensar a escassez de rações. "Os preços do petróleo, do querosene e até do pão aumentaram muitas vezes desde a invasão. Os invasores vieram ao Iraque apenas para encherem seus bolsos", lamentou à IPS.

O governo decidiu entregar dinheiro às famílias para enfrentar o problema na entrega de rações. Mas, essa medida aumentou a demanda de certos artigos e, com isso, os preços também aumentaram. "O Ministério do Comércio não forneceu açúcar nos últimos sete meses, nem arroz durante dois meses, nem chá por quatro meses, nem óleo de cozinha nos últimos três meses", recordou Abu Alí. O preço do açúcar no varejo aumentou 25%, do arroz 80%, do chá 100% e do óleo 50%. Os lares de Bagdá têm acesso, em média, a apenas três horas de energia elétrica por dia. Alguns iraquianos, os que podem pagar, usam pequenos geradores movidos a querosene.

Mas a escassez de petróleo e o racionamento continuam. Só é permitida a entrega de 40 a 50 litros mensais por veículo. O governo interino considera quintuplicar o preço do combustível no início do próximo ano. A situação se complica por causa das tentativas de alguns iraquianos de compensar as dramáticas situações de suas economias particulares. "Muitos proprietários de imóveis cobram aluguem duas ou três vezes maiores do que o normal. Isto cria uma espiral", disse Abu Alí. A esperança também parece um produto escasso. "Qualquer um que disser que existem planos é um mentiroso", disse à IPS Abu Anas, funcionário do Ministério do Comércio. "O governo ainda é interino, assim não pode fazer planos, e tampouco pensa que seja sua tarefa. Que Deus ajude o povo iraquiano", acrescentou.

Muitos analistas culpam o governo dos Estados Unidos por esta situação. "A reconstrução do Iraque é o maior dos programas norte-americanos de ocupação desde o Plano Marshall" para a reconstrução da Europa depois da Segunda Guerra Mundial, escreveu o analista Ed Harriman no London Review of Books. "Mas existe uma diferença: Washington financiou o Plano Marshall, enquanto que o secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, e o ex-chefe civil da ocupação, Paul Bremer, se asseguraram de que a reconstrução do Iraque seja paga pelo país "libertado", pelos próprios iraquianos", explicou.

Segundo a investigação de Harriman, sobraram US$ 6 bilhões do programa Petróleo por Alimentos, e os ganhos com o reinício das exportações de petróleo iraquiano produziram outros US% 10 bilhões no ano seguinte à invasão. O Congresso norte-americano destinou US$ 18,4 bilhões à "reconstrução" do Iraque, mas Harriman estima que "até 28 de julho do ano passado a Autoridade Provisória de Coalizão (autoridade civil da coalizão ocupante) havia gasto até US$ 20 bilhões em dinheiro iraquiano e apenas US$ 300 milhões de fundos norte-americanos". Dois dias antes da data citada por Harriman, 26 de junho, Bremer abandonou Bagdá para evitar um possível ataque no caminho ao aeroporto.

Acusações de fraude e roubo assediaram os ocupantes do Iraque desde o princípio. Os auditores do governo dos Estados Unidos encontraram sérios problemas. "Até agora, os auditores suspenderam mais de cem contratos, envolvendo milhares de milhões de dólares pagos ao pessoal e às companhias norte-americanas, para a investigação e possível processo penal", escreveu Harriman. "Também descobriram que enquanto Bremer esteve no cargo, desapareceram US$ 8,8 bilhões através dos ministérios do novo governo iraquiano, com poucas chances de averiguar para onde foram", afirmou. Cerca de US$ 3,4 bilhões destinados pelo Congresso dos Estados Unidos ao desenvolvimento do Iraque "foram desviados para a "segurança" financeira de então", acrescentou. O Iraque tem riqueza em petróleo e dólares, mas seus habitantes não a vêem. (IPS/Envolverde) –

Dahr Jamail

Dahr Jamail is the IPS lead writer on Iraq. In that capacity he has covered Iraq directly and extensively on the ground, and at other times organised reporting out of Iraq. Several of his breaking news stories could not be covered by any other media organisations. Jamail is author of the eye-opening book ‘Beyond the Green Zone: Dispatches from an Unembedded Journalist in Occupied Iraq’. Besides reporting from within Iraq for eight months, he has been covering the Middle East for five years. A regular correspondent for IPS, Jamail has also contributed to The Independent, The Guardian, the Sunday Herald, and Foreign Policy in Focus, among others. His reporting has been translated into French, Polish, German, Dutch, Spanish, Japanese, Portuguese, Chinese, Arabic and Turkish.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *