OMC: A globalização desigual

Gurgaon, Índia, 13/12/2005 – A elegante aparência da cidade de Gurgaon, no Estado indiano de Haryana, esconde uma história de trabalhadores explorados e protestos silenciados. Quem observa os edifícios de cromo e metal que expõe pode cair na fácil tentação de acreditar que a globalização chegou a esta distante parte do mundo, onde há apenas uma década camponeses aravam e búfalos pastavam. Hoje, graças à grande quantidade de questionadas concessões oferecidas pelo governo local a investidores multinacionais, Gurgaon aparece no endereço postal de muitas marcas de roupa, automóveis e aparelhos eletrônicos mais conhecidos do mundo.

Puneet Kumar se mostra satisfeito. O gerente-geral da WIPRO Technologies – empresa líder do mercado do design de telefone celular – acaba de se mudar para uma luxuosa casa em Gurgaon para viver de perto seu escritório. "Precisamos viver e trabalhar em um ambiente que se equipare aos melhores do mundo", afirmou. Seu salário não carece de qualquer relação com a renda anual por habitante da Índia, que chega a apenas US$ 800 anuais nesse país. Nesse caso, não poderia levar o estilo de vida que tem, comparável ao de qualquer profissional do Norte industrial.

Mas nem todos estão satisfeitos. Os brilhos na fachada desta cidade, construída com base no comércio e no êxito exportador, ocultam uma história de exploração trabalhista e protestos. "Que tipo de vida você pensa que vivemos?", respondeu Sunita, operária em uma fábrica de roupa de uma marca de renome, quando a IPS lhe perguntou sobre a situação dos trabalhadores em Gurgaon. Sunita trabalha 12 horas por dia em pé, e sua função e cortar fibras ininterruptamente. Almoça no único intervalo que tem de 15 minutos. Cada ida ao banheiro provoca olhar de desaprovação e mal-estar de seu supervisor, afirma.

O trabalho, que algumas vezes consistem em cortar fibras e, em outras, cortar telas ou pregar botões, é mecânico e fragmentado, de modo que a participação do operário no produto final é ínfima. O que Sunita fabrica se destina ao mercado europeu. As mães com bebês enfrentam um momento difícil. Devem se apressar para chegar em casa – normalmente choças em um bairro próximo – alimentar seus filhos e voltar, também correndo. "Não há outra opção, a não ser trabalhar assim", disse Mohsina, outra operária. Os problemas de saúde e psicológicos são abundantes entre as mulheres, mas ninguém parece se importar.

O inspetor que supervisiona as condições de trabalho na fábrica é tratado como um convidado da administração, afirmou sua colega."Só ficamos sabendo quando vem e quando vai", acrescentou. A frieza do governo para a angustiante situação dos trabalhadores ficou evidente em julho, quando operários de uma fábrica subsidiária da gigante automobilística japonesa Honda foram brutalmente reprimidos pela polícia por fazerem greves e manifestarem perto do local de trabalho. Aproximadamente 63 pessoas foram presas e muitas ficaram feridas. A polícia fichou os dirigentes sindicais.

O que salvou os operários foi a intervenção dos partidos comunista da Índia, dos quais depende a coalizão governante – encabeçada pelo Partido do Congresso (centro-esquerda) – para permanecer no poder. Os comunistas conseguiram a libertação dos trabalhadores sob fiança, mas o governo do Estado de Haryana ainda não retirou as acusações que pesam contra eles. Os sindicalistas sentem que as autoridades locais estão abertamente do lado das empresas exportadoras. "Logo que surgem apenas sinais de formação de um sindicato, o governo toma medidas drásticas. Procuram criar uma fobia, insinuar aos trabalhadores que algo poderia acontecer a eles caso se unissem", disse Satbir Singh, secretário do Centro de Sindicatos da Índia em Haryana.

Segundo o presidente do Centro, M. K. Pandhe, os empregados de serviços na área de tecnologias da informação e similares – como os call centers, centros de atendimento ao cliente localizados no exterior – são mais vulneráveis à exploração porque as leis trabalhistas não se aplicam a eles. "Esse pessoal trabalha extenuantes turnos de 12 horas e, se falam em sindicato, os empregadores lhes mostram a porta da rua", afirmou. Espera-se que o dinheiro ganho pela Índia com os programas de informática e de serviços em 2005 cheguem a US$ 17,9 bilhões. Além disso, o país exporta anualmente US$ 7 bilhões em roupas.

As exportações de veículos automotores entre abril e outubro deste ano superaram os 33,4% registrados no mesmo período de 2004, segundo a Sociedade de Manufaturadores Automobilísticos Indianos (Siam). O governo considera que a indústria é chave para o crescimento econômico, mas pouco se pode esperar em termos de melhora das condições de trabalho. Um projeto de lei em estudo no parlamento, por exemplo, prevê eliminar as visitas de inspetores estatais, introduzindo, em contrapartida, um mecanismo de certificação por parte dos proprietários das unidades de produção.

Por trás do brilho, a agitação cresce em várias partes de Gurgaon. Os trabalhadores se agrupam cada vez mais e exigem o direito de associação. "Queremos que as leis trabalhistas sejam uniformes e não aplicadas seletivamente a uma indústria em particular, seja voltada, ou não, à exportação", disse D. Raja, secretário nacional do Partido Comunista da Índia, se referindo ao "caso Honda". (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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