América Latina: Mudanças favoráveis a Castro

Havana, 06/01/2006 – O fecho de ouro do novo desenho político na América Latina foi a vitória eleitoral na Bolívia do dirigente cocalero e indígena Evo Morales, do Movimento ao Socialismo, que "possui todas as qualidades para dirigir seu país e seu povo nesta hora tão difícil do mundo", na opinião de Fidel Castro. Morales, eleito no dia 18 de dezembro, é um admirador de Castro e do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, a quem visitou esta semana, cinco dias depois de ter se encontrado com o presidente cubano em Havana. Ambos acolheram o primeiro indígena da história boliviana a chegar à Presidência com ajuda para iniciar seus planos sociais. De Cuba, entre outras coisas, Morales levou cinco mil bolsas para jovens pobres que queiram estudar medicina e suporte técnico e didático para uma campanha de alfabetização que começará em julho, a qual Chávez decidiu apoiar com US$ 30 milhões.

Observadores indicam essa tendência regional voltada a governos de emancipação política e econômica que "se distanciam" da metrópole, Washington, com seus matizes. Este seria o caminho empreendido por Brasil, Argentina, Venezuela, Uruguai e, agora, Bolívia. Processos eleitorais no Chile, México e Nicarágua também podem desembocar nessa rota, inclusive no Peru, onde um candidato nacionalista, o militar da reserva Ollanta Humala, figura entre os favoritos para as eleições presidenciais de abril, especialmente entre setores populares descrentes de partidos e políticos tradicionais.

Humala viajou a Caracas esta semana convidado pelo oficialista Movimento V República e, na presença de Morales, foi saudado por Chávez como "representante da estirpe de meu admirado general Juan Velasco Alvarado", o militar golpista e nacionalista que governou o Peru entre 1968 e 1975. "O mapa político está mudando, é preciso refletir, observar muito e informar-se bem", adverte Castro ao fim de um ano em que seu governo reatou relações diplomáticas plenas com Uruguai e Panamá. Somente El Salvador permanece na região sem vínculo de nenhum tipo com Havana.

Por outro lado, tenderam a um enfraquecimento as tensões de anos anteriores, centradas especialmente nas votações de sucessivas resoluções de censura a Cuba por violações de direitos humanos, que Havana rechaça e considera parte da campanha hostil e de descrédito promovida pelos Estados Unidos. Dos 53 países que de maneira rotativa até agora integram a Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, com sede em Genebra, 11 são latino-americanos. Destes, México, Costa Rica, Guatemala e Honduras votaram em 2005 a favor do texto apresentado pela delegação norte-americana e patrocinado pela União Européia. Brasil, Argentina, Equador, Paraguai, Peru e República Dominicana se abstiveram, enquanto Cuba votou contra. A resolução acabou aprovada por 21 votos a favor, 17 contra e 15 abstenções.

Prevê-se que 2006 seja o último ano de funcionamento dessa Comissão, devido à reforma em andamento na ONU, que estabelece sua substituição por um Conselho de Direitos Humanos. De Genebra também se derivam os desencontros do governo de Castro com a UE, que tradicionalmente vota em bloco a favor das resoluções que condenam Havana e mantém desde 1996 uma "posição comum" de exigência de mudanças democráticas por parte do regime cubano. Apesar dos esforços do governo espanhol do primeiro-ministro socialista José Luis Rodríguez Zapatero, as tensões com a Europa não diminuíram, e as autoridades de Cuba não dão sinais de ceder em sua afirmação de que este é o país "mais democrático do mundo" e o mais respeitoso dos direitos humanos.

Os europeus " se alinham com os ianques porque não têm o valor, a ética, de defender sua posição: porque são seus aliados estratégicos, na qualidade de aliados menores", disse o chanceler, Felipe Pérez Roque, durante as sessões da Assembléia Nacional do Poder Popular (poder unicameral) dos dias 22 e 23 de dezembro. Neste contexto, a chegada de Morales à Presidência da Bolívia assegura para Havana um novo tipo de aliança na região e abre novas portas para a reinserção cubana na América Latina e no Caribe, seu entorno geográfico natural. Cuba e Venezuela consideram que já estabeleceram as bases para uma integração "independente dos Estados Unidos", ao assinarem, em abril de 2005, quase meia centena de convênios de cooperação em matéria de educação, saúde, economia e comércio.

Os acordos tentam expor ao restante da região os alcances da Alternativa Bolivariana para as Américas, uma iniciativa de Chávez contrária ao congelado processo da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), impulsionado por Washington. Por seu lado, Castro amplia uma oferta internacional de serviços de saúde, com brigadas médicas que chegam atualmente a 68 países, 28 deles se beneficiando do Programa Integral de Saúde que nasceu depois do desastre provocado, em 1998, pelo furacão Mitch na América Central. Além disso, a Escola Latino-Americana de Medicina, inaugurada em 1999 com estudantes centro-americanos e agora dedicada à formação profissional gratuita de jovens de 27 países, formou no ano passado os primeiros 1.612 médicos comprometidos a exercer a medicina sem espírito comercial em suas nações de origem.

Tais programas despertam simpatia especialmente em setores pobres da população da América Latina, a região com maior brecha do mundo entre ricos e pobres. Segundo a Corporação Andina de Fomento, a pobreza medida pelas pessoas que vivem com menos de dois dólares por dia inclui 37% dos habitantes do Brasil, 62% da população da Bolívia, 54% dos que moram no Peru, 50% dos residentes na Colômbia, 45% dos argentinos, 48% dos venezuelanos e 39% dos mexicanos. O último informe da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) constatou que países com governos progressistas encabeçam a lista das economias de maior crescimento em 2005, com Venezuela (9%) e Argentina (8,6%) na liderança, seguidos de Uruguai e Chile, cada um com 6%.

Cuba informou uma expansão de 11,8% de seu produto interno bruto, dado que a Cepal não considerou até avaliar a metodologia utilizada por Havana, que desde 2004 vem somando ao PIB os gastos com educação, saúde e outros serviços subsidiados. Fontes dessa agência da ONU indicaram que no ano passado Cuba também incluiu em sua estimativa do PIB uma importante "exportação de serviços sociais para vários países", especialmente a Venezuela. (IPS/Envolverde)

Patricia Grogg

Patricia Grogg es chilena y reside en La Habana. Se desempeña como corresponsal permanente de IPS en Cuba desde 1998. Estudió gramática y literatura española en la Universidad de Chile, y periodismo en la Universidad de La Habana. Trabajó como reportera, jefa de redacción y editora en la agencia cubana Prensa Latina. A mediados de la década de 1990 se incorporó por unos meses como jefa de redacción a la agencia Notimex en Santiago de Chile. Desde Cuba también ha colaborado con medios de prensa mexicanos y chilenos. En su labor cotidiana investiga temas sociales, políticos, energéticos, agrícolas y económicos.

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