Biu, Nigéria, 06/01/2006 – Jacmel, Haiti, 06/01/2006 – As peças publicitárias políticas inundam as rádios e as ruas ficam forradas de cartazes e folhetos pedindo o voto dos cidadãos entre 35 candidatos presidenciais e cerca de 1.300 ao parlamento. O Haiti sonha e age como se estivesse às vésperas de eleições, o que não ocorre. Cartazes pendurados de lado a lado das ruas insistem para os haitianos votarem, sendo que 80% dos que têm idade para votar já se registraram. Porém, este pequeno país caribenho, o mais pobre da América, não está perto de votar. As eleições presidenciais e parlamentares foram adiadas por quatro vezes, e a última por tempo indeterminado.
Os que pensavam que iriam às urnas no outono passado agora esperam fazê-lo no final de janeiro. Outros começam a duvidar que as eleições aconteçam. Em um país que teve somente raras centelhas de democracia, um surpreendente número de cidadãos ainda tem fé no futuro institucional, que está sendo colocada à prova por estas eleições. Um governo provisório governa o Haiti há quase dois anos, depois de derrubada de Jean-Bertrand Aristide, o primeiro presidente eleito nas urnas, e muitos cidadãos dizem estar ansiosos pela restauração da democracia. Entretanto, os problemas logísticos podem pesar mais do que o forte desejo da população em votar.
Os potenciais eleitores só não sabem quando irão às urnas, e muitos deles não foram informados nem mesmo onde votarão. Outros foram inscritos em locais de votação tão distantes que não poderão escolher seu próprio prefeito ou representantes. Alguns afirmam que nada os deterá. Marcel Denis aparenta ter 90 anos, mas ele mesmo desconhece sua idade exata. Sentado do lado de fora de sua casa, debulhando ervilha com mãos frágeis e trêmulas, disse à IPS que pretende votar, embora para isso tenha de ser empurrado em um carrinho de madeira por uma milha para chegar ao local de votação. "Estarei ali pela bandeira e apoiarei quem resultar eleito, porque neste momento não temos nenhuma Presidência", afirmou.
Inclusive, alguns distribuidores de cartões de votação, perfeitamente a par da desordem por trás dos bastidores, se mostram determinadamente otimistas. Jean-Herold Jean, operador de um centro de votação, entende que não haverá problemas importantes que possam afetar o resultado das eleições. "Os centros de votação são tão pequenos que algumas pessoas terão de esperar na fila durante seis horas, e uma quantidade delas terá de caminhar pelo menos uma hora para poderem votar", explicou. "Mas as pessoas realmente não se queixam, porque irão votar, de qualquer maneira. Se o povo realmente necessita de mudança e acredita nela, votará", afirmou.
Jean e o restante dos funcionários do escritório eleitoral disseram que ignoram o mais recente adiamento das eleições. "As pessoas dizem que não teremos eleições no próximo dia 18, mas não há novas datas, por isso, sem uma nova data, simplesmente continuaremos acreditando e agindo como se as eleições fossem acontecer". Mas alguns futuros eleitores sabem que podem se frustrar. Um dos vizinhos de Denis disse estar determinado a votar, mas reconheceu que pode ter de voltar ao seu trabalho em uma fábrica na República Dominicana antes de haver eleições. Outra vizinha afirmou que, se como muitos outros foi indicada para um centro de votação em uma montanha a uma hora de caminhada, ela simplesmente não votará, porque não pode perder tanto tempo em seu horário de trabalho.
Há também aqueles que se mostram cada vez mais frustrados, perguntando como as coisas puderam ficar tão desordenadas. Até agora, US$ 60 milhões, procedentes em sua maior parte da União Européia, dos Estados Unidos e do Canadá, foram gastos na organização das eleições. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), encarregado de destinar o dinheiro, prevê que terá de gastar US$ 14 milhões adicionais para concretizar as eleições do Haiti. Para o eleitorado, superior a 3,5 milhões de pessoas, foram instalados apenas 804 centros de votação, bem menos do que nas últimas eleições realizadas no país.
Os registros do PNUD mostram que alguns dos gastos e dores de cabeça mais importantes se originam nos graves problemas de segurança e escassa infra-estrutura do país. Somente o custo dos guardas de segurança eleitoral supera os US$ 9 milhões. Estes seguranças são necessários porque o Haiti não conta com forças armadas desde que estas foram dissolvidas por Aristide e tem um fraco e pouco confiável força policial. Além disso, os nove mil soldados da força da paz da Organização das Nações Unidas não são considerados suficientes para a tarefa.
O esforço para recrutar guardas sem vínculos com empresas de segurança privadas, ex-membros do dissolvido exército ou da polícia – todos considerados potencialmente tendenciosos – faz com que a maioria dos contratados não tenha experiência e, portanto, necessitem de treinamento significativo. Porém, os 3.600 novos guardas tampouco são suficientes. Os funcionários eleitorais temem estabelecer centros de votação, por exemplo, em Cite Soleil, um bairro sabidamente perigoso de Porto Príncipe onde rondam os grupos fortemente armados e a maioria da população pede a volta de Aristide.
Os organizadores das eleições ainda não decidiram se instalarão, ou não, centros de votação nessa área, onde cem mil moradores se registraram para votar. Outro grande gasto será necessário para instalações e infra-estrutura eleitorais, que custam mais de US$ 7 milhões, porque os planejadores das eleições começaram sem nada. Todos os locais de votação anteriores foram destruídos por vândalos. E sem um fornecimento estável de eletricidade na maior parte do país, foi preciso a compra 170 geradores alimentados a gás e 260 painéis solares.
A falta de infra-estrutura também significa que um helicóptero terá de ser usado para recolher os votos nos locais remotos, uma vez que estejam nas urnas, para poderem ser contados oportunamente. Mas a pergunta de por que as coisas são tão caóticas tem mais a ver com construir uma base democrática do que com dinheiro, afirmam os planejadores eleitorais. Segundo Pierre Richard Duchemin, membro do Conselho Eleitoral Provisório do Haiti, organismo que controla todo o processo, o planejamento das eleições esteve paralisado desde o começo.
O Conselho está formado por nove membros selecionados por vários setores da sociedade, nenhum deles com experiência em organizar eleições, e supõe-se que devam vigiar o trabalho dos especialistas de todo o mundo. Duchemin se queixou de que o poder do Conselho foi debilitado pelo governo interino. Outros indicaram que as autoridades e as organizações internacionais tinham de trabalhar em torno da direção do Conselho, porque o mesmo é disfuncional. Prematuras disputas internas levaram á renúncia do primeiro presidente do Conselho, e os problemas continuaram. Uma luta de poder entre o Conselho e os organismos regionais nos quais supunha-se que teria de delegar levou a uma completa crise de comunicação.
O resultado foi que o Pnud gastou mais de US$ 1 milhão em salários e transporte para o pessoal eleitoral da região, que nada fez porque não recebeu nenhuma orientação do Conselho. Mas alguns candidatos e organizadores das eleições insistem em dizer que os problemas podem ser resolvidos em questão de semanas. As eleições não serão perfeitas, mas serão um primeiro passo. "Não vamos resolver os problemas do Haiti", disse Duchemin. "Teremos um bom ponto de partida se fizermos apenas o que deve ser feito para que as pessoas neste país não sintam que foram rejeitadas ou enganadas", afirmou. (IPS/Envolverde)

