Cuba: Uma multidão marcha por justiça e contra os EUA

Havana, 25/01/2006 – As principais ruas da capital cubana foram inundadas por pessoas de todas as idades num protesto contra a política dos Estados Unidos e pedindo justiça para as vítimas dos atos do terrorista Luis Posadas Carriles. "Já acenderam o luminoso, como são valentes os cucarachas", comentou nesta terça-feira o presidente de Cuba, Fidel Castro, ao observar a mensagem eletrônica colocada no último dia 16 na fachada do Escritório de Interesses de Washington em Havana (Sina).

O luminoso, último capítulo da chamada "guerra de imagens" entre o governo norte-americano de George W. Bush e o de Castro, somou-se, assim, ao cenário que começou a ser montado na véspera: Carriles pintado sobre o asfalto, um cartaz mostrando seu rosto e o de Bush como se fossem vampiros, com dentes ensangüentados, e o título "assassinos". "Vingança não, justiça", "Bush, fascista, condene o terrorista", gritavam mulheres, homens, e crianças cubanos e não poucos estrangeiros, ao passarem diante do edifício da Sina. Por outro lado, o painel eletrônico da Sina respondia: "Aos que querem estar aqui, respeitamos seu protesto, aos que não queriam estar aqui, desculpem o transtorno".

Dessa maneira se dava mais um passo na transmissão contínua de manchetes como "No Canadá os conservadores ganharam após 12 anos de governo liberal", "Os Estados Unidos deram permissão á equipe cubana para participar do clássico mundial de beisebol que começa a partir de 3 de março no Japão, Estados Unidos e Porto Rico", e "Evo Morales inaugurou seu novo gabinete de 16 ministros". Também podiam ser lidas frases de personalidades internacionais: "A fé profunda elimina o medo", de Lech Walesa; "Nenhum homem é suficientemente bom para governar outros sem seu consentimento", de Abraham Lincoln, e "Quero liberdade para a plena expressão de minha personalidade", de Mahatma Gandhi, finalizando com "leia o que quer, diga o que pensa, faça o que lhe pareça correto".

Mais de um milhão de manifestantes se concentraram em Havana, segundo fontes oficiais, em uma marcha pela "justiça" e de "reafirmação revolucionária" que coincidiu com o início nos Estados Unidos da revisão do caso de Carriles, detido por entrar ilegalmente nesse país no ano passado. Washington "busca deliberadamente libertar" este terrorista de origem, cubana, afirmou o presidente Castro no começo da manifestação. Terrorista confesso e treinado pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos, Carriles assumiu seus vínculos com a organização e execução de vários atentados contra Cuba, entre eles a sabotagem em outubro de 1976 de um avião da Empresa Cubana de Aviação, que explodiu em pleno vôo matando seus 73 ocupantes.

Depois de fugir, em 1985, de uma prisão na Venezuela, foi detido em 2000 no Panamá e condenado a oito anos de prisão por organizar um atentado contra Fidel durante a X Cúpula Ibero-americana realizada nesse país centro-americano. Entretanto, Carriles foi indultado em 2004 pela então presidente Mireya Moscoso, já perto do final de seu mandato, e no ano passado entrou ilegalmente nos Estados Unidos. "Nos deu um aperto no coração desde que começamos a ouvir a notícia de que Carriles poderia ser libertado", disse Margarita Morales, filha de Luis Alfredo Morales, uma das vítimas da sabotagem de 1976. Washington tem "um dever moral" neste caso, que é o de fazer justiça, afirmou.

Após a decisão do juiz de imigração William Abbott de negar o pedido de extradição feito pela Venezuela, Carriles enfrenta apenas uma revisão administrativa de seu caso no Escritório de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), processo que poder durar cerca de uma semana para depois culminar com liberdade condicional. "Foram enviadas provas suficientes de suas ligações com a comunidade, um resumo de sua vida pública, dados de sua família nos Estados Unidos, bem como do lugar onde viverá e uma proposta de emprego imediato se for libertado", disse à imprensa norte-americana seu advogado, Eduardo Soto. Se não for solto neste momento, o defensor assegurou que apresentará uma demanda federal para conseguir sua libertação.

O jornal El Nuevo Herald, de Miami, recordou na terça-feira que o Supremo Tribunal dos Estados Unidos determinou, no ano passado, que o país não pode manter em cativeiro indefinido as pessoas "deportáveis", a menos que sejam indivíduos "altamente perigosos para a comunidade". Em suas breves palavras antes de começar a marcha, Castro afirmou que, após ser "libertado pela CIA da prisão na Venezuela no dia 18 de agosto de 1985", Carriles se vinculou à "guerra suja contra a Nicarágua, fornecendo armas desde El Salvador e enviando drogas para os Estados Unidos".

"Carriles sempre manteve estreita ligação com os órgãos de inteligência dos Estados Unidos e foi financiado pelo governo desse país" e usado "ao longo de mais de quatro décadas para tentar assassinar o chefe de Estado cubano", acrescentou o presidente. "Ninguém no mundo poderá negar estas verdades", disse Fidel, e se limitou a ler um fragmento de sua fala na televisão no último domingo, um resumo de sua visão sobre a atual política norte-americana para Cuba que tenta, a seu ver, primeiro "atender os desejos" dos setores mais radicais do exílio cubano. O mandatário disse que "o atual governo dos Estados Unidos fracassou totalmente em seus planos de isolar e asfixiar economicamente" a ilha, e por isso comprometeu "o plano macabro" da transição política neste país, "uma grosseira ingerência na soberania" do país, afirmou.

Castro assegurou que, além de libertar Carriles, os planos de Washington incluem "violar abertamente" os acordos migratórios vigentes entre os dois países, "impedir a todo custo a venda de produtos agrícolas" norte-americanos para a ilha e "forçar uma ruptura dos atuais vínculos diplomáticos mínimos com Cuba". O "ódio que existe contra este país é grande. É preciso esquecer a teoria de que aqui não vai acontecer nada. O que a Sina faz é uma provocação", afirmou Pablo Maza, presidente de um Comitê de Defesa da Revolução, organização de massas que funciona em nível de bairro. "Querem criar uma situação que justifique uma agressão contra Cuba", disse este homem de quase 80 anos. (IPS/Envolverde)

Dalia Acosta

Dalia Acosta ha sido corresponsal de IPS en Cuba por muchos años. Se graduó en 1987 de la licenciatura en periodismo internacional en el Instituto Estatal de Relaciones Internacionales de Moscú. Trabajó un año en el diario cubano Granma y otros seis en Juventud Rebelde, donde incursionó en el periodismo de investigación sobre mujer, minorías, sida y derechos sexuales. En 1990 recibió el Premio de Periodismo Tina Modotti, y en 1992 el Premio Nacional de Periodismo por un reportaje sobre la comunidad rockera de su país. Empezó a colaborar con IPS en 1990 como parte de un proyecto de comunicación con el Fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA). Desde 1995 se desempeña como corresponsal en La Habana, y entre 1991 y 2010 trabajó también para el Servicio de Noticias de la Mujer de Latinoamérica y el Caribe (SEMLac).

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *