Belgrado, 25/01/2006 – Um futuro estável para Kosovo, a província sérvia que espera ficar independente através de conversações patrocinadas pela Organização das Nações Unidas, parece menos viável depois da morte de Ibrahim Rugova, seu primeiro presidente. Rugova, de 61 anos, faleceu de câncer de pulmão no último sábado em Prístina, capital de Kosovo. Sua morte deixou a província de dois milhões de habitantes, a maioria pertencente à etnia albanesa, com um complexo legado que inclui numerosos problemas a serem resolvidos.
O primeiro é sua própria sucessão. O presidente do parlamento provincial, Nechat Daci, de 61 anos, o substituirá até ser eleito o novo presidente. Mas espera-se uma dura batalha política a respeito. O segundo são as conversações com a Sérvia patrocinadas pela ONU, cujo início estava previsto para esta quarta-feira em Viena. Rugova se preparava para liderar a delegação kosovar. Sua morte forçou o adiamento da instância até fevereiro, em data ainda não definida. O chefe da missão das Nações Unidas em Kosovo, Soren Jessen Petersen, expressou preocupação pela situação interna na província.
Em uma sessão parlamentar extraordinária no domingo, Petersen pediu calma e recordou aos políticos kosovares que "a aspiração à qual Rugova dedicou sua vida foi a de uma Kosovo livre. É uma visão cuja concretização está em suas mãos, lideres políticos de Kosovo, cuja unidade e compromisso com a missão do senhor Rugova será vital nos próximos meses", acrescentou. "Este é um momento crucial para Kosovo, o mais importante desde 1999", disse à IPS o analista Nexhmedin Spahiu. Nesse ano, a Sérvia foi bombardeada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em resposta à repressão dos albano-kosovares em mãos do regime do então homem forte da Iugoslávia, o sérvio Slobodan Milosevic (1989-2999).
Desde então, a província sérvia é administrada pela ONU, enquanto está pendente uma decisão sobre seu estatuto definitivo. "Nenhum líder político tem suficiente apoio entre seus partidos para ser presidente", acrescentou Spahiu. De acordo com a Constituição provisória, o presidente de Kosovo é eleito pelo parlamento e deve proceder do partido político que ganhar as eleições gerais. Rugova pertencia à Aliança Democrática de Kosovo (DPK). Seu partido se destacou pela resistência passiva ao regime da Sérvia desde 1990, e Rugova foi seu líder indiscutível. Segundo Spahiu, dirigentes mais agressivos de outros partidos podem competir pelo cargo, o que complicaria as negociações com Belgrado.
Entre eles figura o carismático líder do insurgente Exército de Libertação de Kosovo, Hashim Thaci, de 37 anos, que, segundo insistentes versões, competirá pelo cargo. O guerrilheiro travestido de político é considerado um herói por amplas camadas da população albano-kosovar. Outro candidato é Veton Surroi, rico empresário de 43 anos, ex-jornalista e dono do jornal Koha Ditore e da rede de televisão KTV. Surroi foi um destacado crítico da repressão de Belgrado, mas não pegou em armas no período 1998-1999. Também figura entre os possíveis aspirantes o primeiro-ministro, Bajram Kosumi, de 45 anos, do partido Aliança para o Futuro de Kosovo.
Kosumi fez sua carreira á sombra de Ramush Haradinaj, a que substituiu como primeiro-ministro quando Haradinaj foi acusado de crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, com sede na cidade holandesa de Haia. Os meios de comunicação da Sérvia – república que não parece preparada para aceitar a eventual independência de Kosovo – não divulgou maiores comentários depois de morte de Rugova. Mas alguns meios destacaram as opiniões do analista norte-americano Daniel Server, para quem a situação na província se "radicalizará" pela luta de poder entre dirigentes políticos que disputarão a presidência.
"Parece que haverá uma significativa luta pelo poder, e o resultado ainda é desconhecido", afirmou. Server disse que os líderes com antecedentes da época da guerra terão melhores possibilidades, o que dificultará as negociações com Belgrado. Sanda Raskovic-Ivic, ministro de Assuntos Kosovares do governo sérvio, recordou aos jornalistas que, embora "Rugova tenha engendrado a idéia de uma Kosovo independente, suas maneiras de atingir seu objetivo excluíram as ações agressivas e a opção da guerra". Se a "burocracia armada" assumir, pode "incitar ao mal-estar e à violência para conseguir a independência", alertou. (IPS/Envolverde)

