Washington, 31/01/2006 – Os doadores que aportam os fundos que sustentam a Autoridade Nacional Palestina (ANP) consideram reduzir sua ajuda, alarmados com a vitória do partido islamista Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) nas eleições parlamentares. A União Européia e os Estados Unidos reagiram com nervosismo a essa vitória, e alguns funcionários já propõem a retirada total da ajuda às instituições palestinas. Um membro do Parlamento Europeu disse na semana passada que o bloco não pode financiar uma organização que não renuncia à luta armada contra Israel, principal aliado do Ocidente no Oriente Médio.
O Hamas está comprometido a combater Israel enquanto o Estado judeu ocupar território árabe. De todo modo, depois da vitória eleitoral dirigentes do partido ofereceram aos seus inimigos uma extensão de um ano da atual trégua. Porém, Washington, que colocou o Hamas em sua lista oficial de organizações terroristas, manifestou profunda insatisfação com o resultado das eleições. Alguns funcionários norte-americanos adiantam que será eliminada toda ajuda financeira. O Banco Mundial calcula que a metade do orçamento da ANP – isto é, cerca de US$ 1,1 bilhão – procede da ajuda estrangeira.
O cônsul-geral dos Estados Unidos em Israel, Jacob Walles, disse que seu país congelaria a ajuda a um governo encabeçado pelo Hamas. No ano passado, lembrou Walles, a ANP recebeu de Washington US$ 400 milhões em assistência direta e vários milhões mais através de instituições humanitárias norte-americanas. O senador dos Estados Unidos, John Thune, apresentou no Senado um projeto de resolução – embora, se aprovado, não terá caráter obrigatório – para por fim à ajuda de Washington à ANP se o partido majoritário no parlamento palestino mantiver a opção das armas contra Israel.
"Seria um erro um único dólar dos contribuintes norte-americanos ser enviado à ANP se um partido majoritário em seu parlamento exorta pela destruição de Israel", disse Thune. "Israel é um de nossos aliados mais próximos e a paz no Oriente Médio é uma de nossas máximas prioridades", afirmou. O também senador Lindsey Graham, um dos legisladores do setor "falcão" do governante Partido Republicano, pediu que seja reconsiderada a ajuda norte-americana à Palestina, que é vista como hostil a Israel. "Os resultados das eleições levam a uma declaração de guerra de fato do povo palestino contra o Estado de Israel", disse Graham. "É imperativo que nossa nação redobre seu compromisso com o Estado de Israel e avalie com cautela qualquer futura ajuda a um regime palestino governado por terroristas", advertiu.
Israel, que também entrega fundos á ANP através de transferência de impostos, pagamentos à assistência social e tarifas alfandegárias, anunciou que também cortará essa contribuição a um governo liderado pelo Hamas. "Enfrentaremos os problemas práticos relativos a como tratar com gente que prega a destruição de Israel", disse ao jornal israelense Ha´aretz o alto funcionário do Ministério das Finanças Yossi Bachar. "Se querem continuar trabalhando conosco, deverão encontrar uma solução. Do contrário, não vejo como conseguirão dinheiro", afirmou Bachar. O ex-presidente do Banco Mundial e enviado especial da Organização das Nações Unidas ao Oriente Médio, James Wolfensohn, alertou que cortar a ajuda jogaria a economia palestina no "caos".
"Basicamente, a Palestina está na bancarrota", disse Wolfensohn. A ANP carece de dinheiro suficiente para pagar os salários de seus 135 mil empregados, acrescentou. Mas alguns analistas consideram que a situação se complica a tal ponto com a vitória eleitoral do Hamas que a União Européia e os Estados Unidos poderiam estar disparando o alarme sem saberem o que farão na realidade. O governo de George W. Bush havia cortado seus vínculos com a ANP, mas teve de voltar atrás com dificuldades para recuperar a influência perdida no governo de Mahmoud Abas, que sucedeu o falecido Yasser Arafat na presidência da Palestina.
A ajuda econômica é uma das vias principais para canalizar a influência ocidental sobre o governo palestino dirigido pelo secular, mas nacionalista, partido Fatah, qualificado de corrupto e ineficiente pela população árabe e as instituições financeiras internacionais. "Não posso imaginar que busquem mecanismos de ajuda somente para atingir certo equilíbrio e para moldar as negociações", disse Edward Sayre, especialista em economia palestina do centro universitário norte-americano Agnes Scott College. "Creio que os europeus estão ainda menos dispostos a cortar totalmente a ajuda, porque querem ser negociadores", previu.
Outra razão pela qual o Hamas pode sobreviver às ameaças de boicote econômico é que, por seus antecedentes de transparência administrativa e financeira, poderiam ter um melhor rendimento que o governo da Fatah. Em dezembro, o Banco Mundial, que controla um fundo de US$ 250 milhões criado em 2004 para a assistência econômica à Palestina, congelou seus desembolsos á ANP porque suas autoridades não cumpriram os requisitos de responsabilidade e transparência. O Hamas sugeriu na sexta-feira, através de seu dirigente Mahmoud al-Zahar, não identificados que prevê uma reforma e ajuste total da economia palestina, mas não deu maiores detalhes. Al-Zahar disse que a ANP agirá com maior abertura e credibilidade.
Se o Hamas tiver sucesso em suas intenções, e muitos especialistas acreditam que terá, ganhará credibilidade e incentivará a radicação do investimento, e, finalmente, também a ajuda estrangeira. Sayre afirmou que a maior ameaça para a recuperação econômica é o eventual fechamento por Israel dos territórios palestinos ao movimento de bens e trabalhadores. Se o Hamas conseguir evitar que isso ocorra, terá obtido outro triunfo. "Um corte da ajuda dos Estados Unidos e da União Européia teria um efeito negativo, e se Israel não quiser ter nenhum vínculo e deter o movimento fronteiriço de bens, então a economia sofrerá uma estagnação", afirmou o especialista. "Mas poderão avançar enquanto puderem obter alguns fundos dos Estados Unidos e da UE, o que considero provável, e enquanto puderem negociar certa abertura de fronteiras com Israel", concluiu Sayre. (IPS/Envolverde)

